Vicente Serejo
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Só desinformados ou ingênuos, desletrados ou tolos, nessa ordem de precários desconhecem os traços determinantes do brasileiro. E tudo começa longe, ainda na Carta de Pero Vaz de Caminha, quando o escriba de Pedro Álvares Cabral escreve a D. Manuel I, Rei de Portugal, para comunicar a descoberta. Lá pras tantas, insinua ao rei olhar com bons olhos para seu cunhado, vivendo em Lisboa, na esperança de um bom lugar no seu Reinado. Ora, nascia, ali, o primeiro pistolão na terra brasilis.
De lá até agora tudo tem sido assim. Nossa independência foi possível diante do medo de Dom Pedro II de perder o poder para sua própria família se voltasse a Portugal. Nossos escravos não foram libertados por um estadista, como Joaquim Nabuco, mas por uma princesa morta de vergonha diante do mundo. E a República, ao contrário de todas as traições republicanas, desde a Revolução Francesa, nasceu na ponta da espada do Marechal Deodoro da Fonseca, incentivado por Dona Nair, sua mulher.
Séculos depois, em matéria de estranhezas, não mudamos muito. Hoje os seguidores de Jair Bolsonaro pedem anistia para o ex-presidente alegando morbidades e comorbidades, e até com uns surtos delirantes, mas todos sabem que uma vez anistiado dos crimes de lesa-democracia que cometeu ele aparecerá sadio, curado de tudo. E candidato a governar a Nação de um povo que reconquistou nas ruas a democracia que hoje vive e da qual desfruta, bem ou mal, com suas instituições preservadas.
Sem submeter sua escolha a ninguém, mesmo poderoso, o então presidente Jair Bolsonaro, como um messias, nomeou André Mendonça Ministro do Supremo Tribunal Federal e não fez mais do que as prerrogativas constitucionais garantem até hoje. Mas, quando Lula, um arguto inegável, vai e indica Jorge Messias pelo mesmo critério, não por saber jurídico, mas por crivo de confiança, os bolsonaristas estranham e protestam, esquecidos de que ele também é “terrivelmente evangélico”.
Depois de ultrapassar a marca de quinhentos anos ou cinco séculos, o Brasil vive aquele que é o maior enigma de sua história: o Centrão. O que e a quem representa? O que deseja, afinal, e a que, por ventura, se propõe, além da defesa dos seus interesses, detentores que são das máquinas do Senado e da Câmara, abocanhando R$ 61 bilhões de emendas, legislando e liberando suas próprias finanças, sempre em nome da augusta independência e da generosa harmonia dos poderes constitucionais?
Como desconhecer a força da polarização que mantém os dois extremos num artifício de quase eternização, como se tivéssemos voltado às capitanias hereditárias? Se nós mesmos construímos, com nossos votos, esse maniqueísmo que alterna os papéis do bem e do mal, de acordo com cada ódio ou paixão? A quem culpar, se somos, nós mesmos, os únicos patrocinadores de tudo quanto há de um lado e outro? O que nos salva, e lá se vão cinco séculos, é ter um povo que não tem medo de viver?
PALCO
SOMBRAS -O governo promete pagar dia nove de janeiro o 13º salário de ativos e inativos. Já o salário de dezembro só com a compaixão do Espírito Santo, através do prestígio do Padre João Maria.
FORTES – A crise não afeta os poderes Judiciário e Legislativo. O orçamento do Judiciário pagou tudo e tem uma boa sobra depositada. E é legal. E o Legislativo também, com aplicações volumosas.
LUTA – Pelo que demonstram as pesquisas, tão intensa quando a disputa para o governo será a luta pela segunda vaga de senador. Zenaide Maia e Álvaro Dias serão seus dois mais fortes contendores.
META? – A Direita, com as candidaturas de Alysson Bezerra e Rogério Marinho para o governo e os candidatos ao Senado – Styvenson Valentim e Álvaro Dias, retomaria o poder nas urnas de 2026?
ASAS – Do Lobo Guará, catando nos dedos o motivo do rompimento do MDB com o PT, depois de três anos no galope macio do poder: “Como diz a canção popular, a lagarta só rasteja até criar asas”.
TIRO -Editorial da Folha de S. Paulo sobre envolvimento de ministros do STF em denúncias graves: “Poderosos se protegem e a corrupção se alastra”. Somos, afirma a Folha, “o território do vale-tudo”.
POESIA – De George Wilde, no seu livro ‘Tudo o que faltou dizer”, ferindo a brancura da página no belo enigma de uma descoberta: “Se passou rápido, / é porque levou pouco tempo / para ser eterno”.
PAIXÃO -De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, coçando os mistérios da alma na tarde pobre que se estirava nas horas cheias de tédio: “Toda paixão esconde na carne um deus e um diabo”.
CAMARIM
NOVO – Não fosse de verdade pareceria jogo para enganar os tolos: o MDB, depois de apoiar e participar de vários governos, agora quer ser independente no plenário da Assembleia Legislativa. E mantém o álibi perfeito de que terá candidato próprio na luta de 2026, como chegou a ser declarado.
JOGO – Não existe pudor na política. O MDB foi comensal do governo durante três anos, e, agora, de tripa forra, descobriu a crise para justificar o rompimento. Sabe que não irá ao segundo turno a ser disputado por Alysson Bezerra e Rogério Marinho, mas é lá que poderá negociar os seus préstimos.
SAÍDA – Alegação da ingovernabilidade do governo não passa de um bem engendrada saída retórica. Walter Alves sabe que, eleito deputado estadual, com o apoio de Ezequiel Ferreira, poderá presidir a Assembleia, hoje o poder com o mais volumoso orçamento. O resto é o combinemos das blogagens.
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Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.
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