Itamar Ciríaco
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O Brasileiro tem fé. Seja na procissão, no vento da orla ou na chegada do salário no quinto dia útil, fé é o que nos move. Mas quando o assunto é a Seleção Brasileira, o estoque de crença anda mais baixo do que a maré na Praia de Ponta Negra em dia de lua nova.
Uma pesquisa da Folha de S.Paulo jogou a pá de cal, anunciando, com a frieza de um zagueiro sueco, que apenas 33% da população brasileira acredita no Hexa em 2026. Convenhamos: 33% é o mesmo percentual de brasileiros que acredita que a gasolina vai abaixar de preço. É um otimismo patológico, uma teimosia tipicamente nossa.
Por anos a fio, fomos alimentados com um futebol que parecia saído de uma reunião de condomínio mal organizada: talentos individuais, muita discussão e pouca estratégia. A Seleção era um eterno “Time do Zap”, onde a estrela se sentava no trono e o técnico, bem, o técnico parecia estar ali apenas para checar se a água do vestiário estava gelada o suficiente.
Mas, meus amigos, o futebol é o único esporte onde a esperança não morre; ela apenas se transfere para o próximo ciclo, geralmente após um choro copioso e promessas de “agora vai”. E o que temos agora? Temos um nome que mexe com a bolsa de valores do otimismo: Carlo Ancelotti. A simples menção do italiano faz a gente arrumar a postura na cadeira e pensar: “Pode ser que sim.”
O Brasil que enfrenta a Tunísia (em um amistoso que, sejamos honestos, tem o mesmo grau de interesse de uma reprise de jogo de basquete chinês) já respira outro ar. Mas a frieza dos números e dos nossos concorrentes não permite delírios de grandeza ainda.
Se o futebol fosse decidido no papel timbrado de uma multinacional, o título estaria sendo disputado hoje entre Espanha e França. Os espanhóis, com seu futebol de toque que te faz dormir de tédio, mas que é letalmente eficiente; e a França, que tem um Mbappé que joga tanto que parece um personagem de videogame com cheat code ativado.
Eles jogam juntos, têm estratégia e parecem mais coesos do que o time de 2022 que perdeu para um time que jogava com a bandeira do Tite na frente.
Aí entram os Palpiteiros de Luxo. A Argentina vive no purgatório da dúvida: Messi vai? E se for, vai com a perna direita ou a bengala? O impacto técnico é grande, mas o impacto emocional é maior ainda. Se ele estiver no banco, o adversário já treme. Se ele entrar mancando, o adversário treme de pena.
A Inglaterra, por sua vez, é a menina bonita da festa que tem todas as roupas, mas nunca sabe qual usar. Um talento oceânico, mas com a necessidade urgente de um técnico que não trate o elenco como um time de juniores mimados. Precisam de um Treinador com “T” maiúsculo.
É aqui que entra a nossa dose de veneno e sarcasmo. Quem disse que é preciso jogar um futebol “maravilhoso” para ser campeão? Essa é a maior falácia do comentarista de internet.
Em 2022, a Argentina tomou aquela sapatada histórica da Arábia Saudita na estreia, e a torcida argentina, que já é naturalmente dramática, preparou o luto. Duas semanas depois, estavam fazendo tatuagem do Dibu Martínez.
Lembrem-se de 2002. O Brasil chegou no Japão desacreditado, com um time que parecia uma colcha de retalhos, mas que, sob a batuta de Felipão e a mágica do trio Rivaldo, Ronaldo e Ronaldinho, emendou sete vitórias e levou a taça. O futebol era pragmático, era feio às vezes, mas era vitorioso.
O que importa na Copa é a virada de chave. É o detalhe tático do técnico, é o jogador que decide acordar no momento exato. É o espírito que, de repente, abraça o time. É a confiança do mercado de apostas que entende essa mística: o Brasil, mesmo aos trancos e barrancos, tem os atletas-chave para fazer isso acontecer. Por isso, a gente nunca sai do topo das cotações.
E para a edição de 2026, teremos o circo armado para ser ainda maior: de sete para oito jogos o caminho até a glória, com 48 seleções e a invenção da fase de dezesseis avos de final. É mais futebol, mais cansaço, e mais chances de uma zebra ridícula acontecer.
Essa Copa também marca o fim da era dos dinossauros. Messi e Cristiano Ronaldo podem estar lá, mas serão sombras.
Portugal já percebeu que precisa se livrar da muleta de Cristiano Ronaldo. Ele ainda é um fenômeno, mas exige que o jogo corra no pé dele. Em 2026, ele será um belo encosto, a ser usado com a precisão de um especialista em bomba relógio. Já a Argentina, sem o Messi no auge, perde o fator técnico e o fator milagreiro.
O Brasil, inteligentemente ou por inércia, já começou a renovação. Mas fica a pergunta que não quer calar e que mexe com o nosso humor ácido: Neymar voltará? Quando o joelho sarar, ele terá a disciplina de se encaixar em um time de Ancelotti ou teremos o retorno do drama?
Enquanto a Europa (Alemanha sem Kroos, Itália em reconstrução) se adapta, nós temos Vini Jr., um craque que corre na lateral como se estivesse fugindo de uma conta para pagar. Temos Endrick, que quer o status de supercraque. A França tem Mbappé; a Espanha pode ter Yamal.
E o Brasil? Bem, o Brasil sempre será o Brasil. Temos nossos problemas, nossas dúvidas, mas no momento em que a bola rola e a camisa amarela entra em campo, o mundo para. E é por isso que, mesmo com apenas 33% de fé, o Brasil sempre terá que ser respeitado.
Que os Deuses do Futebol sejam generosos com as nossas previsões.
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Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.
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