Médicos brasileiros desenvolveram uma técnica inovadora que promete mudar o tratamento de aneurismas considerados de alta complexidade, ampliando as possibilidades terapêuticas e reduzindo riscos aos pacientes. Batizado de Bifurcated In-Stent In Situ Technique (BIS2T), o método permite preservar artérias essenciais durante cirurgias endovasculares procedimentos realizados por dentro dos vasos sanguíneos, com menor agressão ao organismo.

Os resultados do estudo que descreve a nova técnica foram publicados em maio de 2025 no Journal of Endovascular Therapy (JEVT), uma das principais revistas científicas da área. Em novembro do mesmo ano, o trabalho foi apresentado na plenária principal do 52º VEITH Symposium, congresso internacional de referência em cirurgia vascular e endovascular, realizado em Nova York, o que reforçou a relevância e o impacto da inovação brasileira no cenário médico global.

A técnica foi desenvolvida inicialmente no Hospital Santa Lúcia, em Brasília, e posteriormente aprimorada em colaboração com especialistas do Baylor College of Medicine, nos Estados Unidos. Diferentemente da cirurgia aberta tradicional que exige grandes incisões e um período de recuperação mais prolongado , o procedimento endovascular utiliza stents, dispositivos semelhantes a pequenas molas metálicas, implantados no interior dos vasos para reforçar a parede arterial.

Segundo os pesquisadores, o grande desafio estava nos chamados aneurismas complexos, nos quais a anatomia do paciente dificulta ou até inviabiliza as técnicas convencionais. Estudos citados no artigo apontam que até 19% das pessoas com aneurisma de aorta abdominal apresentam alterações nas artérias renais, como vasos acessórios ou bifurcações precoces. Considerando outras variações anatômicas, esse percentual pode chegar a 20% dos pacientes, grupo que historicamente enfrenta limitações importantes no tratamento.

Nessas situações, a alternativa muitas vezes era o fechamento intencional de uma artéria para permitir a correção do aneurisma uma decisão delicada, associada a riscos relevantes, como perda de função de órgãos irrigados por aquele vaso. A BIS2T surge justamente para evitar esse “sacrifício” vascular, preservando a circulação sanguínea e reduzindo a chance de complicações graves.

“A proposta da técnica é oferecer uma solução viável, utilizando dispositivos já disponíveis no mercado, para pacientes que antes tinham opções muito restritas de tratamento endovascular”, explica o médico Gustavo Paludetto, chefe do Centro de NeuroCardioVascular do Hospital Santa Lúcia e um dos autores do estudo. De acordo com ele, a inovação amplia a segurança do procedimento sem aumentar significativamente sua complexidade.

De forma simplificada, a BIS2T funciona a partir da implantação de uma prótese principal (stent) no vaso afetado pelo aneurisma. Em seguida, o cirurgião cria uma pequena abertura nesse stent, permitindo o acesso a um segundo vaso importante, onde outro stent é implantado. Assim, dois vasos essenciais podem ser preservados a partir de uma única estrutura principal, algo que antes era extremamente difícil ou impossível em determinados casos.

Especialistas destacam que, além de menos invasiva, a técnica pode contribuir para uma recuperação mais rápida dos pacientes e para a redução de custos hospitalares, já que evita cirurgias mais extensas e complicações associadas. Com o reconhecimento internacional e a publicação em revista científica de alto impacto, a expectativa é que a BIS2T passe a ser adotada e estudada por centros médicos de referência em diferentes países.

Para os autores, o avanço reforça o protagonismo da medicina brasileira na produção de conhecimento científico de ponta e abre caminho para novas soluções no tratamento de doenças vasculares complexas, beneficiando pacientes que, até pouco tempo atrás, tinham alternativas limitadas e arriscadas.



Notícia publicada originalmente por Luciana
em nome do autor LUCIANA NOVAIS.

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