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    Garrinsha contra o time de Garrincha: pai e filho choram ao lembrar trajetória de atacante haitiano destaque do Campeonato Carioca

    24 de janeiro de 2026
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    Neste sábado (24), o Estádio Nilton Santos vai presenciar um Garrinsha, camisa 7, em campo. E é com S mesmo. O Botafogo recebe o Bangu pela quarta rodada do Campeonato Carioca, e um dos destaques da equipe alvirrubra é Garrinsha Estinphile. O atacante marcou um gol e deu uma assistência contra o Flamengo, na primeira rodada, concretizando assim a oração do pai, Gary, que já pede por mais uma boa atuação contra o time do ídolo homônimo.

    “Ele falou que eu iria fazer o gol contra o Flamengo, que eu só precisava acreditar e não duvidar do meu potencial”, explicou Garrinsha, que serviu de tradutor do português para o idioma crioulo haitiano na conversa entre a ESPN e a família. “Ele e minha mãe oraram bastante, pedindo para eu fazer o gol, graças a Deus tivemos resposta. Eles assistiram ao jogo pelo celular e comemoram bastante”. A família repete a prece e tem certeza que o filho fará mais uma boa partida.

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    Aos 24 anos, Garrinsha ganhou esse nome porque o pai era muito fã de Garrincha, o craque brasileiro, quem não viu jogar, mas se encantou com vídeos na internet. Porém, na verdade, foi uma junção de fatores. O nome é praticamente um aumentativo do próprio nome: Gary. Além disso, foi uma forma de homenagear o sangue futebolístico que corre na família, já que o pai também foi jogador na juventude. “Eu gosto muito do meu nome”, admitiu o filho.

    Justamente por seu passado como atleta, Gary fundou uma escolinha de base no Haiti. Lá, Garrinsha foi descoberto pelo Pérolas Negras, um projeto social esportivo, braço da Missão de Paz do Brasil, após o terremoto de 2010. A tragédia, felizmente, não vitimou ninguém próximo, embora ele, aos oito anos, tenha visto as paredes caírem em cima de um primo também criança – foi possível resgatá-lo.

    A Academia Pérolas Negras se filiou ao futebol carioca em 2016 e passou a trazer haitianos para jogarem no Brasil. Tentaram trazer Garrinsha, mas a família não deixou por ser muito novo, com 14 anos à época. Quando o garoto acabou o ensino médio, foi chamado novamente e conseguiu aprovação. Veio com contrato profissional e nunca mais saiu. Desde então, já passou por São Bernardo-SP, Penapolense-SP, Comercial-SP, Aymorés-MG, Sampaio Corrêa-RJ, Petrópolis-RJ e atualmente Bangu-RJ.

    O que a família não sabia em 2019 era que a despedida se mostraria tão dolorosa. Pai e filho nunca mais se viram nos seis anos que se seguiram. Por isso, os dois vão às lágrimas falando sobre o assunto. Questionado sobre o sentimento ao deixar Garrinsha ir, Gary precisa de uma pausa. Esfrega o rosto várias vezes enquanto tenta responder em crioulo. O filho começa a lacrimejar junto enquanto espera para traduzir:

    “Ele falou que foi muito difícil. Acho que deu para perceber porque ele chegou a se emocionar. Foi muito difícil a minha saída, porque só tem eu como filho homem, somos só eu e minha irmãzinha. Ele e minha mãe choraram muito porque eles não sabiam quando eles iam me encontrar e até agora não conseguiram, né?”.

    A explicação para tanta demora veio na mesma fala: “Depois que eu saí, um ano e meio depois, a situação começou a se complicar mais ainda, por conta da guerra civil lá. Eles saíram do Estados Unidos achando que as coisas seriam um pouquinho melhores. Talvez o nosso encontro fosse mais rápido, mas acabou sendo mais difícil ainda por conta de política. Então ele fala que está muito triste. Ele, minha mãe e minha irmã estão esperando para me encontrar o mais rápido possível, porque eles querem estar ao meu lado”.

    Do Brasil, Garrinsha assistiu à sua família perder tudo. A casa e o carro foram queimados em meio à guerra civil. “O nosso bairro era tranquilo, não tinha essas coisas de bandidagem, de guerra. Quando foi tomado lá, foi muito difícil para mim. Não consegui performar bem, porque fiquei muito afetado, vendo família, amigos que cresceram comigo, morrendo. Quando eles [pai, mãe e irmã] saíram, fiquei um pouco aliviado, porque eu sei que eles saíram um pouquinho do perigo de ser executado, de fazer coisas que não queriam fazer.”

    A família seguiu para os Estados Unidos, estabelecendo-se na Carolina do Norte. Eles entraram legalmente, sob governo de Joe Biden. Com a mudança de presidente, agora eles temem a deportação. “Isso é nosso maior medo, porque voltar para o Haiti vai ser muito pior. Graças a Deus eles nunca foram presos [nos EUA], mas o governo implica muito com os imigrantes, a gente nunca sabe como vai ser”, explicou o jogador.

    Pai, mãe e irmã tentam conseguir vistos para embarcarem para o Brasil. Garrinsha tem a ajuda do Pérolas Negras, clube que detém seu passe e atualmente disputa a A2 do Carioca, e tenta agora contato com uma embaixada no Haiti. O objetivo é um só: vir para o Brasil. Enquanto isso não acontece, pai e filho matam a saudade por meio de conversas constantes. “A gente se fala quase toda hora. Eu sou muito amigo do meu pai.”

    Além dos planos familiares, o atacante também tenta colocar em prática as expectativas profissionais. “No momento, é fazer um grande Campeonato Carioca. Se Deus quiser, chegar à semi e à final. Depois, meu plano individual é chegar no nível nacional, Série A, Série B… Depois pensar em ir para a Europa e representar minha seleção.”

    Ele nunca foi convocado, mas sabe que tem a maior oportunidade da vida. O Haiti está classificado para a Copa do Mundo deste ano, no Canadá, México e Estados Unidos. Está, inclusive, no mesmo grupo do Brasil, o C. “Vou estar trabalhando para, se Deus quiser, jogar a Copa do Mundo. Eu sei que estou sendo visto, é continuar performando bem. Todo jogador tem o sonho de representar seu país em uma Copa”, disse Garrinsha.

    Apesar da sede, a família não pensa em se reencontrar nos Estados Unidos em caso de eventual convocação. O foco está 100% em vir para o Brasil. “O objetivo é minha família estar junto. Isso está me atrapalhando muito, muito, muito mesmo.”

    Ainda assim, graças à oração da família, Garrinsha está confiante para o jogo deste sábado. “Seria muito bacana fazer um gol contra o Botafogo com esse nome e com esse número”, ele comentou, prometendo que comemorará pela família. “Por ter o nome de Garrincha, os olhares vão ser um pouco diferentes do que o normal, porque ele é ídolo do Botafogo. Mas eu não carrego essa pressão. Eu sei da história dele, ele foi uma lenda, não vou nem me ousar comparar. Eu sou feliz por ter o nome dele.”

    Apesar do nome, Garrinsha terminou a conversa confessando que seu jogador brasileiro favorito é Neymar.

    Garrinsha, um dos destaques do Campeonato Carioca, durante jogo do Bangu Divulgação/João Gama/Bangu



    Notícia publicada originalmente por www.espn.com.br –
    em nome do autor .

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