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    Início » A inusitada conexão entre ‘o mito da beleza venezuelana’ e o boom do petróleo no país
    Brasil

    A inusitada conexão entre ‘o mito da beleza venezuelana’ e o boom do petróleo no país

    25 de janeiro de 2026
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    A miss Venezuela Jacqueline Aguilera Marcano durante o Miss Mundo de 1995, do qual ela saiu vencedora

    Crédito, AFP via Getty Images

    Legenda da foto, A miss Venezuela Jacqueline Aguilera Marcano durante o Miss Mundo de 1995, do qual ela saiu vencedora
    Article Information

      • Author, Julia Braun
      • Role, Da BBC News Brasil em Londres*
    • Há 1 hora

    • Tempo de leitura: 7 min

    A Venezuela tem as maiores reservas de petróleo do mundo — e o maior número de vitórias em concursos de beleza femininos internacionais. Os dois recordes podem aparentar não ter nenhuma relação, mas eles estão mais conectados do que muitos imaginam.

    A história começa quase um século atrás. Com a descoberta de enormes reservas de petróleo a partir de 1914, a indústria petroleira da Venezuela engatou em um ciclo de prosperidade que chegou ao auge entre as décadas de 1920 e 1970.

    A Venezuela chegou a ser o país mais rico da América do Sul e a ter um Produto Interno Bruto (PIB) per capita maior do que o da França, Itália e Alemanha nos anos 50.

    A estabilidade da moeda local, o bolívar, permitia que os venezuelanos mais ricos tivessem altíssimo poder de compra e viajassem com frequência para o exterior.

    Caracas também se tornou símbolo de uma elite sofisticada e consumidora de luxo.

    Na visão do governo, contudo, isso não era suficiente para convencer o mundo de que a Venezuela não era mais a mesma. E é aí que entram os concursos de beleza, que passaram a ser usados como uma espécie de instrumento de diplomacia cultural.

    “Não é algo superficial, mas sim relacionado a uma política de Estado para vender uma imagem internacional de país diferenciado na América Latina, cujas mulheres tinham um padrão de beleza europeu e norte-americano”, afirma Carolina Pedroso, professora de Relações Internacionais da Universidade Federal de São Paulo (Unifesp).

    As misses passam então a fazer parte de uma agenda de construção da Venezuela não apenas como um país petroleiro, mas também rico e próspero “que não poderia ser comparável aos seus vizinhos latino-americanos”.

    De lá para cá, o país conquistou 24 títulos nos quatro principais concursos internacionais (Miss Mundo, Miss Universo, Miss Internacional e Miss Terra), o maior número entre todos os países do mundo.

    O concurso ainda revelou nomes importantes da televisão venezuelana, como modelos, atrizes, apresentadoras de televisão e até uma candidata à presidência — Irene Sáez foi prefeita do município de Chacao, um tradicional reduto da classe média e alta de Caracas, e concorreu no mesmo ano em que Hugo Chávez foi eleito pela primeira vez.

    “A Venezuela se torna uma referência pelo fato de ter belas mulheres e vencer muitos concursos de beleza”, diz Pedroso.

    A época dourada

    Os concursos de beleza eram realizados na Venezuela desde o início do século 20, mas ainda de forma muito local.

    Eles ganharam projeção quando revistas populares começaram a publicar ensaios fotográficos das ganhadoras — imagens que, com o tempo, passaram a ser cada vez mais associadas a uma elite venezuelana e ao glamour de Caracas da época.

    As “belezas venezuelanas” eram fotografadas ao lado dos modernos carros recém-chegados à Venezuela ou usando roupas de grifes europeias.

    O Miss Venezuela foi fundado oficialmente em 1952 e transmitido na TV pela primeira vez em 1962. As vencedoras representavam o país em concursos internacionais, como o Miss Universo e o Miss Mundo.

    O primeiro grande sucesso da Venezuela veio em 1955, quando Susana Duijm ganhou o Miss Mundo e se tornou a primeira latino-americana coroada em um dos “big four“, ou os quatro concursos de beleza femininos mais prestigiados.

    A vitória inaugurou a era do foco internacional nos concursos de beleza.

    Susana Duijm, da Venezuela, após ser coroada Miss Mundo 1955 no Lyceum Ballroom, em Londres, em outubro de 1955. A primeira vice-campeã, Margaret Anne Haywood, dos EUA, pode ser vista à esquerda

    Crédito, Terry Fincher/Keystone/Hulton Archive/Getty Images

    Legenda da foto, Susana Duijm, da Venezuela, após ser coroada Miss Mundo 1955 no Lyceum Ballroom, em Londres, em outubro de 1955

    Escolas para formar novos talentos foram abertas nessa época para expandir ainda mais o sucesso venezuelano.

    Nessas academias, as jovens mulheres eram ensinadas a andar, sentar, sorrir e se vestir como misses, em aulas que por vezes iam das 7h da manhã à meia-noite.

    Uma reportagem da época relata ainda que em uma dessas escolas, Organización Miss Venezuela, as alunas eram obrigadas a seguir uma dieta rigorosa, além de uma rotina pesada de exercícios.

    Um dos nomes mais conhecidos dessa indústria de formação era Osmel Sousa, um empresário cubano-venezuelano que dava consultoria às candidatas.

    Muitas das mulheres assessoradas por Sousa conquistaram grande sucesso, o que fez com que ele ficasse conhecido como o “czar da beleza” e eventualmente se tornasse presidente da Organização Miss Venezuela.

    Com muito investimento, o Miss Venezuela se tornou o programa mais caro da televisão venezuelana e chegou a atrair cerca de 120 milhões de espectadores, com exibição também no México e nos Estados Unidos.

    Osmel Sousa

    Crédito, AFP

    Legenda da foto, Osmel Sousa deixou o comando do Miss Venezuela em 2018, após 40 anos “produzindo” misses venezuelanas que triunfaram em concursos internacionais.

    Uma das representantes da era de ouro do concurso é Maite Delgado, que participou da competição em 1986 e apresentou o evento por 15 anos.

    “Era uma Venezuela diferente, uma era de ouro em termos de orçamento e produção. Era uma escola e uma referência para a televisão, um dos maiores programas da América Latina”, relembrou Delgado em entrevista concedida à BBC Mundo, o serviço em língua espanhola da BBC, em 2017.

    “Era o programa mais caro da televisão venezuelana e o que gerava maior receita publicitária”, recordou ainda Roland Carreño, que foi assessor de imprensa e relações públicas do concurso e colunista social, à BBC Mundo.

    Carreño mencionou ainda o luxo das apresentações musicais, inspiradas nas da Broadway. “Era uma espécie de bálsamo para curar as feridas da alma nacional. As pessoas se sentiam felizes. Foi aí que nasceu o mito da beleza venezuelana”, afirmou.

    Repórter da BBC entrevista participantes sul-americanas do Miss Mundo de 1963: Miss Bolívia, Miss Colômbia, Miss Venezuela, Miss Argentina, Miss México e Miss Brasil
    Legenda da foto, Repórter da BBC entrevista participantes latino-americanas do Miss Mundo de 1963: Miss Bolívia, Miss Colômbia, Miss Venezuela, Miss Argentina, Miss México e Miss Brasil

    Muitos estudiosos ponderam, no entanto, que o sucesso do país nesse setor impôs um padrão de beleza irreal às mulheres venezuelanas, ampliando a busca por perfeição por meio de cirurgias plásticas.

    Até 2013, a Venezuela estava no topo do ranking de nações com mais cirurgias plásticas per capita, segundo a Sociedade Internacional de Cirurgia Plástica Estética (não há dados mais recentes sobre o número de procedimentos no país).

    “Não é um concurso de natureza, mas um concurso de beleza”, disse Osmel Sousa sobre o Miss Venezuela certa vez, fazendo referência à realização de procedimentos estéticos pelas participantes.

    “A beleza não é inata, é adquirida”, era outro dos lemas do empresário, que por vezes submetia suas candidatas a cirurgias plásticas após meses de treinamento.

    Irene Saez foi Miss Universo e concorreu à Presidência em 1998

    Crédito, AFP via Getty Images

    Legenda da foto, Irene Saez foi Miss Universo e concorreu à Presidência em 1998

    ‘Verdadeiro reflexo da realidade do país’

    À medida que a crise tomou conta da Venezuela, contudo, o investimento no mercado das misses diminuiu.

    Quando os preços internacionais do petróleo começaram a cair nos anos 1980, a economia venezuelana, que é extremamente dependente do chamado ouro negro, sentiu os efeitos rapidamente.

    A crise política e econômica criada a partir desse momento nunca conseguiu ser totalmente superada, chegando ao seu ápice a partir de 2014.

    Os concursos de beleza perderam apelo em todo o mundo nas últimas décadas, mas a crise venezuelana atingiu em cheio a Venevisión, a emissora que transmite o Miss Venezuela, assim como os patrocinadores e estilistas envolvidos no programa.

    A rígida academia de mulheres altas com sorrisos forçados e cabelos volumosos ainda segue de pé no país, mas com um orçamento muito menor.

    “Tudo piorou”, afirmou Roland Carreño à BBC Mundo em 2017. Segundo ele, o concurso passou a ser gravado em um estúdio tão pequeno que as possibilidades de enquadramento e os recursos técnicos são limitados e tudo parece “abafado”.

    O Miss Venezuela também passou a ser alvo de críticas e classificado como uma distração fútil diante da escassez de produtos básicos e pobreza extrema enfrentada por parte da população.

    E diversos autores e jornalistas no país veem a decadência dos concursos de beleza no país como uma metáfora da crise social e política enfrentada nas últimas décadas.

    “É um verdadeiro reflexo da realidade do país”, lamentou Maite Delgado, descrevendo o que o concurso se tornou. “É triste porque era um importante trunfo. É triste ver algo que já foi grandioso encolher ano após ano.”



    Notícia publicada originalmente por BBC Brasil
    em nome do autor .

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