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    Início » Cachaça, história, elemento cultural – Tribuna do Norte
    Rio Grande do Norte

    Cachaça, história, elemento cultural – Tribuna do Norte

    10 de fevereiro de 2026
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    João Medeiros Filho
    Padre

    Pode parecer insólito um clérigo abstêmio abordar tal assunto. O tema chamou minha atenção, quando criança. Presenciava mamãe discutir com papai por conta da embriaguez de alguns operários. Ele simplesmente respondia: “É a única alegria deles, ao terminar a semana, neste fim de mundo (Jucurutu).” Minha curiosidade foi aumentando. Anos depois, como servidor público, recebi do MEC a incumbência de verificar a possibilidade da implantação de cursos de nível superior nessa área. Passei então a ter sobre o assunto um olhar mais técnico, cultural e científico. Segundo os evangelistas, Cristo transformou a água em vinho e o transubstanciou em alimento espiritual (Jo 2, 1-12; 6, 55-57). Admiro a autenticidade de Padre Gleiber Dantas de Melo degustador da bebida, segundo a cultura e tradição seridoense.” As narrativas neotestamentárias deixam a entender que Jesus apreciava um bom vinho. Seus adversários O atacavam, chamando-O de “comilão e beberrão” (Mt 11, 19).

    Outro motivo levou-me ao estudo do destilado. Foi o uso medicinal por Monsenhor Walfredo Gurgel, diretor do Colégio Diocesano de Caicó (RN). O cardiologista lhe prescreveu uma dose diária de uísque. Como era caro, o eclesiástico solicitou comutá-lo por cachaça. Um amigo e político paraibano o presenteava com garrafas da famosa “Rainha”, oriunda de Bananeiras (PB). O sacerdote visitava à noite sua genitora “Mãe Quininha”, residente na mesma cidade. Na ocasião reunia-se com amigos, na calçada da residência materna. Os alunos do educandário aproveitavam esse momento para se apropriarem de algumas garrafas. Notando a falta, o padre passou a guardar a bebida na casa de sua genitora e comigo. Deve-se ao Monsenhor, por sugestão de Dr. Manoel de Medeiros Brito, a introdução de um trago da bebida no cardápio dos almoços nas reuniões governamentais da Sudene.

    O Instituto Brasileiro da Cachaça-IBRAC registra que ela foi o primeiro destilado das Américas, fabricado em 1516 na Ilha de Itamaracá (PE). Entretanto, segundo o eminente pesquisador Câmara Cascudo, autor da obra “Prelúdio da Cachaça”, passou a ser nacionalmente consumida em 1532. Surgiu nos engenhos de açúcar do litoral nordestino, obtido da fermentação e destilação do caldo de cana.

    Produzida exclusivamente no Brasil, é considerada bebida nacional. Provém do mosto da cana, com graduação alcoólica entre 38% e 48% em volume a 20°C, podendo incluir até 6 g/L de açúcares em sacarose. Diferente da aguardente (oriunda de fontes variadas), ela provém apenas do caldo fresco de cana, gozando de proteção legal, desde 1951. Tampouco trata-se de rum, que utiliza outras matérias primas. Estudiosos elencam cinco tipos principais de cachaça: a) prata/branca, quando a bebida não é envelhecida, armazenada em inox, transparente, com aroma e sabor mais intensos de cana; b) ouro/amarelada, envelhecida até um ano em madeiras (imburana, carvalho, bálsamo etc.), possuindo cor dourada e notas amadeiradas; c) premium, com envelhecimento de um a dois anos. É mais suave e aromática; d) superpremium, envelhecida de dois a três anos, com equilíbrio de sabores e) reserva especial/blend, envelhecimento superior a três anos. Existe a orgânica, produzida sem fertilizantes químicos ou agrotóxicos no cultivo da cana-de-açúcar, seguindo padrões sustentáveis em toda a cadeia produtiva, do plantio ao envase.

    De acordo com o Anuário da Cachaça, de 2025, o Brasil conta com 1226 produtores, espalhados em vários estados. Minas Gerais é o maior fabricante com 501 estabelecimentos. Isso permite alta competividade na produção, aumento de comercialização e aprimoramento na fabricação. Em 2024, foram envasilhados quase dois bilhões de litros da bebida, contabilizando sete mil marcas. Parte da produção destina-se ao exterior. Em 2025, o comércio no Brasil chegou a movimentar perto de 20 bilhões de reais. Algumas garrafas têm alto preço: a) Weber Haus Extra Premium (RS), edição limitada, ultrapassando R$ 15.000; b) Havana 75 anos (MG) custa em torno de R$ 11.000. Vale Verde 18 anos (MG) é vendida por RS 7.500. Alguns brasileiros (sobretudo os “nouveaux riches”) procuram esnobar com destilados importados (por vezes de qualidade duvidosa), menosprezando nossas tradições e valores. Lembrava o apóstolo Paulo a Timóteo: “Não bebas somente água; toma também um gole de vinho, por causa de tuas enfermidades e fraquezas frequentes” (1Tm 5, 23).

    Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.



    Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
    em nome do autor Redação Tribuna do Norte.

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