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    Início » Na Celac, Lula diz que América Latina quer ser ‘região de paz’, mas não menciona diretamente Venezuela ou ataques dos EUA a barcos
    Brasil

    Na Celac, Lula diz que América Latina quer ser ‘região de paz’, mas não menciona diretamente Venezuela ou ataques dos EUA a barcos

    9 de novembro de 2025
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    Lula discursando na COP30

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, Lula retorna a Belém para a COP30 após reunião na Colômbia
    Article Information

      • Author, Julia Braun*
      • Role, Da BBC News Brasil em Londres
    • 9 novembro 2025

      Atualizado Há 35 minutos

    O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) participou neste domingo (9/11) da reunião de cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e da União Europeia (UE).

    Antes da cúpula, o presidente brasileiro havia enfatizado que era fundamental debater na Celac a questão dos ataques dos EUA a embarcações no Caribe e no Pacífico – o governo de Donald Trump afirma que tem destruído apenas barcos que carregam drogas para o tráfico internacional.

    No discurso, porém, Lula não mencionou diretamente nem Trump, nem a Venezuela, apenas falando em termos gerais a respeito da paz na região.

    “Somos uma região de paz e queremos permanecer assim. Democracias não combatem o crime violando o direito internacional. A democracia também sucumbe quando o crime corrompe as instituições, esvazia os espaços públicos, destrói famílias e desestrutura negócios”, afirmou Lula.

    Chamando a América Latina de região “balcanizada” e “dividida”, o presidente cobrou integração e mais avanço nas negociações entre Mercosul e UE.

    Apesar das investidas a respeito das ações americanas, Lula não fez uma defesa explícita do governo de Nicolás Maduro, líder venezuelano.

    O presidente afirmou, ainda, que “projetos pessoais de poder” estão minando a democracia, novamente sem citar nomes.

    “Só tem sentido a reunião da Celac, neste momento, se a gente for discutir essa questão dos navios de guerra americanos aqui nos mares da América Latina. Tive oportunidade de conversar com o presidente [Donald] Trump sobre esse assunto, dizendo para ele que a América Latina é uma zona de paz”, disse.

    “Somos uma zona de paz, não precisamos de guerra aqui. O problema que existe na Venezuela é um problema político que deve ser resolvido na política”, acrescentou Lula.

    O que é a Celac?

    A Celac reúne todos os países da América Latina e do Caribe e tem como principal objetivo promover a integração da região.

    O organismo intergovernamental foi criado oficialmente em 2011, na Venezuela. Até aquele momento, as nações latino-americanas e caribenhas se reuniam na OEA (Organização dos Estados Americanos), que também conta com a participação de Estados Unidos e Canadá.

    Por isso, a formação da Celac foi vista como uma forma dos países da região discutirem diferentes temas de cunho político, social, cultural e econômico sem a influência das duas potências desenvolvidas.

    Ainda assim, o bloco mantém diálogo estreito com a União Europeia e outros países e grupos, como Índia, China, Asean (Associação de Nações do Sudeste Asiático) e União Africana.

    Em 2013, a Celac realizou a sua primeira reunião de cúpula oficial com a presença da UE, algo que se repetiu em 2015, 2023 e agora em 2025.

    Placa da cúpula da Celac na Colômbia

    Crédito, Getty Images

    Desde o início, o órgão enfrenta desafio de criar uma organização capaz de gerar consenso entre os países e cuja institucionalidade seja capaz de implementar políticas de integração autônomas em relação aos Estados Unidos.

    Entre as contradições enfrentadas pelo bloco está também a de construir políticas comuns em uma região ainda marcada por diferentes níveis de desenvolvimento econômico, pobreza, crime organizado e, em especial, antagonismos no campo político-ideológico.

    Em 2020, durante a gestão de Jair Bolsonaro (PL), o Brasil deixou o comitê da Celac porque o então presidente desejava distância de lideranças de esquerda, como Cuba e Venezuela.

    Mas logo no início de seu atual mandato, Lula anunciou a volta do Brasil ao organismo.

    A cúpula: EUA e Venezuela em foco

    A reunião que começa neste domingo tem como objetivo discutir uma ampla agenda global, com ênfase em educação, saúde, inovação, inteligência artificial, comércio, investimentos e combate ao crime organizado.

    A expectativa é que, durante o evento, seja consolidada a chamada “Declaração de Santa Marta” e o “Mapa do Caminho 2025-2027”, instrumentos que visam converter o diálogo birregional em ações concretas e orientar a implementação das prioridades entre as duas regiões.

    Mas analistas concordam o tópico de maior destaque deve ser o aumento da tensão entre Estados Unidos e Venezuela.

    Há dois meses, as forças armadas americanas vêm reforçando sua presença no Mar do Caribe com navios de guerra, caças, bombardeiros, fuzileiros navais, drones e aviões espiões. É o maior destacamento militar na região em décadas.

    O governo de Donald Trump afirma estar comandando um esforço para reprimir o narcotráfico na região e acusa o presidente venezuelano Nicolás Maduro de liderar o Cartel de los Soles, grupo classificado como organização narcoterrorista.

    Forças dos EUA já realizaram pelo menos 17 ataques a barcos suspeitos de transportar drogas no Caribe, perto da costa venezuelana, nas últimas semanas, matando mais de 60 pessoas.

    Destróier USS Stockdale (DDG 106) no Mar do Caribe, em 29 de setembro de 2025

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, Destróier USS Stockdale (DDG 106) no Mar do Caribe, em 29 de setembro de 2025

    Segundo especialistas ouvidos pela BBC News Brasil, o horizonte de um conflito entre os dois países está mais próximo do que nunca – e um acirramento das tensões poderia trazer impactos profundos para toda a região.

    A presença de porta-aviões e tropas norte-americanas no Caribe rompe com uma tradição latino-americana de não beligerância, segundo afirma Monica Herz, professora do Instituto de Relações Internacionais da PUC-Rio.

    “É algo que coloca em xeque décadas de esforços para manter o Atlântico Sul e a América Latina como zonas de paz”, alerta.

    Mas até o momento, os países da América Latina e Caribe não se juntaram para comentar o tema ou elaborar uma estratégia conjunta de resposta à crise.

    “Não há consenso mínimo, não articulação, não há nenhuma organização envolvida”, lamentou Herz em entrevista concedida antes do anúncio da participação de Lula na cúpula deste domingo.

    A expectativa, portanto, é de que o encontro da Celac termine com pelo menos algum tipo de declaração sobre os últimos acontecimentos.

    Esvaziamento e visões divergentes

    Não se sabe, porém, se será possível obter um consenso definitivo entre os membros da Celac sobre o que acontece nas águas do Caribe no momento.

    A Colômbia classificou os ataques americanos a embarcações como violações ao direito internacional, e o Brasil já manifestou apoio a uma negociação para colocar fim à tensão.

    Lula defendeu uma saída “política e diplomática” para a crise no país vizinho durante seu encontro com Donald Trump em outubro. O brasileiro também propôs a participação do Brasil como facilitador numa eventual negociação.

    Já o governo de Trinidad e Tobago, por exemplo, deixou clara a total adesão de seu governo ao amplo envio de forças militares pelos EUA. Na semana passada, a ilha caribenha recebeu a visita de um dos navios de guerra da frota de Trump: o USS Gravely, um destróier lançador de mísseis com capacidade de combate aéreo, submarino e de superfície, além de poder transportar helicópteros.

    E em um movimento que foi visto como de alinhamento aos EUA, Argentina e Paraguai também classificaram o grupo Cartel de los Soles como uma organização internacional terrorista.

    Os dois países ainda anunciaram mais recentemente que farão os mesmo com facções criminosas brasileiras, entre elas o Comando Vermelho (CV) e o Primeiro Comando da Capital (PCC).

    Há preocupação também em relação ao esvaziamento da cúpula, diante de cancelamentos na participação de lideranças centrais.

    A presidente da Comissão Europeia, Ursula von der Leyen, cancelou sua participação de última hora, assim como o presidente uruguaio, Yamandú Orsi.

    Javier Milei, da Argentina, e Claudia Sheinbaum, do México, também não estarão, entre outros.

    O encontro segue até segunda-feira (10), mas Lula participa apenas do primeiro dia de reunião e retorna a Belém para a abertura oficial da COP30.

    *Com reportagem de Paula Adamo Idoeta e Claudia Jardim



    Notícia publicada originalmente por BBC Brasil
    em nome do autor .

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