Bruno Vital
Repórter
O sol mal tinha nascido quando Luênia Azevedo, 26 anos, já se levantava, em Felipe Camarão, zona Oeste de Natal, para mais um dia corrido. Naquela quarta-feira (22), porém, havia algo diferente. Ela se preparava para o primeiro dia de um recomeço: o início do “Mulheres que Constroem”, projeto que acolhe mulheres vítimas de violência doméstica e/ou em vulnerabilidade social e as capacita para o mercado de trabalho. O programa, cujas atividades são sediadas no Instituto Vida Videira (IVV), é uma iniciativa do Sistema Fecomércio-RN, em parceria com a Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte (ALRN).
Casada logo aos 14 anos, mãe atípica aos 22 e vítima de violência doméstica, Luênia carrega marcas de uma vida que começou cedo demais. Foram 11 anos de relacionamento abusivo, até a separação em 2023. “Casei logo cedo, com 14 anos. Saí de dentro de casa e fui viver com ele. Ele me batia, ele me xingava. A gente não saía junto, porque se saísse junto voltava brigando. Foram anos muito difíceis. Perdi muitas coisas na juventude. Me arrependo muito. Perdi colégio, não sei ler nem escrever, mas vou conseguir aprender, dar a volta por cima”, conta Luênia Azevedo.
Hoje ela vive com um novo companheiro e pretende se casar em breve. Entre arrumar a casa, cuidar da sogra e do filho de quatro anos, ela descobriu o projeto e logo se interessou pela oportunidade. “Quando eu vi, procurei logo me inscrever, sempre quis. Eu acordo de 5 horas, ajeito o café, dou a insulina da minha sogra, meu esposo toma café, sai para trabalhar e eu fico em casa. Lavo a louça, faço o almoço, arrumo meu filho, boto para o colégio, vou buscar ele, dou o lanche dele, faço o jantar, escovo os dentes, dou banho e boto pra dormir”, pontua.
Luênia Azevedo é uma das 100 mulheres inscritas no projeto inovador, fruto de uma parceria do Sistema Fecomércio e Procuradoria Especial da Mulher da Assembleia Legislativa (ProMulher/ALRN). A proposta une acolhimento, capacitação e estímulo à autonomia econômica voltada a mulheres em vulnerabilidade social. As participantes têm momentos de valorização pessoal, entendimento das emoções e outras atividades de autocuidado antes das oficinas de brigadeiros gourmet, salgados, orientação de carreira e educação financeira, em um programa de 40 horas.


O presidente do Sistema Fecomércio, Marcelo Queiroz, diz que não se trata apenas de oferecer um curso a essas mulheres. “É devolver autonomia, renda e autoestima — fatores que aumentam a capacidade de decisão e reduzem a dependência econômica, um dos principais determinantes da permanência em situações de violência. Quando qualificamos, também abrimos portas para inserção no mercado formal, empreendedorismo e redes de proteção social”, comenta.
Até junho do ano que vem, o projeto terá mais duas edições para atender mulheres na comunidade Passo da Pátria, na zona Leste, e também em alguma região da zona Norte da capital, ainda não definida.
Formação que abre oportunidades
Ao final da jornada, cada participante sai do curso com certificado do Senac e novas possibilidades no horizonte. A formação em gastronomia abre portas para o trabalho em hotéis, restaurantes, padarias, lanchonetes e no próprio comércio local — setores que, em Natal, seguem entre os que mais contratam. Outras encontram no empreendedorismo o caminho para a renda e a autonomia, transformando a cozinha de casa em espaço de sustento e criação.
Rose Câmara, gerente de Carreiras do Senac RN, diz que o projeto tem sido a primeira forma de contato com um “mundo novo”, fora da comunidade de Felipe Camarão. “O nome é justamente esse porque elas estão construindo uma nova vida, com novas perspectivas, com coisas que, muitas vezes, elas sequer experimentaram. São pessoas que querem preencher seus dias e não sabem como. Muitas que nunca trabalharam fora de casa, que não se sentem capazes”, explica.
O Instituto Vida Videira (IVV), no coração de Felipe Camarão, foi escolhido para receber o projeto-piloto. As vagas se esgotaram em menos de duas horas, conta Beatriz Brito, supervisora do IVV. “Assim que a gente abriu, já tinha conseguido as 80 mulheres que precisava para fechar o projeto. Depois até abrimos mais 20 por questão de evasão, desistências, mas a procura nos surpreendeu positivamente. Para a gente, pode ser algo simples, mas estamos lidando com realidades completamente distintas”, acrescenta.
Da dor à autonomia da própria vida
Em dez encontros, que se estendem por dois meses, as participantes recebem aulas de empreendedorismo e finanças pessoais e participam de oficinas de culinária. O objetivo é criar oportunidades reais de geração de renda. “Essas mulheres vão estar na plataforma para serem encaminhadas. Isso vai movimentar tanto a economia pra quem vai empreender, quanto o mercado como um todo. Elas vão estar aptas para o mercado de trabalho, com certificado do Senac”, explica Rose.
Marcelo Queiroz lembra que o impacto vai além do individual. “Fortalecem famílias, dinamizam microeconomias locais e ajudam a consolidar ambientes comunitários mais seguros e equilibrados”. Segundo Queiroz, as ações seguem uma estratégia de ESG voltada à inclusão produtiva e à sustentabilidade social. “Trabalhar educação, cultura e inclusão social não é apenas ampliar o escopo de serviços; é gerir riscos, fortalecer relacionamentos com parceiros públicos e privados e aumentar a confiança pública”, afirma.
A procuradora especial da Mulher da ALRN, deputada Cristiane Dantas, pontua que a ideia do programa surgiu da necessidade de incentivar mulheres vítimas de violência a retomarem a autoconfiança e controle das próprias vidas. “Cada mulher que chega aqui traz uma história de superação. O projeto ‘Mulheres que Constroem’ representa um recomeço, uma oportunidade de recuperar a autoconfiança, conquistar independência financeira e construir novos caminhos com dignidade”, afirma.
- Reconstruindo a própria história
Cada participante leva consigo uma história de resistência. Magna Luana, 34 anos, é mãe de duas crianças e cuida da mãe e da avó, que estão acamadas. “Me inscrevi para ver se eu consigo colocar meu próprio emprego em casa, minha própria empresa em casa, porque eu não posso trabalhar fora. Como eu preciso cuidar de muitas pessoas, não tenho como sair e tenho esse sonho de trabalhar para mim, montar meu negócio, então quando vi esse curso não pensei duas vezes”, conta.
O diagnóstico do filho mais novo, autista, foi um golpe difícil. “Quando eu soube, eu queria logo ir embora, não quis saber de conversar com ninguém. Mas depois pensei: Jesus, o que é que eu vou fazer agora?” Hoje, o curso devolve a ela uma perspectiva para a vida. “Eu quero um conhecimento maior na área e, se Deus quiser, é daí para o futuro, para cima. Ter uma renda para cuidar dos meus filhos e de mim”, declara.
Já Antônia Elizabete, de 48 anos, encontrou o mesmo impulso para recomeçar. Assim como Luênia e Magna, nunca trabalhou formalmente, mas já realizou serviços como faxineira. A história de Antônia começa por Caraúbas, no interior do Estado, e chega a Natal em 2002. “Eu cuidava do meu pai, passei nove anos cuidando dele. Jesus o levou. Depois eu disse para mim que agora é a minha vez. Agora vai”. Ela soube do projeto por uma vizinha e decidiu tentar. “Sou apaixonada por cozinhar. Se Deus me abençoar e tudo der certo, quero arrumar um emprego. Estou só em casa, então vai ser muito bom”.