Gaudêncio Torquato
Escritor, jornalista, professor-emérito da ECA-USP e consultor político

O fim de ano se aproxima sob o impacto de chuvas torrenciais que castigam diversas regiões do país, expondo a fragilidade histórica da infraestrutura urbana e a incapacidade crônica do poder público de prevenir tragédias previsíveis. Mas, além das águas que transbordam rios e invadem cidades, o Brasil enfrenta outro dilúvio: o das incertezas políticas e econômicas que se acumulam no horizonte.

No plano político, o cenário permanece rigidamente polarizado. Mesmo com pesquisas indicando vantagem do presidente Lula em cenários de primeiro e segundo turnos, a divisão entre lulistas e bolsonaristas segue intensa desde 2022. A clivagem deixou de ser apenas eleitoral para se tornar estrutural, emocional e identitária, bloqueando consensos mínimos e empobrecendo o debate público.

Essa polarização já projeta sua sombra sobre 2026. Embora o calendário eleitoral ainda esteja distante, o país vive um estado permanente de pré-campanha. Lideranças calculam gestos com foco no pleito, partidos evitam decisões impopulares e o discurso radical tende a se intensificar. O centro político, fragmentado e sem narrativa consistente, tem dificuldade para se afirmar em meio ao ruído dos extremos.

No Congresso, o resultado é um ambiente de negociação instável e pragmática, baseado mais em conveniências momentâneas do que em projetos de longo prazo. O Executivo governa sob pressão contínua, enquanto o Judiciário é empurrado para o centro da arena política, assumindo protagonismo em temas que deveriam ser resolvidos pela via institucional tradicional.

No campo econômico, os sinais também são preocupantes. O rombo nas contas públicas se aprofunda. Dados do Banco Central indicam que a dívida do setor público consolidado subiu um ponto percentual em setembro, alcançando 78,1% do PIB — cerca de R$ 9,75 trilhões. Trata-se de um patamar elevado para um país emergente, sobretudo em um contexto de crescimento modesto e forte pressão por gastos sociais.

O avanço da dívida reduz a capacidade de investimento do Estado, pressiona a política monetária e amplia as desconfianças sobre a sustentabilidade fiscal. Mais que um dado técnico, o problema é político. Em ano pré-eleitoral, cresce a tentação do gasto fácil e das promessas generosas, enquanto diminui a disposição para ajustes impopulares, porém necessários.

O risco é claro: 2026 pode se transformar em uma eleição plebiscitária, dominada por paixões e ressentimentos, com pouco espaço para um debate sério sobre responsabilidade fiscal, reformas estruturais e adaptação aos desafios climáticos, tecnológicos e demográficos. A lógica do confronto pode produzir vencedores eleitorais, mas não soluções duradouras.

Entre enchentes que revelam a ausência de planejamento, uma polarização que paralisa o diálogo e uma dívida pública que estreita o campo de escolhas, o Brasil encerra o ano imerso em incertezas. O desafio não é apenas vencer a próxima eleição, mas recuperar a capacidade de pensar o médio e o longo prazo, resgatar a confiança nas instituições e substituir o grito pela razão.

Sem isso, seguiremos atravessando tempestades — climáticas, políticas e fiscais — com a sensação de que o pior pode estar logo adiante.

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Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.

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