A recente declaração de Bruna Marquezine, que revelou estar passando por investigação para TDAH e autismo, trouxe à tona um debate que segue crescendo no país: o diagnóstico tardio de neurodivergências, especialmente entre mulheres adultas. A fala da atriz, feita no programa “Angélica ao Vivo”, repercutiu amplamente nas redes e ajudou a iluminar uma realidade silenciosa: milhares de brasileiros atravessam a infância, a adolescência e chegam à vida adulta sem qualquer avaliação adequada.
O tema ganha ainda mais relevância diante da sanção, pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva, da Lei 15.256/25, que amplia formalmente o diagnóstico do Transtorno do Espectro Autista (TEA) para adultos e idosos e passa a incluir diretrizes específicas de estímulo ao atendimento clínico desse público. A mudança corrige uma lacuna histórica: até então, a legislação brasileira não contemplava de forma clara a avaliação diagnóstica para quem chega à vida adulta com sinais não identificados.
Casos públicos, como o de Letícia Sabatella, diagnosticada apenas aos 52 anos, ilustram um cenário comum a muitos brasileiros. Assim como acontece com Bruna Marquezine, investigações tardias costumam emergir após décadas de tentativas de adaptação, desgaste emocional e interpretações equivocadas de comportamentos e características sensoriais.
Impactos diretos na vida profissional e na autonomia
Um quadro amplamente observado nas clínicas especializadas é a dificuldade enfrentada por adultos neurodivergentes no mercado de trabalho. Levantamento da Consultoria Maya, em parceria com a Universidade Corporativa Korú, revela que quase metade dos entrevistados nunca trabalhou com pessoas neurodivergentes, enquanto apenas 30% relataram experiências positivas. Apesar de 75% dos brasileiros afirmarem conhecer o termo “neurodiversidade”, grande parte ainda o faz de maneira superficial.
Segundo Geórgia Menezes, psicóloga, mestre e doutoranda em Psicologia pela UFPE e sócia do IAN – Instituto Harmonia e Neurodiversidade, compreender essas barreiras e ampliar o diagnóstico na idade adulta é fundamental para garantir direitos e favorecer trajetórias profissionais mais justas. “Esses adultos têm taxas de emprego muito inferiores à população geral e até mesmo a outros grupos com deficiência”, explica. “Apesar do desejo de trabalhar e do impacto positivo do emprego na qualidade de vida, muitos enfrentam obstáculos desde o processo seletivo até a progressão na carreira”, afirma.
Essas dificuldades, reforça Geórgia, também se estendem para além da vida profissional. A transição para a autonomia pode envolver desafios significativos em organização do tempo, planejamento financeiro, gestão da casa e autocuidado, afetando diretamente o bem-estar. Segundo ela, as barreiras não têm relação com falta de inteligência, mas com diferenças cognitivas e sensoriais que influenciam funções executivas. “Muitos adultos acabam relatando frustração, dependência familiar prolongada e barreiras para alcançar seus objetivos pessoais, o que reforça ciclos de baixa autoestima e isolamento social”, observa.
Avanço legislativo e apoio especializado
A nova lei sancionada pelo Presidente Lula estabelece diretrizes que estimulam a identificação e o acompanhamento clínico de adultos que chegam à vida madura sem diagnóstico, abrindo espaço para políticas públicas mais inclusivas. Para especialistas, medidas como essa dialogam diretamente com a realidade apontada pelo IAN, que defende estratégias práticas e apoio multiprofissional como pilares para autonomia e qualidade de vida.
Entre essas estratégias, destaca-se o uso de ferramentas tecnológicas, treinos de habilidades de vida diária, psicoterapia voltada à autogestão e redes de apoio envolvendo famílias, clínicas e ambientes de trabalho preparados. “O cuidado precisa ser multiprofissional e personalizado. Psicólogos, terapeutas ocupacionais, psiquiatras e educadores podem, juntos, construir ferramentas que favoreçam a autonomia, sempre em parceria com a própria pessoa atendida”, conclui Geórgia.
A repercussão envolvendo a atriz Bruna Marquezine reforça que a busca por respostas não é modismo, mas um processo essencial para que adultos compreendam seu próprio funcionamento e alcancem qualidade de vida. Somada ao avanço legislativo e ao fortalecimento de instituições especializadas como o IAN, a discussão marca um momento de virada no reconhecimento das necessidades dessa população. “Pela primeira vez, adultos que passaram a vida inteira sem diagnóstico começam a encontrar caminhos, legais, clínicos e sociais, para acessar apoio adequado, construir autonomia e viver com mais dignidade”, finaliza a psicóloga.Sobre o IAN – Inaugurado em 2025 no RioMar Trade Center, no Recife, o IAN é pioneiro no Brasil ao integrar clínica, pesquisa, educação e apoio à funcionalidade para adolescentes e jovens adultos neurodivergentes de Nível 1 de suporte, além de pessoas LGBTQIAPN+. Fundado por Geórgia Menezes e pela pediatra e psiquiatra Isla Queiroz, o instituto trabalha com abordagem transdisciplinar e atendimento clínico personalizado, reunindo profissionais neurotípicos e neurodivergentes em uma mesma equipe.
Notícia publicada originalmente por PE News
em nome do autor Céu Albuquerque.
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