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    Início » Mulheres são mais empáticas que os homens? O que diz a ciência
    Brasil

    Mulheres são mais empáticas que os homens? O que diz a ciência

    21 de fevereiro de 2026
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    Imagem em preto e branco de um homem e uma mulher com fundo azul claro. Há uma lágrima recortada na bochecha do homem

    Crédito, Getty Images/ Javier Hirschfeld/ BBC

    Legenda da foto, Pesquisas científicas estão desafiando estereótipos de gênero antigos sobre empatia, e abrindo novas formas de pensar a masculinidade
    Article Information

      • Author, Melissa Hogenboom
      • Role, BBC Future
    • Há 43 minutos

    • Tempo de leitura: 10 min

    Quando mulheres realizavam grandes feitos, presumia-se, de forma equivocada, que “não eram mulheres que praticavam aquelas grandes ações, mas sim homens de saias!”, escreveu a filósofa Mary Astell, em 1705.

    Até a rainha Elizabeth 1ª disse, em frase que se tornaria célebre, que um dia governaria o país como um rei, apesar de ter o corpo de uma “mulher frágil“, como se governar fosse um caminho exclusivamente masculino.

    Embora esses exemplos sejam do passado, ainda persistem preconceitos de gênero sutis sobre o que significa ser uma pessoa bem-sucedida e poderosa.

    Uma característica frequentemente associada ao gênero feminino é a empatia. Supõe-se que as mulheres são empáticas por natureza, enquanto os homens que demonstram mais empatia costumam ser considerados fracos.

    Mas por que isso ocorre? Será verdade que as mulheres são naturalmente mais empáticas do que os homens, ou somos socializadas para o sermos?

    Estereótipos de gênero como esses têm consequências claras na forma como educamos os nossos filhos, na cultura do ambiente de trabalho e na liderança. Mas o que é menos visível é a precocidade com que esses preconceitos começam e o fato de os estereótipos reforçarem as nossas expectativas, impondo restrições significativas sobre a forma como esperamos que os outros se comportem.

    Os hormônios por trás da empatia

    A empatia envolve tanto a capacidade de compreender os pensamentos e sentimentos dos outros quanto a de responder de forma adequada. Também pode ser entendida em termos de empatia cognitiva — a habilidade de reconhecer emoções e adotar a perspectiva alheia — e de empatia afetiva ou emocional, quando reagimos emocionalmente aos pensamentos e sentimentos de alguém.

    Os cientistas utilizam diversos métodos para medir empiricamente a empatia, incluindo questionários e tarefas experimentais.

    Simon Baron-Cohen, psicólogo clínico da Universidade de Cambridge (Reino Unido), argumenta que isso ocorre porque o cérebro feminino é “predominantemente programado para a empatia”, o que tornaria as mulheres especialmente aptas para as funções de cuidado, enquanto o cérebro masculino seria “predominantemente programado para compreender e construir sistemas”.

    Imagem em preto e branco com fundo azul claro. À esquerda, um menino pequeno, de pé, enxuga uma lágrima do rosto com a mão. À direita, uma mulher ajoelhada segura delicadamente o menino pela cintura e o observa com expressão atenta e acolhedora

    Crédito, Alamy/ Javier Hirschfeld/ BBC

    Legenda da foto, Há uma percepção comum de que mulheres são mais adequadas para funções de cuidado, o que algumas pesquisas parecem sustentar

    Embora fatores sociais claramente influenciem a empatia, afirma Baron-Cohen, seu trabalho sugere que a exposição a hormônios no útero desempenha um papel no desenvolvimento social.

    Um estudo conduzido por ele em 2006, com mais de 200 crianças de 6 a 9 anos, constatou que os níveis de testosterona no líquido amniótico durante a gestação — mais elevados em fetos do sexo masculino do que do sexo feminino — estão diretamente correlacionados ao desempenho das crianças em testes cognitivos de sistematização, definida como a capacidade de analisar regras ou padrões. De fato, a exposição à testosterona no útero se mostrou um preditor mais forte do desempenho nos testes do que o sexo da criança isoladamente.

    “O que está claro é que algo como a empatia ou a sistematização resulta de uma combinação complexa de fatores biológicos e sociais”, afirma Baron-Cohen, da Universidade de Cambridge.

    A empatia está nos genes?

    Muitos outros pesquisadores, como a neurocientista britânica Gina Rippon, consideram problemática essa teoria hormonal. “A ideia de que todas as mulheres são naturalmente mais empáticas faz parte da persistência do chamado ‘mito do cérebro feminino‘”, diz Rippon. Também é preciso lembrar, acrescenta, que o cérebro de crianças pequenas é “altamente responsivo a influências externas”.

    Costuma-se dizer que as meninas e as mulheres são mais atentas às expressões faciais dos outros, uma habilidade considerada central para a empatia, mas os resultados são inconclusivos, e pesquisas recentes indicam que essa preferência não é inata.

    Uma meta-análise publicada em 2025 examinou 31 estudos, reunindo 40 experimentos distintos, sobre como as meninas e os meninos de um mês de idade observavam os rostos dos outros, se choravam quando os outros choravam e quão atentos estavam às pessoas ao redor. Em todas essas medidas, independentemente do sexo, os bebês não apresentaram diferenças quanto à consciência social e à disposição para compreender as emoções alheias.

    Um estudo genético de grande escala publicado em 2018, com mais de 46 mil participantes que responderam a um questionário e enviaram amostras de DNA, sugeriu que os genes desempenham algum papel no grau de empatia de uma pessoa. No entanto, nenhum desses genes está associado ao sexo do indivíduo.

    Varun Warrier, professor assistente de pesquisa em neurodesenvolvimento na Universidade de Cambridge (Reino Unido) e autor do estudo, afirmou à época que “como apenas um décimo da variação no grau de empatia entre indivíduos se deve à genética, é igualmente importante compreender os fatores não genéticos”.

    Isso indica que o ambiente em que alguém cresce e vive também exerce influência.

    A socialização da empatia

    “As meninas pequenas são ensinadas a ser gentis e a não ser rudes ou agressivas, e isso gradualmente passa a fazer parte de quem elas são”, afirma a neurocientista britânica Gina Rippon.

    Por outro lado, pesquisas mostram que pessoas em situação de menor poder econômico são mais capazes de reconhecer emoções.

    Um estudo constatou, por exemplo, que pessoas que se percebiam como tendo “menor posição subjetiva, menor renda e pertencendo a grupos culturais associados à classe baixa” demonstraram maior habilidade para identificar emoções alheias. O fato de mulheres apresentarem pontuações mais altas em empatia pode, portanto, decorrer da necessidade de serem altamente perceptivas em relação àqueles que detêm poder, somada à sua própria posição relativa de menor poder.

    A empatia é um traço maleável

    O ponto central é que a empatia pode ser aprendida, segundo Nathan Spreng, neurologista da Universidade McGill, em Montreal, Quebec (Canadá). “Quando entendemos essa ideia de uma gama de experiências emocionais, podemos nos concentrar nisso, aprender quais são as emoções das outras pessoas e aprimorar nossa empatia”, afirmou Spreng ao The Documentary Podcast, da BBC News. “Ela não é estática, é algo dinâmico ao longo da vida.”

    Um estudo neurológico publicado em 2023 mostrou que as ondas cerebrais de mulheres e homens reagem de maneira semelhante quando os participantes são expostos a imagens de expressões faciais dolorosas ou neutras. No entanto, na etapa do experimento em que os participantes responderam a questionários avaliando o quanto se sentiam empáticos, os homens obtiveram, em média, pontuações mais baixas do que as mulheres, a menos que fossem informados previamente de que teriam bom desempenho.

    As diferenças de gênero na percepção de empatia desapareceram no grupo de homens que recebeu previamente a informação de que os homens também são naturalmente “bons em compartilhar e cuidar dos sentimentos dos outros”.

    Imagem em preto e branco com fundo azul claro. Um menino está sentado e segura uma folha de papel azul nas mãos, olhando para ela com expressão séria. Uma lágrima escorre pelo seu rosto. Ele veste camisa de manga longa com detalhe listrado no peito e shorts

    Crédito, Alamy/ Javier Hirschfeld/ BBC

    Legenda da foto, A empatia parece ser algo que aprendemos ao longo do desenvolvimento e, portanto, é moldada pelo ambiente social em que estamos inseridos

    Esses resultados indicam não apenas que experimentos baseados em autorrelato sobre empatia são difíceis de dissociar de uma série de vieses pessoais e sociais, mas também reforçam a hipótese de que as expectativas e as motivações individuais desempenham papel central na empatia.

    As mulheres “tendem a vistas mais como empáticas quando sabem que seus níveis de empatia estão sendo avaliados”, afirma Rippon, referindo-se a experimentos desse tipo. “É uma característica socialmente valorizada, então elas querem obter pontuação alta.”

    Um estudo constatou que as mulheres superaram os homens em uma tarefa que exigia inferir com precisão os sentimentos de outra pessoa apenas quando, antes, eram convidadas a refletir sobre os próprios sentimentos. Quando não houve esse estímulo, não se observou diferença entre os gêneros.

    E, quando pesquisadores ofereceram dinheiro aos participantes para que identificassem corretamente as emoções alheias, a precisão empática aumentou em ambos os grupos. Os participantes aprenderam facilmente a ser empáticos porque havia uma recompensa associada.

    Sara Hodges, psicóloga da Universidade do Oregon (EUA) e coautora do estudo, propõe que as mulheres podem apresentar maior precisão empática não por uma habilidade inata, mas porque se sentem mais motivadas por expectativas sociais.

    Em vez de encarar a empatia como um traço fixo, ela defende que o conceito seja entendido como um processo que mobiliza múltiplas fontes de informação, como linguagem corporal, fala, estereótipos, experiências pessoais e interações anteriores.

    “Quando as pessoas estão mais motivadas a saber o que alguém está pensando ou sentindo, recorrem a mais fontes para construir essa compreensão”, afirma Hodges.

    As consequências graves do viés da empatia

    Segundo Hodges, da Universidade do Oregon, fala-se pouco sobre o fato de que a empatia não é apenas uma habilidade interpessoal usada para fins positivos — ela também pode ser empregada para manipular ou explorar outras pessoas. “Por exemplo, em uma negociação, se você conhece o limite mínimo da outra parte, é um negociador melhor”, afirma.

    Em última instância, as consequências das expectativas em torno da empatia e de traços associados podem contribuir para desigualdades sociais e produzir efeitos graves tanto para as mulheres quanto para os homens.

    Imagem em preto e branco com fundo azul claro. Um homem e uma mulher estão lado a lado, sorrindo. Uma lágrima azul está recortada no rosto do homem

    Crédito, Alamy/ Javier Hirschfeld/ BBC

    Legenda da foto, Quando há recompensa financeira, a diferença de empatia entre homens e mulheres desaparece

    Felizmente, a narrativa sobre a importância das habilidades emocionais entre homens e mulheres vem mudando lentamente e inclui o reconhecimento da relevância da empatia e das responsabilidades de cuidado, segundo Niall Hanlon, sociólogo da Universidade Tecnológica de Dublin (Irlanda).

    “De modo geral, os homens e os meninos são socializados para não enxergar o cuidado da mesma forma que as mulheres e as meninas, como se isso não fizesse parte da trajetória de ser homem”, afirma Hanlon. “Eles se imaginam como pais, mas não esperam ocupar uma posição principal de cuidado.”

    O esforço para redefinir os homens como mais cuidadosos e empáticos pode abrir caminho para um novo tipo de masculinidade que ajude a prevenir a solidão, diz Hanlon, da Universidade Tecnológica de Dublin — uma masculinidade que enfatize interdependência e a empatia, em vez de um modelo baseado em indivíduos autônomos centrados no poder.

    “Há muitas pesquisas que mostram que isso é muito melhor”, afirma Hanlon. “Para homens, mulheres e crianças.”

    Melissa Hogenboom é correspondente de saúde da BBC News e autora de Breadwinners (2025) e The Motherhood Complex (2021)



    Notícia publicada originalmente por BBC Brasil
    em nome do autor .

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