As declarações do zagueiro Gustavo Marques, do Red Bull Bragantino, após a eliminação do clube nas quartas de final do Campeonato Paulista, provocaram forte reação institucional e reacenderam o debate sobre machismo e igualdade de gênero no futebol brasileiro. Os Ministério das Mulheres e o Ministério do Esporte divulgaram nota conjunta repudiando com veemência a fala do atleta e manifestando solidariedade à árbitra Daiane Muniz, responsável por conduzir a partida contra o São Paulo, disputada no sábado (21).
O confronto terminou com vitória do São Paulo por 2 a 1, resultado que selou a eliminação do Bragantino. Após o apito final, Marques afirmou que uma mulher não deveria apitar jogos envolvendo grandes equipes, alegando que sua equipe teria sido prejudicada pela arbitragem. A declaração teve ampla repercussão negativa e foi classificada por autoridades e entidades esportivas como discriminatória e inaceitável.
Na nota oficial, os ministérios destacaram que Daiane Muniz é uma árbitra FPF/CBF/FIFA altamente qualificada e que, em situações semelhantes, homens na mesma função não têm sua competência questionada com base em gênero. “Ainda que houvesse discordância sobre sua atuação, sua capacidade técnica não seria colocada em dúvida por ser homem. Esse é o ponto central que precisa ser enfrentado”, enfatiza o texto.
As pastas reforçaram que o respeito às mulheres é inegociável e que elas devem ocupar todos os espaços que desejarem seja no campo, na arbitragem, na gestão esportiva, na imprensa ou em qualquer outra área. Segundo o posicionamento oficial, ser mulher não reduz competência, autoridade ou preparo profissional. “Seguiremos firmes na promoção da igualdade e no enfrentamento de qualquer forma de discriminação no esporte brasileiro”, afirmaram, acrescentando que acompanharão atentamente os desdobramentos do caso na Justiça Desportiva.
Indignação da Federação Paulista de Futebol
A Federação Paulista de Futebol (FPF) também se pronunciou de forma contundente. Em nota, a entidade afirmou ter recebido as declarações do atleta com “profunda indignação e revolta”, classificando o episódio como reflexo de uma visão “primitiva, machista, preconceituosa e misógina”, incompatível com os valores da sociedade e do futebol.
A FPF ressaltou que é “absolutamente estarrecedor” que um atleta questione a capacidade de uma árbitra com base em seu gênero e destacou que a instituição possui atualmente 36 árbitras e assistentes em seu quadro, trabalhando ativamente para ampliar essa participação feminina. A federação reiterou que Daiane Muniz é uma profissional “da mais alta qualidade técnica, correta e de caráter”, reafirmando apoio irrestrito a ela e a todas as mulheres que atuam ou desejam atuar no futebol.
Ainda segundo a FPF, as declarações do jogador serão encaminhadas à Justiça Desportiva, para que sejam adotadas as providências cabíveis. “Nosso trabalho diário é para garantir que o futebol seja um ambiente seguro, justo e respeitoso para todas as mulheres”, conclui a nota.
Clube pede desculpas e avalia punição
Diante da repercussão, o Red Bull Bragantino divulgou nota oficial em seu site reforçando o pedido de desculpas a todas as mulheres e, especialmente, à árbitra Daiane Muniz. O clube afirmou não compactuar com a fala machista do atleta e reiterou seu repúdio a qualquer forma de discriminação.
De acordo com o comunicado, ainda no estádio, Gustavo Marques e o diretor esportivo Diego Cerri foram ao vestiário da arbitragem para pedir desculpas pessoalmente em nome da instituição e reconhecer o erro. “Sabemos que o peso de uma eliminação é frustrante, mas nada justifica o que foi dito, seja no futebol ou em qualquer meio da sociedade”, afirmou o clube, informando também que estuda, nos próximos dias, a punição a ser aplicada ao jogador.
Retratação pública do atleta
Em suas redes sociais, Gustavo Marques publicou um pedido de desculpas, alegando que estava de “cabeça quente” e muito frustrado com o resultado da partida. O zagueiro reconheceu que falou o que não deveria e nem podia, disse estar profundamente triste com o episódio e afirmou esperar sair da situação como uma pessoa melhor.
“Isso não justifica minha atitude. Peço desculpas a todas as mulheres e, em especial, à Daiane, o que já fiz pessoalmente no estádio. Reconheço meu erro e a infelicidade da minha declaração”, escreveu.
O caso segue repercutindo no meio esportivo e deve ter novos capítulos nos âmbitos disciplinar e judicial, reforçando a discussão sobre respeito, igualdade de gênero e responsabilidade de atletas como figuras públicas no futebol brasileiro.
Notícia publicada originalmente por Luciana
em nome do autor LUCIANA NOVAIS.
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