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    Brasil

    Comando Vermelho em Belém: como facção do Rio dominou capital paraense

    5 de novembro de 2025
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    Sombra de dois homens com grandes armas em deck perto de água, aparentemente um lago; um deles mira com a arma

    Crédito, Reuters

    Legenda da foto, Policiais militares do Pará em exercício de segurança para a COP30; GLO durante evento foi confirmada nesta segunda-feira (03/11), poucos dias após operação violenta no Rio
    Article Information

      • Author, Mariana AlvimMariana Alvim
      • Role, BBC News Brasil em São Paulo
    • Há 36 minutos

    Túlio mora em um bairro da região metropolitana de Belém do Pará onde, apesar do domínio da facção Comando Vermelho (CV), é comum ver cenas de aparente tranquilidade: crianças brincando na rua até tarde, pessoas sentadas em frente às casas conversando e mercadinhos, bares e igrejas evangélicas movimentados à noite.

    “Claramente, o pessoal estava assustado com uma possível retaliação do CV pela catástrofe do Rio de Janeiro. Sobraram mensagens de toda forma falando em tomar cuidado, evitar ficar na rua, fechar comércios mais cedo”, relata o morador, que pediu para ter seu nome real preservado por questões de segurança.

    Túlio conta que, na segunda-feira (3/11), a rotina já está voltando ao normal.

    “Normal” significa, segundo seu relato, a submissão da população aos “salves”, as ordens supostamente enviadas pela facção, frequentemente por meio das redes sociais.

    “Sempre que há ‘salves’ e aquelas ‘circulares’ super suspeitas, que na maioria parecem fake [falsas], o movimento da rua muda”, conta o morador, que convive perto de seu endereço com um clube onde ocorrem velórios e festas do CV.

    Outro relato comum na região metropolitana de Belém é o da imposição do pagamento de “taxas” por comerciantes à facção — que ou pagam esses valores para continuar funcionando ou, caso se recusem, estão sujeitos a punições e até mortes por parte dos criminosos.

    O CV, alvo da operação no Rio, expandiu-se de forma avassaladora nos últimos anos e, hoje, é a facção dominante na capital paraense e em algumas cidades da região metropolitana, como Ananindeua e Barcarena, segundo o estudo Cartografias da Violência na Amazônia 2024, do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e Instituto Mãe Crioula (IMC).

    O governo do Pará afirmou também ter colaborado com as investigações que levaram à operação no Rio.

    Entre os mandados judiciais expedidos contra alvos da ação, estavam 32 resultantes de investigações da Polícia Civil do Pará contra suspeitos baseados no Rio e que comandariam ações criminosas no Pará à distância.

    “Todos os alvos que foram identificados e localizados são pessoas de alta relevância na organização criminosa e que determinavam a extorsão de comerciantes, ataques a viaturas policiais”, relatou o secretário de Segurança Pública e Defesa Social do Pará, Ualame Machado, segundo texto divulgado pela Agência Pará, do governo estadual.

    “Inclusive, recentemente, foi feito um ataque aqui na Grande Belém, a mando de uma das pessoas que veio a óbito em confronto com a polícia do Rio de Janeiro.”

    O decreto foi publicado na segunda-feira, após a solicitação da GLO pelo governador do Pará, Helder Barbalho (MDB).

    A BBC News Brasil questionou o governo paraense e o Planalto quando Barbalho solicitou a GLO e se a situação no Rio influenciou Lula, mas não houve resposta.

    Poste pichado: TDS CV

    Crédito, Acervo Instituto Mãe Crioula

    Legenda da foto, Pichações, como esta na comunidade Vila da Barca, são um dos sinais da relativamente recente chegada do CV a Belém

    De acordo com reportagem do portal G1 Pará, o pedido foi feito por Barbalho em 17 de setembro, mais de um mês antes da operação no Rio.

    O procedimento foi o mesmo seguido para outras operações de GLO, como durante a Cúpula do G20, em novembro do ano passado; e da reunião do bloco dos BRICS, em julho deste ano, ambas ocorridas no Rio.

    Mas nem o governador fluminense, Claudio Castro (PL), fez um pedido formal ao governo federal, e nem o presidente Lula decidiu decretar.

    Além de Belém, são previstas ações de GLO nos municípios paraenses de Altamira e Tucuruí, voltadas à proteção das chamadas “infraestruturas críticas”: usinas hidrelétricas, portos, aeroportos, estações de tratamento de água e vias de acesso.

    Procurada pela BBC News Brasil, a organização do evento afirmou que “o governo do Brasil reafirma que a COP30 conta com planos integrados de segurança, de emergência e de saúde desenvolvidos de forma coordenada entre os governos federal, estadual e municipal, com a participação das Nações Unidas”.

    “O planejamento seguiu os padrões internacionais aplicados em conferências multilaterais, contemplando medidas específicas para garantir a segurança de todas as delegações, participantes e da população local”, afirmou a assessoria da COP30, em nota.

    A reportagem perguntou também ao governo paraense como vem atuando para combater o CV no Estado, mas não teve retorno.

    ‘Rouba na baixa’

    'Rouba na baixa C.V' escrito em cano, perto de mata

    Crédito, Acervo Instituto Mãe Crioula

    Legenda da foto, ‘Rouba na baixa’: como nesta foto no bairro do Curió Utinga, uma das imposições comuns do CV na região metropolitana de Belém é a proibição a roubos

    Nesse ponto, o autores comparam a atuação da facção na metrópole paraense à de milícias, semelhantes na cobrança coercitiva por serviços como internet, gás, água potável e segurança privada.

    O artigo traz o exemplo de uma grande rede de supermercados no bairro do Guamá onde funcionários teriam sido ameaçados e vidraças teriam sido quebradas por conta da recusa em pagar a taxa.

    Entretanto, os pesquisadores ressaltam que nem todas as comunidades dominadas pelo CV na região metropolitana são submetidas às “taxas do crime”.

    Um dos autores do artigo, Aiala Colares Couto aponta para outro efeito da presença do CV na região metropolitana de Belém.

    “Posso dizer com toda certeza que os índices de criminalidade caíram onde o comando do tráfico está, pois existe toda uma lógica de controle, regulação e monitoramento para não chamar a atenção da polícia e se aproximar das comunidades”, diz Couto, professor da UEPA e diretor-presidente do IMC, à BBC News Brasil.

    Por outro lado, Couto não vê a polícia paraense respondendo ao CV com uso da força na dimensão da empregada pela polícia fluminense nos últimos anos.

    “No Pará, eu percebo que, estrategicamente, se usa a inteligência da polícia e quase sempre resulta em operações que, inclusive, já aconteceram no Rio de Janeiro e em outros Estados. Mas a dinâmica do crime organizado é muito complexa, e isso não vem enfraquecendo a atuação do CV na capital e no Estado”, aponta o pesquisador.

    Citando a publicação Cartografias da Violência na Amazônia 2023, o artigo do qual Couto participou relata que o CV chegou a Belém por volta de 2014-2015, unindo-se a gangues locais que foram sendo incorporadas à facção fluminense.

    Esse processo se deu com alianças e, em muitos casos, as facções locais passaram a se identificar com o nome e símbolos do CV.

    Gabriel, também morador da região metropolitana que falou à BBC News Brasil sob condição de anonimato, lembra-se dos primeiros sinais de chegada da facção fluminense.

    “No início, eles foram se inserindo através do tráfico, com um pequeno comércio de drogas. Com o tempo, passaram a impor algumas regras. A primeira regra que basicamente a cidade inteira sabe é de que não pode roubar nas comunidades. E aí, com o tempo, eles começaram a entrar em contato com alguns comerciantes e cobrar determinadas taxas”, recorda.

    “Hoje em dia, aqui no bairro, existem os mandamentos deles, que são os mesmos mandamentos que existem no Rio de Janeiro e que estão também nas prisões. Isso tudo é repassado via redes sociais, via WhatsApp, e a partir do momento que eles se declaram donos de um território, todo mundo deve seguir esses mandamentos.”

    Gabriel cita também a queda “drástica” de roubos no bairro.

    “Praticamente, deixou de existir, porque basicamente as pessoas que roubam, que cometem qualquer espécie de crime, têm que responder a eles”, diz, mencionando conhecer de infância pessoas assassinadas pela facção por descumprirem suas ordens.

    “Os faccionados aqui são os próprios indivíduos que nasceram e cresceram no bairro. Eles começaram a ser capturados pela facção: iam para o sistema prisional, e lá existe um aliciamento para que os ladrões ou os pequenos criminosos aqui do bairro passem a se tornar faccionados. Aí os rapazes são batizados [para se tornarem membros do CV].”

    Ele observa que operações policiais contra a facção acontecem como retaliação, quando algum policial é assassinado.

    Outro sinal da organização criminosa na região são as pichações com as iniciais CV e ordens como “Rouba na baixa”, fotografada pelo IMC no bairro do Curió Utinga, e “Proibido roubar na favela”, registrada por um motorista de aplicativo em Curuçambá, na cidade de Ananindeua.

    Este, que não quis se identificar, contou à BBC News Brasil que, em vários pontos de Belém e Ananindeua, motoristas de aplicativo precisam ligar o pisca-alerta e baixar os vidros para circularem sem serem impedidos.

    A metrópole paraense ganhou importância para o CV não só por seu mercado interno de consumo de drogas, como também por sua posição em uma região tão relevante para o tráfico internacional como a Amazônia.

    Belém está em um ponto estratégico, próxima à costa atlântica e com acesso aos principais rios da região — funcionando como um “nó” para a distribuição de drogas, diz o artigo dos pesquisadores da UEPA.

    Foto tirada de dentro do carro mostra pichação no muro: 'Proibido roubar na favela. CV'

    Crédito, Reprodução

    Legenda da foto, Pichação do CV proíbe roubos em Curuçambá, na cidade de Ananindeua; motorista de aplicativo relata que, para entrar em áreas dominadas pelo CV na região metropolitana, é preciso ligar o pisca-alerta e baixar os vidros

    Após a consolidação do controle em Belém, o CV se expandiu pelo Pará, explicam os especialistas.

    De acordo com o Cartografias da Violência na Amazônia 2024, o Pará é o Estado na Amazônia Legal com maior presença de grupos criminosos, que estão em 73 municípios.

    Destes, em 61 há domínio de apenas uma facção — em 57 deles, quem manda é o CV, e nos municípios restantes, é o Primeiro Comando da Capital (PCC), baseado no Estado de São Paulo.

    “O Comando Vermelho é a facção que mais se interiorizou no Pará, controlando boa parte dos municípios das regiões Nordeste paraense, Região Metropolitana de Belém, Região Sudoeste do Pará, Região do Baixo Amazonas e Marajó. O PCC, por outro lado, está mais presente na região Sul e Sudeste do Pará”, diz a publicação.

    O fator COP30

    Operários trabalhando em frente a grande centro de convenções com logomarcas da ONU e da COP30

    Crédito, EPA

    Legenda da foto, Entidades da sociedade civil divulgaram manifesto demonstrando preocupação com ‘militarização excessiva’ na COP30

    Com a COP30, a tensão não aumentou nem diminuiu em seu bairro, relata Gabriel.

    “A COP não chega aqui. Ela chegou através de algumas obras de infraestrutura nas rodovias, mas a grande maioria dos investimentos que estão sendo feitos para a COP está no eixo central, nos bairros mais elitizados”, aponta o morador.

    O decreto assinado por Lula prevê a presença dos militares em áreas determinadas, como as vias de chegada e saída ao Aeroporto Internacional de Belém e os locais de evento e hospedagem.

    O pesquisador Aiala Colares Couto alerta para o alarmismo que pode rondar a proximidade entre a operação no Rio e a COP.

    “Não podemos fazer desse ocorrido no Rio de Janeiro uma narrativa que provoque o caos em Belém por conta da COP30, pois, no Rio de Janeiro, já tivemos Copa do Mundo e Olimpíadas, justamente numa cidade que é dividida entre facções e milicianos, e não tivemos estas ocorrências”, aponta o professor da UEPA.

    Ainda antes da operação no Rio, algumas entidades da sociedade civil já haviam apresentado uma carta ao Ministério Público Federal (MPF) contra a possível aplicação da GLO durante a COP30.

    O documento, entregue em 20 de outubro, manifestou preocupação com a “militarização excessiva” e com os impactos para os direitos civis e direitos humanos.

    “(…) Não se deve militarizar um evento como a COP, que necessita, para seu sucesso, da ampla participação da sociedade civil, principalmente movimentos sociais, ONGs, Indígenas, Quilombolas, Ribeirinhos, Ambientalistas, Defensores e Defensoras de Direitos Humanos”, diz um trecho da carta, assinada pela Sociedade Paraense de Defesa dos Direitos Humanos; Associação Brasileira de Juristas pela Democracia – Núcleo Pará; Terra de Direitos; pelo Centro de Estudos e Defesa do Negro do Pará e o Movimento dos Atingidos por Barragens.

    *Colaboraram Vitor Tavares, da BBC News Brasil em São Paulo, e Leandro Prazeres, enviado da BBC News Brasil a Belém



    Notícia publicada originalmente por BBC Brasil
    em nome do autor .

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