Alcançar a tão sonhada nota mil na redação do Enem está longe de ser obra do acaso. Na verdade, é resultado de disciplina e muita prática. O estudante Wellington Ribeiro é a prova disso: escreveu dezenas de textos, dedicou-se ao estudo de gramática e investiu na construção de um repertório sociocultural para diversas temáticas. Em entrevista ao GUIA DO ESTUDANTE no início deste ano, ele relembrou o desafio: “Todo esse processo de escrita, de ter uma linha argumentativa sólida, é extremamente difícil e foi muito árduo para mim”. O esforço valeu à pena.
Wellington encarou o exame quatro vezes e evoluiu continuamente até alcançar a nota máxima em redação — com notas anteriores de 880 e duas notas 920. Na edição de 2025, que teve como frase-tema “Perspectivas acerca do envelhecimento na sociedade brasileira”, apostou em uma redação recheada de referências, de Clarice Lispector ao sociólogo Ruy Braga.
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Logo na introdução, o estudante citou o conto “Feliz Aniversário”, de Clarice Lispector, obra presente no livro “Laços de Família”. Na narrativa, uma idosa comemora seu aniversário, mas a festa expõe o abandono e a falta de carinho da família, que só a visita em datas especiais. “Isso escancara a falta da perspectiva acerca do envelhecimento. Esse esquecimento velado, sabe?”, destacou Wellington ao comentar a escolha.
Na sequência, citou a Lei dos Sexagenários, que foi utilizada como um exemplo histórico de exclusão, evidenciando como os escravizados idosos foram deixados às margens da sociedade. Para completar, incluiu também uma referência ao estudo do sociólogo brasileiro Ruy Braga.
Veja a redação na íntegra

No livro “Feliz aniversário”, a escritora Clarice Lispector aborda, dentre outros aspectos, a realidade de exclusão vivenciada por grande parte dos idosos brasileiros, os quais, de acordo com a autora, só são lembrados por seus familiares em datas comemorativas. Ao transpor o viés literário, percebe-se a acentuação dessa problemática, a qual aflora a falta de perspectiva social perante o envelhecimento existente no Brasil contemporâneo. À vista desse contexto, é ideal analisar o passado nacional e o descaso governamental como desafios para a plena longevidade da sociedade.
Diante desse cenário, nota-se que a dificultosa promoção de um futuro digno à terceira idade advém de um processo de desenvolvimento nacional pautado na exclusão socioespacial. Isso pode ser constatado de forma evidente, pois o país, desde o período do Brasil Colônia, foi constituído por práticas violentas (como a promulgação da Lei dos Sexagenários), as quais visavam à marginalização de escravizados com mais de 60 anos em detrimento da inserção respeitosa dessa parcela da população no cotidiano brasileiro. Nesse sentido, essa atitude segregacionista mascara, há gerações, a necessidade de reverter esse revés e naturaliza, nos dias atuais, o silenciamento desenfreado dos idosos, produzindo culturalmente a ideia de inferioridade desse grupo. Assim, torna-se inegável o contínuo retrocesso da nação acerca do reconhecimento da velhice como importante e inevitável, à medida que a manutenção de raízes históricas degradantes existe.
Ademais, é fundamental ressaltar que a negligência estatal perpetua a aversão social ao inerente envelhecimento populacional. Essa questão se intensifica, na atualidade, ao passo que o Brasil não possui uma campanha nacional concreta e eficaz de estímulo à qualidade de vida da terceira idade. Tal panorama foi estudado pelo pesquisador Rui Braga, o qual, a partir de uma perspectiva crítica voltada à realidade latino-americana, verbaliza que a ausência de um modelo assistencial inclusivo e socialmente comprometido permite o não reconhecimento dos idosos como integrantes ativos da sociedade. Sob essa ótica, o posicionamento do estudioso é válido, visto que políticas públicas ineficientes possibilitam a precarização do bem-estar da terceira idade, de modo a qualificar essa faixa etária como pouco importante para a edificação da nação – suprimindo o seu futuro salutar. Por isso, essa situação hostil precisa ser revertida.
É premente, portanto, uma medida que perpetue perspectivas positivas ao envelhecimento populacional. Logo, cabe ao Poder Executivo federal – mais especificamente ao Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania – fomentar o respeito à terceira idade. Tal ação ocorrerá por meio da criação do “Projeto Nacional Vida Feliz”, o qual engajará debates públicos – ministrados por idosos – em mais de 5500 municípios brasileiros, a fim de desmistificar ideias advindas da colonização do Brasil e de protagonizar a atuação de pessoas idosas no combate direto e frontal à marginalização sofrida por elas, culminando na promoção da dignidade a essa parte da sociedade. Afinal, não é aceitável que, em um país democrático, a população envelhecida seja, como denunciado por Clarice, invisibilizada.
Laços de família, de Clarice Lispector

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Notícia publicada originalmente por Enem – Guia do Estudante
em nome do autor Beatriz Arruda.
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