Vicente Serejo
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A palavra, entre muitos outros atributos, serve para esconder e revelar, suavizar e exacerbar, perdoar e condenar, aceitar e negar, desejar e desprezar, se não são poucos os sentidos que pode ter. Há filólogos que acreditam e demonstram que há uma diplomacia como um artifício das linguagens, se são diversas e em razão de cada campo de expressão. E seu uso, principalmente nos casos mais jeitosos, pode escamotear com leveza, e até elegância, a verdade grosseira que esconde nela mesma.

Impressiona a matéria assinada pelo jornalista Tulio Kruse, na Folha de S. Paulo. A partir do título: “Tropas da elite da PM puxam aumento do número de mortes no último trimestre de 2025”. Fui aos números. No Brasil, o recorde de letalidade policial foi da Rota – Rondas Ostensivas Tobias de Aguiar, com 834 casos, sem contar os casos também letais dos chamados “Batalhões de Ações Especiais de Polícia”, estes mais responsáveis pela maior expansão nos municípios de São Paulo.

Fixados os números, como informações apenas referenciais, cuidemos do que a diplomacia da palavra é capaz de engendrar. Reparem que a palavra ‘elite’ é a máscara que encobre e suaviza as verdades que estão do outro lado. Seria de uma propriedade incontestável se não fossem crescentes as denúncias de verdadeiros trucidamentos generalizados, inclusive de pessoas sem passagem alguma pela polícia, além das balas perdidas e que matam até crianças vulneráveis nos barracos das favelas.

Claro que não é fácil o confronto com grupos fortemente armados, alguns com armas de última geração. Mas, ainda assim, se recebem treinamento especial por serem tropas de elite, cabe perguntar: a propriedade da expressão significa o elevado padrão de ação ou licença para matar? O que dizer às populações das favelas, se os policiais de elite desligam nas suas lapelas as câmaras ligadas? Temem demonstrar que o medo das ações repressoras é também uma forma grave de violência e impunidade?

A ação policial se faz, na realidade, em dois níveis de intensidade: na dissuasão, para dissuadir, pois, a prática criminosa e evitar confrontos; e na repressão, para reprimir a ação criminosa no mesmo tom. O sistema de segurança pública brasileira perdeu a guerra da dissuasão, embora venha nos últimos meses colhendo bons frutos no desmantelamento da sofisticada e estranhamente promissora economia clandestina das facções e que acabou revelando o gigantismo das grandes organizações.

Mantido o eficiente serviço de inteligência que tem confiscado valores milionários, atingindo o sistema nervoso central das facções, é possível enfrentar o crime, mas a estratégia passa pela forte presença policial nas ruas. Ou a dissuasão, para reduzir o confronto armado, ou a não bastará, como até agora não bastou, só a repressão. O gigantismo das facções revela: a inteligência policial não funcionou ao longo das últimas décadas. Daí ter sido a própria polícia deploravelmente surpreendida.

PALCO

BISPOS – O RN pode ganhar mais três bispos: Monsenhor Aerton Sales da Cunha, pároco de Ceará Mirim; e Monsenhor Valquimar Nogueira, hoje vigário geral da Arquidiocese e o pároco da Catedral.

AINDA – Também pode ser bispo o padre Edson Medeiros de Araújo, atualmente pároco em Caicó. Nas sacristias, fala-se nos monsenhores Valdir Cândido e Charles Dickson, menos cotados até agora.

SINTOMA – Do Lobo Guará, escolado nas manhas políticas, quando leu que a governadora Fátima Bezerra confirmou a renúncia: “Seria outro o destino de Fátima, não a disputa pelo Senado Federal?”.

MAIS – Para o Lobo Guará, há um sinal no horizonte que pode justificar uma reserva de garantia: o apoio ou pelo menos a leniência caso o PT não chegue ao segundo turno. Na política tudo é possível.

DATA – Este 2026 marca os 90 anos do salário mínimo. Continua mínimo, mas ainda há quem ache elevado. Seu valor hoje: R$ 1.621.00. Foi criado em 1936 e oficializado em 1940, por Getúlio Vargas

AVISO – O aviso já está publicado, numa rede nacional, no site ‘Cartas Marcadas: “O ano eleitoral de 2026 será extremamente duro, marcado pela naturalização da manipulação e da desinformação”.

POESIA – Ainda de Sérgio Vaz, o poeta da periferia, como ele mesmo se declara, este aviso poético assim, das suas ‘Flores de Alvenaria’: “Estou de dieta: / não engulo sapo nem bebo água de choro”.

LIÇÃO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, dando lições de como viver apesar de todos os perigos desses tempos invisíveis, ditos virtuais: “Prenda os seus medos no quarto de despejo”.

CAMARIM

GESTO – Uma fonte petista, com a liberdade de conversar com pessoas próximas do comando central do partido, garantiu a esta coluna: o deputado Ezequiel Ferreira, qualquer que seja sua posição na luta deste ano, não será contra Fátima Bezerra. Mesmo ela ficando dentro ou fora da política partidária.

FOUCHÉ – O cronista não faz indicações de leitura. Só informa lançamentos quando são de algum interesse geral. Mas, ao leitor que pediu, vai a dica: para conhecer a figura de Joseph Fouché, ministro do rei Luis XVI, há algo a ser lido: a excelente biografia escrita por Stefan Zweig, Zahar, Rio, 2015.

MAIS – Se por alguma razão o leitor, por gosto pessoal, nas buscas, preferir outra leitura, numa coisa há de concordar com o cronista: o longo e muitíssimo bem circunstanciado posfácio de Alberto Dines – “O Patife Irresistível”. Para Dines, Fouché é um grande e inegável personagem da patologia política.

Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.

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Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.

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