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    Início » Banco Central pediu que FGC ajudasse o Master com R$ 11 bilhões
    Piauí

    Banco Central pediu que FGC ajudasse o Master com R$ 11 bilhões

    5 de fevereiro de 2026
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    No dia 15 de abril do ano passado, o Banco Central de Gabriel Galípolo pediu ao Fundo Garantidor de Crédito (FGC) que ajudasse o Banco Master fornecendo um empréstimo de 11 bilhões de reais. O ofício com a solicitação foi assinado por três funcionários do BC: André Maurício Trindade da Rocha, de Monitoramento do Sistema Financeiro; Belline Santana, de Supervisão Bancária; e Climerio Leite Pereira, de Ação Sancionadora. O documento dizia que, se o empréstimo fosse concedido, o Master poderia deixar o mercado sem causar traumas ao sistema financeiro. Àquela altura, já era um fato notório que o banco criado por Daniel Vorcaro rumava para o abismo.

    O tom do ofício era sutilmente ameaçador, como relata uma reportagem publicada na edição deste mês da piauí. O BC alertava que, caso o dinheiro não fosse liberado, o Master poderia se inviabilizar a ponto de ser liquidado, o que resultaria em custos muito maiores para o FGC. Isso porque, em caso de quebra ou liquidação de um banco, o FGC deve ressarcir os investidores em até 250 mil reais. Somando todos os investidores, o cálculo do BC apontava que a bancarrota do Master custaria 54,3 bilhões de reais ao fundo. O ofício pintava um quadro tenebroso. Dizia que, se a liquidação ocorresse em função da negativa do empréstimo, outras instituições que operavam da mesma forma que o Master – ou seja, pagando altas comissões para usar plataformas de investimento para distribuir seus CDBs ao mercado – também poderiam quebrar.

    Enquanto digeriam o ofício, que praticamente jogava a responsabilidade por uma crise sistêmica no seu colo, os técnicos do FGC receberam, naquele mesmo dia, outra carta – essa em tom abertamente ameaçador. Vinha assinada por Walfrido Warde, o advogado de Vorcaro. Warde se valia de argumentos idênticos aos do BC, só que os expunha com mais ênfase. Mesmo assim, as cartas eram tão semelhantes que pareciam redigidas pela mesma pessoa. Em seu ofício, Warde afirmava que o FGC tinha o dever de apoiar as soluções privadas, como era o caso da venda do Master ao BRB, e solicitava que o fundo desse máxima celeridade à solicitação.

    Com receio de vir a ser acusado de gerar uma crise bancária, o FGC aquiesceu, mas reduziu o valor do empréstimo. Em vez de 11 bilhões de reais, liberou 5,7 bilhões. Além da pressão e da ameaça, levou em conta a garantia que recebera do BC segundo a qual, com seu empréstimo, a crise estaria resolvida. O BRB, banco estatal de Brasília, compraria o Master, e com isso o FGC estaria livre de um impacto maior em suas contas. E, afinal, quando se trata de ajudar a debelar uma crise para evitar outra ainda maior, o FGC tem autorização estatutária para entrar no jogo. 

    Ocorre que, cinco meses depois de ter dado essa garantia por escrito e obtido os 5,7 bilhões de reais, o Banco Central rejeitou a venda do Master ao BRB porque se tratava de uma operação inviável. Sentindo-se ludibriado, o FGC enviou uma carta ao BC lembrando que, no curso da operação de empréstimo, o fundo insistira reiteradamente na necessidade de receber informações e documentos do Master, bem como de se manter atualizado sobre o andamento das tratativas. Reclamou que todos os seus pedidos haviam sido negados pelo BC. O BC não respondeu.

    “É vergonhoso o que o Banco Central fez”, disse um irado representante do mercado financeiro cujo banco faz pesados aportes ao FGC. “Em 15 de abril do ano passado, quando mandaram aquele ofício ao FGC, eles já sabiam da fraude e sequer chamaram os técnicos do fundo para buscarem uma saída conjunta. O empréstimo, como está no estatuto do fundo, só se justificaria se houvesse chance de recuperação do banco. E o Banco Central já sabia que essa chance não existia.” E concluiu: “O FGC existe para proteger os investidores e não para salvar criminosos.”

    Esse episódio é ilustrativo do comportamento errático do BC na crise do Master, antes e depois da gestão de Galípolo. Como revelou a piauí, o banco de Daniel Vorcaro deve muito a Roberto Campos Neto, que presidiu o Banco Central de fevereiro de 2019 a dezembro de 2024. Foi sob seu comando que o BC autorizou o Master a operar, depois de muitos pedidos frustrados. Foi também sob seu comando que, constatando o descompasso financeiro do Master, o BC emitiu dezoito ofícios de alerta para o banco, pedindo um ajuste nas contas e a adoção de boas práticas de gestão. Os alertas não deram nenhum resultado.

    Enquanto isso, com anuência do próprio BC, o Master conseguiu adquirir até adquirir outros bancos. Em 2024, comprou o Voiter e o Letsbank, além do Will Bank, que, apesar do nome, não é um banco. O então diretor de Fiscalização do Banco Central, Paulo Sérgio Neves de Souza, não ligava para os alertas do mercado, que já eram constantes. Dizia que os grandes bancos tinham “inveja do crescimento do Master”. E garantia que o banco de Vorcaro ainda iria “colocar o ovo em pé”. Não colocou.





    Notícia publicada originalmente por revista piauí
    em nome do autor Luigi Mazza.

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