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    Alagoas

    Juiz de Fora: para sobreviventes, sistemas de alertas não funcionaram

    28 de fevereiro de 2026
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    Um plano que prepare a população para sair de casa durante chuvas fortes e indique para onde deve ir precisa ser implementado pela prefeitura de Juiz de Fora, como forma de conter mortes por soterramentos. 

    A avaliação é de sobreviventes da tragédia do início da semana e de especialistas da Universidade Federal de Juiz de Fora. A prefeitura afirma que a Defesa Civil já atua na prevenção.

    As fortes chuvas que atingiram a cidade da Zona da Mata mineira entraram para a história como um dos eventos mais extremos registrados pelo município e que contabiliza mais de 60 mortos, além de milhares de desabrigados ou desalojados, segundo o balanço desta sexta-feira (27).

    Uma das regiões mais atingidas foi o Jardim Parque Burnier, na zona leste de Juiz de Fora, a três quilômetros do centro. Cercado de encostas e com histórico de deslizamento, o local concentra mais de 20 mortos e teve mais de dez pessoas resgatadas debaixo de escombros.

    Os que conseguiram escapar com vida, caso do pedreiro Danilo Frates, cobram um sistema de emergência mais efetivo.

    Na segunda-feira (23), ele disse que não recebeu nenhum aviso de alerta e avaliou que a prefeitura demorou a chegar, apesar de nunca ter visto um desastre do tipo.

    “Não teve aviso, não teve sirene para alertar, não teve”, disse Danilo.

    Ele contou que só percebeu os deslizamentos quando saiu de casa e observou uma poeira o ar, mesmo sob chuva.

    Juiz de Fora (MG), 27/02/2026 - O morador do bairro Jardim Burnier, Danilo Fartes, fala sobre o resgate das vítimas do deslizamento de terra ocorrido durante tempestade da noite de segunda-feira, 22 de fevereiro, que vitimou 21 pessoas e deixou várias casas destruídas. Foto: Rovena Rosa/Agência Brasil

    Morador do bairro Jardim Burnier, Danilo Fartes – Rovena Rosa/Agência Brasil

    Para Danilo Frates, se a Defesa Civil tivesse emitido alertas, incluindo o uso de sirenes, ou orientações no local, mais vidas poderiam ter sido salvas.

    “Eles podiam vir alertar antes, fazer prevenção. Porque a pessoa quando vê a chuva, ela se abriga onde ela tem para ir”. E naquela situação, completou, eram casas em risco.

    “A pessoa, sozinha, ela não vai imaginar que vai descer uma montanha, um barranco, ela se sente segura em casa e volta”, explicou Frates.

    Mapa de risco

    Na avaliação do professor do Departamento de Geociências do Instituto de Ciências Humanas da Universidade Federal de Juiz de Fora (UFJF), Miguel Felippe, apesar do município ter um mapa de risco e um sistema de alerta considerado estruturado, ficou clara a necessidade de aprimorar a comunicação e a organização para que a população saiba o que fazer nesses casos, incluindo rotas de fuga e endereços de abrigos públicos.

    “É preciso ir a campo, conversar com as pessoas, instruir, ter um plano de contingência muito claro”, recomendou.

    Da mesma forma, o professor do Departamento de Transportes e Geotecnia da Faculdade de Engenharia da UFJF, Jordan de Souza, avalia que o sistema de alerta da Defesa Civil é tão importantes quanto as obras de engenharia.

    Para o especialista, o volume de chuva em Juiz de Fora, nos últimos dias, superou a capacidade das estruturas existentes, enquanto as obras contratadas pela prefeitura ainda estão em andamento ou fase de contratação.

    Sem uma solução segura, o professor defende a realocação habitacional de moradores.

    “Em alguns casos, não é viável conter a encosta”, afirmou, em relação a moradias localizadas em áreas de alto risco já conhecidas.

    Sistema de alerta

    Em entrevista à Agência Brasil, a a secretária de Desenvolvimento Urbano e Participação Popular do município, Cidinha Louzada explicou que há um sistema de alerta por mensagens para os telefones celulares dos moradores.

    Já as sirenes sonoras, pelas características dos terrenos, não são adequadas, segundo a secretária. Ela avalia que o problema é que as pessoas não deixam suas casas.

    “A pessoa pensa assim: ‘eu já moro aqui há 40 anos, nunca aconteceu nada””, disse Cidinha.

    Ela ponderou que há ainda casos de indivíduos que têm medo de não ter para aonde ir ou de perder a casa e preferem arriscar, como aconteceu no Jardim Parque Burnier.

    Uma das vítimas no bairro, uma mãe que morreu abraçada aos dois filhos pequenos, tinha sido alertada para sair de casa pela filha mais velha, que mora próximo.

    A casa dessa mulher era encostada em outra já condenada pela Defesa Civil, em uma sucessão de equívocos que causaram a fatalidade.

    A secretária Cidinha Louzada explicou ainda que Juiz de Fora é a nona cidade no país em risco de desastre geológico, que classifica moradias entre quatro níveis de risco.

    No mais grave, o monitoramento é constante, feito por núcleos da Defesa Civil que vistoriam as unidades. “É um trabalho de prevenção feito com as pessoas, mostrando o que fazer ao menor sinal de risco”, disse a secretrária.

    No caso de interdições, a prefeitura oferece auxílio moradia, que passou de R$ 200 para R$ 1,2 mil.

    Com a perspectiva de entrega de 278 unidades do programa federal Minha Casa, Minha Vida, em construção, o número de famílias que poderão ser atendidas vai aumentar. Hoje, estão no programa 446 pessoas.

    A secretária explica que vários pontos da cidade sofreram com deslizamentos de terras mas que, em Burnier, pela proximidade entre as casas, houve mais vítimas.

    O problema reflete desigualdades no acesso a moradia pelas pessoas pobres, destacou o professor Felippe.

    No bairro, a prevenção é permanente, insistiu Cidinha Louzada, sobre um trabalho que conjuga ações sociais e obras de infraestrutura.

    “Tanto que em todo o nosso período de gestão não tínhamos tido nenhuma vítima ou desabrigado de chuvas”, completou.

    “A gente sabe que as pessoas moram nessas áreas por necessidade e que as construções são frágeis para a aquele estrutura [geológica]”.

    A prefeitura de Juiz de Fora tem várias obras em andamento ou contratadas para contenção de encontradas com recursos do Ministério das Cidades, do Novo Pac, ou da Defesa Civil Nacional, acima de R$ 500 milhões.

    O processo é lento porque envolve licitação e a burocracia dos bancos públicos, de acordo com a secretária. Ela lembrou que os projetos foram feitos nesse mandato e que a gestão encontrou a prefeitura desmantelada.

    Pôlder

    Para conter as enchentes, a principal e a mais cara é a obra de instalação de um pôlder, no bairro Industrial, que ficou debaixo de água.

    O sistema consiste em isolar uma área inundável por meio de muros e utilizar bombas para remover o excesso de água aos poucos.

    “Vai ser uma obra cara, mas importante para a localidade, que sofre há anos com enchentes”, destacou a secretária.

    O acumulado de 749 milímetros de precipitação na cidade até o dia 25 de fevereiro, de acordo com o registro feito pela UFJF, é o maior dos últimos 30 anos.

    O último evento dessa magnitude foi registrado em 1972 e, o mais recente, em 1985, quando a ocupação da cidade era diferente.



    Notícia publicada originalmente por Portal de Alagoas
    em nome do autor Redação.

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