Em seus quase noventa anos de existência, o IBGE montou uma competente série histórica ao radiografar o país, avançou em suas técnicas, reuniu um corpo técnico altamente qualificado e alinhou-se entre as melhores agências estatísticas do mundo. Ao longo de sua história, sofreu várias tentativas de interferências políticas, mas conseguiu resistir. Hoje, no entanto, vê se agravar seu estado de penúria e descaso, que já dura anos. A lenta desidratação – de funcionários, de orçamento – é especialmente grave numa era em que informação é um ativo essencial e o próprio tempo estatístico, com as novas tecnologias, se acelerou brutalmente. Com isso, o IBGE está começando a ser superado por seus similares em outros países da América Latina, como o México e a Colômbia, informa Beatriz Bulla na edição deste mês da piauí.
Desde a posse de Marcio Pochmann na presidência do órgão, em agosto de 2023, o instituto também virou um caldeirão em ebulição. O corpo técnico se sente alijado das decisões estratégicas e define a gestão atual como “autoritária e desestruturante”.
A piauí ouviu trinta pessoas, entre servidores, integrantes da Comissão Consultiva do Censo, demógrafos, especialistas em administração pública, ex-presidentes do instituto e integrantes do governo Lula. A maioria faz um diagnóstico parecido: o órgão atravessa uma crise aguda, e o atual comando não vem contribuindo para as soluções. “Eu vejo o IBGE, na parte de recursos humanos, dentro de um abismo”, diz a demógrafa Suzana Cavenaghi, da Comissão Consultiva do Censo.
A escassez de servidores é grave. Em 2010, o IBGE contava com 7 mil funcionários efetivos para fazer a operação censitária daquele ano. Agora, tem metade disso, de acordo com o Assibge, o sindicato nacional da categoria.
Apesar das promessas, também já se passaram 27 meses sem que tenham sido publicados os microdados do Censo – que contém as informações mais minuciosas do levantamento nacional. Coletadas entre agosto de 2022 e março do ano seguinte, essas informações são necessárias para orientar políticas públicas, além de pesquisas e análises. “As duas grandes razões para esse atraso são uma equipe pequena e um Censo que precisa muito passar pelo processo técnico da crítica para extrair dados razoáveis”, diz o engenheiro Roberto Olinto, que presidiu o IBGE entre junho de 2017 e fevereiro de 2019.
A maior crise da gestão de Pochmann começou em julho de 2024, com a ideia de criar a IBGE+, uma fundação que captaria dinheiro junto à iniciativa privada para financiar as pesquisas do instituto. Era uma forma de contornar as limitações orçamentárias, mas os servidores dizem que só ficaram sabendo da novidade em setembro daquele ano – e a crise então ganhou uma dimensão pública. No dia 29 de janeiro, uma nota oficial anunciou a “suspensão temporária” da Fundação IBGE+.
Pochmann minimiza as críticas ao seu modo de gerir o instituto e até questiona a legitimidade de seus críticos, o que, até agora, só tem gerado mais animosidade contra ele. Na sua avaliação, os servidores que reclamam são um grupo pequeno, embora barulhento. Ele não esconde a mágoa pelo tratamento que a imprensa lhe dá. “Desde o anúncio da minha nomeação, como é que a imprensa se comportou?”, ele pergunta. “Você vai ver, só tem avaliação negativa, eu já cheguei assim.”
Assinantes da revista podem ler a íntegra da reportagem neste link.
Notícia publicada originalmente por revista piauí
em nome do autor Amanda Gorziza.
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