Vicente Serejo
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E, se um dia, um anjo torto, como aquele do poeta Drummond, cheio de boa-fé, perguntasse se desejaria outra vez viver o passado, tal como foi vivido, só aceitaria voltar como filho de Benigna e Severino. Não viveria nenhuma outra vida que não fosse aquela, diante do mesmo mar antigo. E depois, neste casarão de livros velhos, com Rejane, ungidos pelos santos óleos de um amor de verdade para que outra vez vivêssemos comovidos como nos dias que nos dão essa alegria de viver.

Não nos levariam a riqueza, se nunca a tivemos, e nem a temos até hoje, mas viriam os risos doces que cercaram nossas vidas, hoje guardados nas gavetas de um antigo móvel de família. Talvez nas sombras de um sótão, de chão tabuado e escuro, onde ainda deve passear um velocípede azul. O eterno em nós não mais iria embora e reviveríamos o prazer das poucas coisas que com certeza trazemos nos olhos, como se fosse possível merecer uma eternidade feita de manhãs, tardes e noites sem fim.

Não duvido do poeta Drummond quando avisa: as coisas findas, muito mais que lindas, essas ficarão. Mas, cada um inventa a sua eternidade na medida dos próprios sonhos. E é bom guardá-los na solidão das coisas bem escondidas, livre dos olhos medonhos da inveja. A minha eternidade seria simples assim. Talvez, como gostava de dizer Oswaldo Lamartine, nas mensagens de Natal, com a figura do burrinho carregando água no sertão seco: “Feliz Natal com os de perto do seu coração”.

É que a história de cada um, para ser humana, mesmo que seja muito boa e muito pobre, há de caber nas duas mãos. Se for muito maior do que a humanidade que lhe foi dado ter e viver, um dia essa vida transborda e por certo cairá no mundo como uma herança a pesar nos ombros feito um pecado mortal. Viver é lutar, alertou outro grande poeta, Gonçalves Dias, mas também ensinou que a luta aos fracos abate e aos fortes só faz exaltar, afinal o medo da morte acanha a alma dos bravos.

Ora, que a vida é um mistério, todo mundo sabe. Mas, o mistério de viver tem seus encantos e desencantos. Tê-los e não tê-los é o que nos foi dado ter, entre o carinho e o desamparo que alguns dias assaltam a alma. É aqui, de novo, que vem a lembrança de Sanderson Negreiros. Foi um grande leitor das ‘Recordações da Infância e Juventude’, de Ernest Renan. Percorria suas linhas como se fosse um Adoremos. Tenho aqui o exemplar que pedi a ele para grifar, e que esqueceu de assinar.

E corro os olhos, procurando os trechos assinalados com os pequenos traços verticais e assim reencontro a confissão de Renan sobre Ives, a quem, na morte do pai, sua mãe confiou os negócios da família: “…não posso dizer que ele me tenha concedido uma notável compreensão dos meus interesses. Mas, devo-lhe mais do que isto: ele me dotou de um prazer de viver que desdenha da riqueza, e de um bom humor natural que me tem conservado a alegria até hoje”. Que assim seja! …

PALCO

VAGO – A governadora Fátima Bezerra e o vice, Walter Alves, nada explicaram na nota conjunta sobre a sucessão no governo na hipótese da renúncia de Fátima. O artifício de dizer para não dizer.

ALIÁS – Ao terceirizarem a decisão para o Palácio do Planalto, acabaram deixando que os políticos entendessem que a equação final, no fim e ao cabo, só depende dos agrados do poder presidencial.

FRIEZA – Do Lobo Guará sabendo muito mais do que as folhas noticiam: “A política sempre foi e sempre será o campo ideal para o exercício do cinismo. Desde a Grécia. Aqui, o cinismo é campeão”.

PRÊMIO – Generoso o elogio do escritor José Paulo Cavalcanti, da Academia Brasileira de Letras, ao prefácio deste cronista no livro ‘Literaturas’, de Marcelo Dias. O cronista, comovido, agradece.

LIÇÃO – Do teólogo José Marcos da Silva, de Coqueiral, no Recife: “O Divino não nasce nos palácios, mas nas bordas. Não afirma-se pelo domínio, mas pela proximidade com os esquecidos”.

VOTOS – Um ano bom e que a luz ilumine a treva. Sobretudo, acreditemos sempre em Dom Hélder Câmara, quando erguia sua voz cheia de fé: “Quanto mais escura a noite, mais clara a madrugada”.

POESIA – Da jornalista Bia Brume, numa frase que poderia ser o verso despretensioso de um poema simples sobre a vida nos caminhos mais íntimos: “Guardem para si o que ninguém quis perguntar”.

JANELAS – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, salvando do chão das coisas inúteis a frase tão desbotada: “Os olhos são janelas da alma que não deixam o invejoso esconder a inveja”.

CAMARIM

PRESSÃO – O Poder Legislativo poderia ter antecipado a segunda parcela do 13º, mas, se o fizesse, os valores da dívida poderiam cair em exercício findo e jamais voltariam aos cofres da Assembleia. No jogo, e como sempre acontece, só os fracos foram punidos pela má gestão financeira do Estado.

LENTE – Para um analista de larga experiência, ouvido pela coluna com a condição de não ter revelado seu nome: “Não há heroísmo na política. O tempo, implacável, um dia arranca a máscara. A verdade cai diante dos olhos da opinião pública. O tempo não bate ponto nos gabinetes do poder”.

AVISO – Está no longo prefácio de Michele Gialdroni para a tradução de ‘Juventude sem Deus’, de Ödön von Horváth, feita por Sérgio Miceli para a editora Todavia, S. Paulo, lançada em 2024: “Não há salvação para os ingênuos iludidos, para as mulheres exploradas, para os cínicos realistas…”.

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Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.

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