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    Início » Guerra no Irã: Por que o presidente iraniano pediu desculpas?
    Brasil

    Guerra no Irã: Por que o presidente iraniano pediu desculpas?

    7 de março de 2026
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    Pezeshkian, vestindo terno, olha para frente.

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, “Considero necessário pedir desculpas aos países vizinhos que foram atacados”, disse o presidente neste sábado
    Article Information

      • Author, Amir Azimi
      • Role, Da BBC Persia
    • Há 39 minutos

    • Tempo de leitura: 5 min

    Pedidos de desculpas entre Estados são raros, especialmente durante conflitos armados, e a escolha das palavras chamou a atenção. Os líderes geralmente expressam “pesar” ou se distanciam da responsabilidade.

    Pezeshkian, em vez disso, reconheceu diretamente que os países vizinhos foram alvejados e disse que as forças iranianas foram instruídas a cessar os ataques, a menos que estes se originem em seus territórios.

    “Considero necessário pedir desculpas aos países vizinhos que foram atacados”, disse ele. “Não temos a intenção de invadir os países vizinhos.”

    A declaração do presidente iraniano, por si só, já levanta as primeiras questões: este foi um pedido de desculpas genuíno? E, por que agora?

    Uma possibilidade é que a liderança interina esteja tentando conter as crescentes consequências regionais.

    Alguns países da região foram atingidos por fogo cruzado após os ataques lançados pelos Estados Unidos e por Israel no sábado, 28 de fevereiro. Pezeshkian sugeriu que esses ataques foram realizados sob instruções de “fogo à vontade”, depois que a onda inicial de ataques matou comandantes iranianos de alto escalão e desestabilizou as estruturas de comando central.

    Ao se desculpar, ele pode estar tentando sinalizar que Teerã não quer que a guerra se transforme em um confronto regional mais amplo.

    A mensagem também reconhece implicitamente uma realidade política: mesmo que alguns países vizinhos permitam que as forças americanas operem a partir de bases em seus territórios, o Irã corre o risco de se isolar ainda mais se os atacar abertamente.

    Mas, se o pedido de desculpas vai se traduzir, efetivamente, em política, isto é muito menos claro.

    Relatórios da região indicam que os ataques ligados ao Irã ou às suas forças ainda não cessaram. O Catar e os Emirados Árabes Unidos disseram na tarde de sábado que interceptaram mísseis que os tinham como alvo.

    Se ataques como esse continuarem, isso levanta uma questão mais profunda sobre o controle dentro da fragmentada estrutura de liderança do Irã.

    Em teoria, essa estrutura dá a figuras como Pezeshkian mais influência do que tinham anteriormente sob um sistema dominado por uma única autoridade suprema. Na prática, porém, a capacidade de controlar instituições militares e de segurança poderosas, como a Guarda Revolucionária, permanece incerta.

    Vista geral de Teerã com fumaça visível ao fundo, após relatos de explosões na cidade, em 2 de março de 2026.

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, Fumaça na cidade de Teerã, em 2 de março, após relatos de explosões na cidade

    Se os ataques ligados ao Irã contra países vizinhos continuarem a despeito da declaração do presidente, isso sugeriria falhas de comunicação ou resistência de facções que não estão dispostas a reduzir o confronto.

    Elementos linha-dura dentro do aparato de segurança argumentam há muito tempo que a pressão regional é o maior fator de dissuasão do Irã contra o poderio militar dos EUA e de Israel.

    As reações internas também refletem essa tensão. Alguns linha-dura já criticaram as declarações de Pezeshkian, classificando suas palavras como fracas.

    O momento político atual no Irã é atípico: várias das figuras linha-dura mais poderosas no topo do sistema já não estão mais no poder, mas muitos oficiais e comandantes de escalões inferiores permanecem profundamente desconfiados de qualquer tom conciliatório.

    Para eles, pedir desculpas a governos estrangeiros é correr o risco de parecer uma capitulação em um momento de crise nacional.

    Fora do Irã, a reação tem sido moldada por uma narrativa muito diferente. Donald Trump afirmou rapidamente no Truth Social que o Irã havia “pedido desculpas e se rendido” aos seus vizinhos, argumentando que a medida comprovava que a pressão militar dos EUA e de Israel estava funcionando.

    A linguagem também revela como Washington pode interpretar os sinais de Teerã. Trump insistiu repetidamente que o único resultado aceitável é a “rendição total” do Irã.

    Essa exigência cria um paradoxo diplomático.

    Historicamente, os países raramente aceitam a rendição incondicional apenas sob campanhas aéreas, não importa a intensidade dos bombardeios. Sem forças terrestres, forçar tal resultado é extremamente difícil.

    Interpretar o pedido de desculpas de Pezeshkian como uma forma de capitulação poderia, portanto, servir como uma ponte política para Washington: uma maneira de alegar progresso sem abandonar formalmente a exigência de rendição.

    Para Pezeshkian e o conselho de liderança interina, o cálculo pode ser diferente.

    Alcançar um cessar-fogo agora poderia estabilizar a situação antes que um novo líder permanente surja.

    Se a próxima figura a dominar o sistema político do Irã for um clérigo linha-dura, as perspectivas para a diplomacia podem se tornar ainda mais restritas. Essa possibilidade levanta outra questão estratégica: Pezeshkian está se posicionando como uma figura negociável, o tipo de líder pragmático com quem os governos ocidentais prefeririam negociar?

    Em seu discurso, ele tentou equilibrar desafio e abertura, rejeitando a rendição, mas sinalizando moderação em relação aos países vizinhos.

    Ao mesmo tempo, a luta pela futura liderança do Irã já começa a tomar forma.

    Diversas figuras políticas e religiosas, bem como comandantes da Guarda Revolucionária Islâmica (IRGC, na sigla em inglês) e das forças de segurança, podem ver a crise atual como uma oportunidade para fortalecer sua posição.

    Alguns estão pedindo à Assembleia de Peritos, órgão cujo principal poder é nomear o Líder Supremo, que aja rapidamente para escolher o próximo líder.

    Se Pezeshkian não conseguir garantir a estabilidade ou exercer controle sobre as forças armadas, os rivais poderão argumentar que uma abordagem mais linha-dura é necessária.

    Por ora, o teste imediato está fora das fronteiras do Irã.

    Até agora, muitos países vizinhos responderam com cautela ou permaneceram em silêncio, aguardando para ver se o pedido de desculpas leva a mudanças reais no terreno. Israel, que vê o conflito como uma rara oportunidade de enfraquecer o que considera uma ameaça de longo prazo do Irã, pode estar menos inclinado a interpretar a mensagem como um passo genuíno rumo à desescalada.

    A ambiguidade pode ser deliberada.

    O pedido de desculpas de Pezeshkian deixa espaço para várias interpretações: uma tentativa genuína de acalmar as tensões regionais, uma manobra tática para ganhar tempo para a liderança interina do Irã ou o sinal inicial de um reposicionamento político dentro do próprio Irã.

    Em um conflito moldado tanto por lutas internas pelo poder quanto por uma guerra externa, pode ser tudo isso ao mesmo tempo.

    A BBC Persa é o serviço em língua persa da BBC News, utilizado por 24 milhões de pessoas em todo o mundo – a maioria no Irã – apesar de ser bloqueado e sofrer interferências frequentes por parte das autoridades iranianas.



    Notícia publicada originalmente por BBC Brasil
    em nome do autor .

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