Bruno Vital
Repórter
Documentos tornados públicos no âmbito do caso Jeffrey Epstein mencionam a cidade de Natal em e-mails entre 2010 e 2011. A troca de mensagens é atribuída a uma comunicação entre o empresário americano e o agente de modelos frânces Jean-Luc Brunel. As investigações mostram que Brunel era um dos principais parceiros de Epstein, e que supostamente atuava como um intermediador para “captar” mulheres para o bilionário.
As conversas integram o conjunto conhecido como Epstein Files e fazem referência, por exemplo, a deslocamentos pelo Nordeste brasileiro, além de mencionar uma jovem descrita como oriunda de uma região pobre nos arredores da capital potiguar. Brunel, que faleceu em 2022, era um dos suspeitos de integrar a rede global de pedofilia coordenada por Epstein.


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Em 26 de novembro de 2010, Epstein recebe um e-mail de um remetente que afirma estar sem acesso à internet no hotel: “Estou muito feliz por ter conquistado essa garota”. Na mesma mensagem, detalha o itinerário no Brasil: “Ela está vindo com a mãe em Janeiro. Eu estou indo para João Pessoa esta noite, Recife. De volta em Natal. Depois São Paulo onde eu encontrei um agente para me trazer de volta a Nova Iorque”. O texto foi traduzido livremente.
Na mesma mensagem, o remetente acrescenta que cogitava seguir viagem para o Rio de Janeiro, mas demonstrava hesitação: “queria ir ao Rio, mas não tinha certeza se aquele era o momento certo”. Em seguida, faz uma avaliação depreciativa sobre a região Norte do País, ao afirmar que “o Norte do Brasil tem as mulheres mais feias do planeta”. O comentário aparece no corpo do e-mail sem qualquer contextualização adicional.


Os e-mails analisados não identificam com clareza todos os remetentes, nem detalham o vínculo direto entre essas comunicações específicas e Jean-Luc Brunel. Ainda assim, Brunel aparece em outros documentos do caso como agente de modelos, aliado próximo de Epstein e figura central apontada por investigações como intermediador no recrutamento de mulheres e menores de idade para o financista.
Em 2019, uma reportagem do The Guardian expôs uma série de denúncias que acusavam Brunel de trazer adolescentes, vindas de outros países com visto de modelos, para os Estados Unidos com o objetivo de exploração sexual. Outras três mulheres disseram ao jornal que foram sexualmente agredidas pelo ex-agenciador nos anos 1980 e 1990.


Com forte atuação no mercado internacional da moda, Brunel esteve no Brasil em diferentes ocasiões. Ele foi acusado pela Justiça francesa de estupro e tráfico sexual e morreu na prisão em 2022. Ele foi cofundador da agência MC2 Model Management, nos Estados Unidos, criada com financiamento de Epstein.
Apesar das menções a Natal, os documentos não confirmam a ocorrência de crimes na cidade, nem fazem referência a locais específicos, autoridades ou instituições locais. As citações se limitam ao conteúdo das comunicações recebidas por Epstein, que vêm sendo analisadas como parte do esforço para mapear a dimensão internacional da rede associada ao financista.
“Ela vem da periferia de Natal”
Em outra troca de mensagens recebida por Epstein, em janeiro de 2011, outro remetente afirma: “Estávamos em Natal, na casa da minha mãe”. Na sequência, Epstein pede mais fotos e questiona em que cidade o interlocutor se encontrava, além de perguntar se havia um telefone para contato. Ele também perguntar sobre a localização da irmã do interlocutor.
Em mensagens seguintes, o remetente aborda dificuldades financeiras relacionadas à viagem e menciona custos com passagens, visto e passaporte. Em resposta, Epstein afirma que poderia repassar recursos posteriormente, ao escrever que “poderia dar o dinheiro em Nova York”, segundo consta nos documentos.
Na sequência, o remetente descreve uma mulher associada à possível viagem. Segundo o texto, “Ela vem de uma pequena cidade aqui, na periferia de Natal, de uma família muito pobre e simples”. A mensagem acrescenta que a jovem “não fala o idioma [inglês] e nunca viajou antes” e que “também não tem passaporte”. Ao tratar da logística da viagem, o remetente questiona: “O que podemos fazer?”.
O suposto emissário de Epstein encerra a conversa dizendo que a anexou uma fotografia feita pela jovem natalense, que ela teria tirado na noite de réveillon. “Anexei uma foto que ela fez para você na noite de Ano Novo. Você vai amar! Realmente, ela é uma doce garota :)”.


Quem é Jean-Luc Brunel, o elo entre o caso Epstein e o Brasil
Embora o escândalo de tráfico sexual envolvendo o bilionário Jeffrey Epstein seja investigado nos Estados Unidos, as investigações do Departamento de Justiça e os desdobramentos sobre o caso mostram diversas conexões internacionais do esquema incluindo o Brasil.
A principal ponte do caso do bilionário, encontrado morto numa cela em 2019, com o Brasil, é o francês Jean-Luc Brunel, que foi agente de modelos e era considerado “braço direito” de Epstein. Brunel – acusado de estupro, agressão sexual e assédio sexual – esteve no Brasil em abril de 2019 para recrutar novas modelos e levá-las aos Estados Unidos.
O ex-agente era fundador da agência de modelos MC2 que tinha sede em Miami e contava com a ajuda financeira de Epstein. Na época, a MEGA Model Brasília publicou uma foto com uma legenda de agradecimento pela visita do empresário. “Jean-Luc Brunel esteve aqui hoje para um casting para levar os nossos modelos para Nova York”, escreveu a publicação.
Procurada, a MEGA Model informou que Jean-Luc Brunel fez apenas uma visita breve e sem agendamento prévio à antiga sede da agência, localizada em um shopping em Brasília. Segundo a empresa, o encontro durou cerca de 15 minutos. A agência afirmou ainda que desconhecia o seu histórico e garantiu que nenhuma modelo foi recrutada ou abordada durante a visita.
Brunel foi encontrado morto em uma cela em Paris, na França, em 2022. Ele estava detido desde dezembro de 2020, quando foi acusado de estupro contra jovens menores de idade.
Essa não é a única conexão do escândalo com o Brasil. No fim do ano passado, o Departamento de Justiça dos Estados Unidos tornou público outros documentos que também mencionavam essa possível ligação. Entre os arquivos está um depoimento do FBI, a polícia federal americana, que reúne informações relacionadas ao caso Epstein.
Segundo a BBC News Brasil, o documento com anotações escritas à mão cita um “grande grupo brasileiro”, sem detalhar quem seriam os integrantes e a participação dessas pessoas no esquema. Grande parte das informações, no entanto, aparece tarjada, o que limita a compreensão completa do conteúdo e de eventuais conexões citadas nos arquivos.
Na sexta-feira, dia 30, o Departamento de Justiça dos EUA liberou para o acesso público um total de três milhões de páginas de arquivos, 180 mil imagens e 2 mil vídeos relativos ao caso Epstein.
Essa é a maior quantidade de informações liberadas pelo governo americano sobre o caso. Uma lei do Congresso dos EUA, sancionada pelo presidente Donald Trump, determinava a publicidade de todos os documentos até 19 de dezembro, mas a medida só foi cumprida agora.
A análise dos documentos ainda está em curso, e novas informações podem vir à tona à medida que o conteúdo for examinado.
O caso Epstein
Jeffrey Epstein foi um financista norte-americano acusado de comandar uma rede internacional de abuso e exploração sexual de menores. Ele foi preso em julho de 2019, nos Estados Unidos, sob acusações federais de tráfico sexual envolvendo adolescentes, algumas delas aliciadas quando tinham menos de 18 anos.
Segundo as investigações, Epstein utilizava sua fortuna, imóveis de luxo e conexões com figuras influentes para atrair jovens, muitas vezes em situação de vulnerabilidade social, com promessas de dinheiro, viagens e oportunidades profissionais. As vítimas relataram abusos ocorridos em residências do financista na Flórida, em Nova York e em uma ilha privada nas Ilhas Virgens Americanas.
Epstein já havia sido alvo de um acordo judicial controverso em 2008, quando se declarou culpado por crimes menores na Flórida e cumpriu pena reduzida, o que posteriormente gerou críticas ao sistema de Justiça dos Estados Unidos. O caso voltou a ganhar dimensão internacional após sua prisão em 2019.
Em agosto do mesmo ano, Jeffrey Epstein foi encontrado morto em sua cela, em um centro de detenção federal em Nova York. A morte foi oficialmente registrada como suicídio, mas levantou questionamentos e deu origem a diversas investigações e teorias sobre possíveis falhas na vigilância do presídio.
Os chamados Epstein Files reúnem milhares de páginas de documentos, e-mails e registros tornados públicos ao longo dos últimos anos, que ajudam a mapear a atuação do financista, sua rede de contatos e os deslocamentos de pessoas associadas ao caso em diferentes países.
Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Bruno Vital.
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