Após muita espera, as notas do Enem 2025 foram divulgadas nesta sexta-feira (16). A edição foi marcada pelas polêmicas envolvendo o mentor e estudante de Medicina Edcley Teixeira que, em uma live dias antes da prova, exibiu questões muito similares as que foram cobradas no exame. Para alguns candidatos, foram mais de uma dezena de questões antecipadas pelo mentor em seu curso, mas, oficialmente, somente três foram anuladas na prova — duas de Ciências da Natureza e uma de Matemática.
A anulação dos itens levou muita gente a indagar se a Teoria de Resposta ao Item (TRI), que é o método de correção utilizado na prova, poderia ser impactada. Para entender o que realmente muda quando uma questão é anulada, e por que nem sempre mais acertos significam nota mais alta, o GUIA DO ESTUDANTE ouviu um especialista que estuda o funcionamento da TRI.
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Frederico Carvalho Torres, mais conhecido como Professor Fredão, do curso Mente Matemática, é estatístico pela Universidade de Brasília (UnB), mestre em Matemática e autor de uma tese dedicada a investigar as engrenagens da TRI. Segundo ele, a insatisfação com as notas é esperada. “É uma reclamação que todo ano vai existir.”
Avaliando o desempenho de seus alunos, Fredão observa que Matemática e Ciências Humanas tiveram, em média, notas mais altas para o mesmo número de acertos em relação a edições passadas, reflexo de provas mais difíceis. Já em Linguagens e Ciências da Natureza, os resultados podem ter sido ligeiramente menores, possivelmente devido a provas consideradas mais fáceis. “A maior reclamação do momento tem sido a redação, mas ainda é cedo para falar se houve, de fato, uma redução generalizada [na nota] dos textos.”
Parte dessa frustração, no entanto, tem origem no desconhecimento sobre como funciona o modelo de correção do Enem.
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Como funciona a TRI
Diferentemente de provas corrigidas apenas pela soma de acertos, como a Fuvest, a Unicamp e a Unesp, o Enem utiliza a Teoria de Resposta ao Item, um modelo estatístico que busca estimar a proficiência real do candidato. Em vez de olhar somente quantas questões foram acertadas, a TRI analisa quais itens o estudante acertou e como essas respostas se distribuem ao longo da prova.


É nesse ponto que surgem dúvidas quando ocorre uma anulação. “Muitos candidatos ficam com essa preocupação de ‘eu tinha acertado 43 de 45 e com as anulações eu caí para 41 de 43’, como se isso fosse reduzir a nota deles”, afirma Fredão. Essa lógica faz sentido dentro da chamada Teoria Clássica dos Testes, geralmente usada em avaliações escolares, em que a nota é uma razão direta entre o número de itens acertados e o total de questões da prova.
“Nesta teoria clássica, o foco está na prova como um todo, enquanto na TRI, o foco é o item”, explica. “Cada item tem os seus parâmetros: o A, de discriminação; o B, de dificuldade; e o C, de acaso. Mais do que a quantidade bruta de itens acertados, importa a coerência pedagógica dos acertos e os parâmetros de cada questão.”
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Os tipos anulação
Ao contrário do que muitos estudantes imaginam, anulações não são uma exceção no Enem. Segundo Fredão, há dois tipos principais. “Para começar, você tem uma anulação por critérios pedagógicos“, explica. É o caso de questões com ambiguidade, dupla resposta ou repetição em vestibulares anteriores, como ocorreu nas três questões de 2025, anuladas por similaridade com itens divulgados antes da prova.
O segundo tipo é a anulação técnica, feita diretamente pela TRI. Ela ocorre quando uma questão apresenta “discriminação negativa ou não converge nos parâmetros estatísticos”. Nesse caso, o item deixa de contar no cálculo da nota, embora o gabarito continue disponível no site do Inep. “São anulações que acontecem por debaixo dos panos, entre muitas aspas”, resume.
“Seja a questão anulada pedagogicamente ou pela própria TRI, ela deixa de contar no cálculo da nota, como se não existisse. Vira uma informação a menos no modelo probabilístico”, afirma o especialista. Por isso, diferentemente do que circula nas redes sociais, os pontos das questões anuladas não são redistribuídos. “Não é como se todos ganhassem ou todos perdessem. É só uma informação que foi perdida e não entra mais no cômputo da nota.”
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Para ilustrar, Fredão usa uma metáfora: imagine uma régua com 45 marcações, cada uma representando uma questão. Quando uma é anulada, essa marcação simplesmente desaparece. A TRI passa a trabalhar com menos informações, mas sem beneficiar ou prejudicar automaticamente todos os candidatos.
A frustração de quem acertou as questões anuladas é compreensível, especialmente pelo tempo investido na resolução. Do ponto de vista estatístico, porém, a TRI cumpriu seu papel ao eliminar itens problemáticos para tentar garantir uma nota coerente com a proficiência real de cada estudante.
Impacto mínimo na prática
Para o estudante que já entende um pouco mais sobre como é calculada a nota do Enem, outro questionamento que surge com o anúncio de uma anulação é o desequilíbrio na proporção entre itens fáceis, médios e difíceis — que é um dos pilares da TRI. Na prática, há, sim, um desequilíbrio, mas de um jeito impossível de medir.
“Quando questões são anuladas, a gente nunca vai ter a real informação, pela TRI, de se elas foram caracterizadas como fáceis, médias ou difíceis”, diz. Mas, como o especialista esclareceu, ao ser anulada, a questão deixa de gerar dados estatísticos para o cálculo da nota.
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O impacto que a categoria da questão anulada pode ter está ligado à ausência de questões que avaliam parâmetros semelhantes a ela ao longo da prova. “Se as questões anuladas tiverem outras com dificuldade e parâmetros similares, você não perde muito”, explica.
Já se o item tem características únicas, como ser a questão mais fácil, mais difícil ou a mais discriminativa da prova, há algum impacto. Mesmo nesses casos, o efeito final não costuma ser relevante ou significativo.
“É mais fácil outras mudanças no sistema provocarem mais efeitos do que as anulações, como a utilização de três notas no Enem a partir desta edição do Sisu”.
Calendário Sisu 2026
- Período de inscrições: 19 a 23 de janeiro
- Resultado da chamada regular dos aprovados: 29 de janeiro
- Chamada regular de matrícula: 2 de fevereiro
- Prazo para participar da lista de espera: 29 de janeiro a 2 de fevereiro
- Convocação dos candidatos em lista de espera pelas instituições: 11 de fevereiro
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Notícia publicada originalmente por Enem – Guia do Estudante
em nome do autor Luccas Diaz.
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