Vicente Serejo
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Estão certos os que afirmam a semelhança entre a vida humana e a vida das árvores, como acredita Stefano Mancuso. Por isso, as duas vidas são tão parecidas. Sei firmado naquele saber de experiências feito, como diria Camões. Vivo nas fraldas desses morros há quarenta e cinco anos, desde 1980, quando passei a morar na Brigadeiro Gomes Ribeiro, até o ano dois mil. Depois, nesta José Ovídio Vale. Por nomeação íntima, sou vigia desse mundo, entre assombros e desassombros.
Como no poema de Mário de Andrade que lamentava morrer sem saber quem foi Lopes Chaves, o nome da sua rua, na Barra Funda, em São Paulo, também tenho vergonha de dizer que não sei quem foram e o que fizeram. O automatismo de repetir seus nomes como simples endereços descarnou suas vidas. Em quase meio século, Morro Branco sequer é bairro. Oficialmente não foi criado, apesar da glória de guardar a lenda dos veados que desciam os morros nas noites de luar.
Desta pequena varanda, esses anos todos, vigio um grande ipê rosa, de copa larga e aberta em galhos magros que todos os anos repete a vida lenta e sem pressa. É o último a lançar a florada, quando todos os outros parecem adormecidos, bem depois que os amarelos ardem anunciando a primavera. E se para alguns não cabe uma primavera nos trópicos, arrimo o jeito vaidoso de dizer no poema de Carlos Drummond de Andrade, no belo ‘Discurso de Primavera’, hoje tão esquecido.
Verde, muito verde o ano inteiro, nos começos de dezembro começa a perder a folhagem exuberante no seu degradé de tons e semitons, como dizem os dicionários. Até que um dia a tristeza, de como fosse morrer cobre seu corpo. E fica assim, calado e entristecido. Só seus vigias sabem que é a sua longa preparação para o instante de beleza, até que sua florada comece a explodir pouco a pouco. E se cobre todo de sua florada que nunca, ninguém, aceitou a glória de aplaudir.
Como a vida humana, o ipê também enfrenta o bom destino de ser comum, igual a todas as outras árvores. Não há como distingui-lo no verde absoluto que domina a paisagem. Mas, um dia, quando a vida parece sem graça sua folhagem cai por completo e ele se deixa ficar assim. Nos dias de dezembro, como se estivesse triste de não ter jeito, sua florada tardia vai aos poucos vestindo seu vestido rosa, preparando-se para a festa da primavera cobrindo de beleza o mundo dos olhos.
A vida também é assim, entre dias verdes e cheios de frescor para compensar os dias tristes que sempre chegam ninguém sabe de onde. Repete a vida, numa magia encantadora, se também as alegrias e tristezas se alternam imitando os dias e as noites da vida humana. Ora, a própria vida também é assim. Anuncio, num grito surdo, que a vida recomeçou na florada do grande ipê rosa no alto dos morros. Só depois, alguns dias depois, bem devagar, virá o roxo das sucupiras em flor.
PALCO
BARBÁRIE – Não é à toa que a barbaridade é típica dos embrutecidos e a barbárie da civilização. A invasão da Venezuela não foi movida pelas atrocidades de uma ditadura inegavelmente brutal.
CAUSA – O imperador Donald Trump quer o petróleo dos venezuelanos. Nicolás Maduro é um ditador como Vladimir Putin, na Rússia, e Xi Jinping, na China. Trump não invade por temê-los.
ALIÁS – Nada surpreende em Donald Trump. Sempre foi um defensor descarado do imperialismo e impondo, com palavras e gestos, a lei do mais forte. Os países da América do Sul que se cuidem.
DÚVIDA – E se Flávio Bolsonaro vencer a campanha contra Lula e apoiar Rogério Marinho para presidir o Senado, quem lidera a chapa de governo no RN? Álvaro Dias ou Styvenson Valentim?
PRAZO – A governadora Fátima Bezerra cumpriu antes do limite legal, dia 5, e pagou o 13º e o mês de dezembro aos aposentados e aos pensionistas. O fato, até por justiça, merece ser registrado.
LUTA – Do Lobo Guará, risonho e franco, direto do Senadinho: “Paulinho Freire não deve ficar contra a quem mais lhe apoiou. O problema é se ele vence a luta interna e, de verdade, fica a favor”.
POESIA – Onestaldo de Pennafort, o esquecidíssimo poeta da ‘Hora Azul’: “Boa noite! Boa noite! Boa noite! / A despedida é dor tão doce, todavia, / que eu te darei boa noite até que seja dia…”.
LÍNGUA – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, olhando as ruas desertas da cidade em pleno verão: “É como se a Natal de ontem acordasse, com saudade, do seu próprio passado”.
CAMARIM
REGISTRO – Uma experiente fonte política arrisca: “Se Walter Alves for candidato a deputado estadual será dos mais votados, depois de Ezequiel Ferreira. Eleito, poderá presidir a Assembleia a partir de 2027. A aliança MDB-PSDB será a maior bancada e, até lá, vai atrair novos deputados”.
HIPOCRITÕES – Já está à venda, nas livrarias de Lisboa, com grande sucesso de vendas, – aqui no Brasil o lançamento será no início de março – “Hipocritões e Olhigarcas: passado e futuro das guerras culturais”. O seu autor é o historiador Rui Tavares, autor de ‘Agora, Agora e mais Agora.
HISTÓRIA – Tavares lança seu bom olhar de historiador de Martin Lutero a Donald Trump, da invenção da imprensa às redes sociais. Tudo para demonstrar que as guerras culturais atravessam há séculos a vida humana e que não há caminhos para superá-las. O homem é naturalmente bélico.
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Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.
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