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    Piauí

    Notícias de um velho mundo novo

    20 de março de 2026
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    Na tarde de 7 de novembro, no auditório do Instituto Arqueológico, Histórico e Geográfico de Pernambuco (IAHGP), no Centro do Recife, um ritual aguardado havia quase um século estava, enfim, prestes a acontecer.

    Em setembro de 1929, Naasson Figueiredo, um intelectual e articulista do jornal Diario de Pernambuco, criou uma mensagem para o futuro: um cilindro feito de folha de flandres (o mesmo material das latas de conserva), que só deveria ser aberto nos duzentos anos do jornal, que em 1925 havia celebrado seu centenário.

    A cápsula do tempo media cerca de 50 cm de altura e pesava aproximadamente 5 kg. Estava lacrada e permaneceu intacta esse tempo todo, exposta dentro de uma caixa de vidro no IAHGP.

    Desde que chegou ao prédio da Rua do Hospício, a cápsula mudou de sala apenas conforme as reordenações internas do museu. Saiu de lá uma única vez, em 2008, quando foi emprestada à Fundação Joaquim Nabuco, na capital pernambucana, e exibida por dois meses em uma mostra sobre os duzentos anos da imprensa brasileira. À piauí, o diretor da instituição George Cabral diz que ela sempre foi uma das peças que mais chamavam a atenção dos visitantes. “Era comum ouvir velhinhos comentando entre si: ‘Será que eu ainda vou estar vivo pra conseguir ver o que tem aí dentro?’” 

    O local onde a cerimônia de abertura da cápsula aconteceu era pequeno, e bastou um público de cerca de cinquenta pessoas para lotá-lo, com pesquisadores, autoridades locais e curiosos em geral. Na antessala, cerca de vinte pessoas acompanhavam por uma televisãozinha o momento.

    Por volta das quatro da tarde, o processo de abertura do artefato começou. Parecia cena de filme: quatro restauradores de uma empresa privada, contratada especialmente para a cerimônia, concentradíssimos, buscavam a melhor forma de romper o lacre do cilindro, rodeado por arames, com alicates. Usavam luvas e máscaras cirúrgicas. 

    Máscaras também foram distribuídas ao público, por precaução: temia-se que ali dentro pudessem ter sobrevivido bactérias, vírus ou fungos, preservados ao longo de um século. Ninguém queria virar notícia. “Se alguém se cortar com essa lata, pode ir encomendando o caixão”, um homem ponderou.

    Ao longo desses quase cem anos, era possível espiar apenas as inscrições cravadas no lado de fora do cilindro:

    ESTA LATA CONTEM A NOTICIA EXACTA DE TUDO QUANTO FEZ O DIARIO DE PERNAMBUCO PARA SOLENNISAR O SEU PRIMEIRO CENTENARIO EM 7 DE NOVEMBRO DE 1925. OFFERECIDO PELO SOCIO DESTE INSTITUTO NAASSON FIGUEREDO COM A CONDIÇAO DE SOMENTE SER ABERTA EM 7 DE NOVEMBRO DE 2025. 

    E assim foi feito.


    A estrutura de cedro que guardou a cápsula cilíndrica por um século

     

    O Diario de Pernambuco foi fundado por Antonino José de Miranda Falcão, um tipógrafo que havia trabalhado no Typhis Pernambucano, jornal vinculado a Frei Caneca durante a Confederação do Equador. O movimento separatista e republicano eclodiu em 1824 contra o centralismo imperial, defendendo maior autonomia para as províncias do Norte (antes do século XX não existia o que hoje conhecemos por Nordeste, o Brasil era dividido em Norte e Sul).

    Pernambuco, na época, dependia da produção e exportação de açúcar. A capital, ainda pouco urbanizada, dividia-se em apenas três grandes bairros: Recife, Boa Vista e Santo Antônio, separados pelo Rio Capibaribe e conectados por pontes.

    Engajado na causa republicana e ferrenho crítico ao imperador dom Pedro I, Miranda foi processado e chegou a ficar preso por alguns meses. Após resolver seus problemas na Justiça, decidiu fundar o próprio periódico, o Diario, que surgiu, primeiro, como uma única folha de anúncios variados, desde itens perdidos até leilões. 

    A primeira edição estampou 38 anúncios. Ao longo daquele ano, 43 números foram publicados. 

    Depois, o Diario passou a ser constituído de quatro páginas: a primeira repleta de comunicados oficiais de autoridades; a segunda contendo as despesas econômicas da província; e a terceira e quarta de avisos particulares, incluindo compra e venda de pessoas escravizadas, como detalha a tese de mestrado Os Escravizados nos anúncios do Diario de Pernambuco: fugas, lutas e resistência, Recife 1830-1839, do historiador André José do Nascimento.

    Outros pesquisadores apontam uma outra curiosidade: a possibilidade de que a prensa adquirida por Miranda para iniciar o jornal tenha sido a mesma usada na impressão dos panfletos libertários da Confederação do Equador. À época, existiam poucas máquinas desse tipo no Brasil, e conseguir uma era tarefa quase impossível.

    No sábado, 7 de novembro de 1925, o Diario chegou às bancas com pompa rara: uma edição de sessenta páginas dedicada ao seu primeiro centenário. Vendido a 400 réis, o exemplar número 259 daquele ano trazia na capa um desenho do pintor Manoel Bandeira (seu homônimo, o poeta, assinava com U) e um recado solene, impresso como homenagem pública aos jornalistas e colaboradores que sustentaram o jornal ao longo de um século:

    Aos que se foram
    Reconhecimento
    Saudade
    … e sejam os vindouros
    dignos delles.

    O clima da edição era de exaltação cívica. Um editorial inflamado, intitulado Pela unidade do Brasil, defendia a integração nacional e criticava a precariedade das comunicações e da educação. Perguntava, em tom de cobrança: “Filhos do Norte, filhos do Sul, gente da cidade, gente do interior — como diversificamos? Como parecemos estranhos ainda?” O texto ecoava um sentimento de um país que tentava se costurar, à força, em um projeto unificado (passados outros cem anos, conseguimos?).

    A edição registrava felicitações de autoridades. Entre elas, a mensagem do presidente Artur Bernardes (1922-26), enviada do Rio de Janeiro, então capital federal: “Com muita satisfação me associo ao júbilo do Diario de Pernambuco, desejando-lhe prosperidade para continuar a prestar os mais brilhantes serviços à cultura do país.”

    Também estampou votos de parabéns de chefes de Estado de mais de vinte nações (entre elas, Alemanha, Inglaterra, Portugal, Estados Unidos) e de figuras como Lawrence Lowell, reitor da Universidade Harvard, que escreveu sentir prazer em saudar “um jornal que tanto tem feito para clarificar a opinião no Norte do Brasil”. Trouxe ainda, na parte das notícias internacionais, o progresso da indústria elétrica na “ilha de Cuba” e a crescente ocupação das Américas pelos judeus.

    Os festejos oficiais, que aconteceriam naquele dia, foram descritos em detalhes. Haveria um almoço íntimo no terraço da sede do jornal, preparado pelo “artista culinário Sr. Pereira Rego”, e, mais tarde, às oito da noite, um “chá dansante” (na grafia da época, com s) em homenagem “à juventude estudiosa do Recife”, com convites distribuídos aos institutos de ensino.

    A edição também desenhava um retrato vivo de Pernambuco daqueles tempos. Um levantamento do Departamento de Saúde e Assistência calculava que o Recife, a capital, abrigava 355.871 habitantes, espalhados por 51.936 casas. Uma reportagem analisava a safra de algodão do biênio 1924-1925, apontando Correntes, no Agreste, como um dos principais produtores (hoje a cidade é conhecida como a Terra da Batata) — e alertando para o impacto da seca: “A colheita do algodão deu este ano muito baixo rendimento por alqueire.” 

    O jornal também registrava dificuldades do setor em São Paulo, “ameaçado de desaparecer em parte”. Um mapa industrial detalhava ainda outros motores econômicos do estado: usinas de “assucar” (na grafia da época), fábricas de tecidos e linhas férreas. 

    Páginas inteiras exibiam leilões, obituários e um fascínio precoce pela tecnologia: uma reportagem trazia detalhes sobre a radioeletricidade explicando o funcionamento de cada uma das peças e circuitos de energia.

    Nas centenas de anúncios espalhados pelo caderno especial, conviviam universos distintos (de pneus de borracha a marcas de cerveja). Havia ainda remédios populares, como a Camomilina, “para a dentição das crianças”, e luxos importados, como os sapatos Fox, destinados aos “cavalheiros desejosos de um bom calçado elegante e confortável”. Para a “saúde das senhoras”, a promessa de medicamentos que garantiam “regularizar a menstruação e suprimir cólicas e dores”.

     

    Em seus primeiros cem anos, o jornal testemunhou a ascensão e queda do Segundo Reinado, a abolição da escravidão, a implantação da República.

    Quando o jornal assoprou as velas do primeiro centenário, tinha pela frente mais cem anos de notícias. Muitos dos nomes que as protagonizaram ainda não haviam nem nascido: Che Guevara, a rainha Elizabeth II, Martin Luther King, Ariano Suassuna, Anne Frank, Pelé, Chico Anysio, Dominguinhos e nenhum dos Beatles e dos Rolling Stones. 

    Entre as descobertas que ainda seriam feitas estavam a penicilina, a bomba atômica e o motor a jato. As casas ainda não tinham televisão e lâmpadas fluorescentes.

    Havia muito para noticiar (e muita disposição, a julgar pela intenção da cápsula). Nem tudo envelheceu bem. Assim como fez grande parte da mídia hegemônica da época, o jornal endossou explicitamente em sua linha editorial o golpe de 1964. “Forças militares de Minas rebelaram-se contra João Goulart”, anunciou a manchete do fatídico 1º de abril. No texto, os acontecimentos foram narrados em tom heroico. 

    As jornalistas Mareu Araújo e Nicolle Gomes, no caderno comemorativo publicado nos duzentos anos, calculam que, em aproximadamente 63 mil manchetes, o Diario já viu dois imperadores, cinco regentes e 37 presidentes. Que noticiou quatro pandemias e as duas grandes guerras mundiais. 

    Em 1975, durante as celebrações pelos 150 anos do veículo, Gilberto Freyre, um dos mais longevos colaboradores do jornal (escreveu por quase sete décadas no periódico), sintetizou essa dimensão histórica: “O Diario vem sendo mais historiador do Brasil do que os historiadores literais.”

    Em novembro de 2024, o acervo do jornal foi reconhecido como patrimônio cultural material do Brasil.

     

    O periódico também atravessou diferentes administrações ao longo desses duzentos anos – hoje, é o mais antigo em circulação na América Latina. Em texto publicado no Jornal Digital, o jornalista Emannuel Bento lembra que o jornal já mudou de endereço onze vezes desde a sua fundação. Empresa privada mais antiga em funcionamento no Brasil, a primeira sede foi na Rua Direita, bairro de São José, Centro do Recife, onde hoje funciona um comércio popular.

    Depois passou por outras localizações até que, em 1901, com a venda do jornal para Francisco de Assis Rosa e Silva (senador, governador e vice-presidente da República), a redação se estabeleceu na Praça da Independência, permanecendo ali até julho de 2004, maior período no mesmo endereço (a praça hoje é popularmente conhecida como Praça do Diário).

    Nesse meio-tempo, em 1931, o Diario foi adquirido pelo empresário Assis Chateaubriand e incorporado ao conglomerado Diários Associados, que deteve a maior parte das ações do veículo até 2015, quando o acionista majoritário passou a ser o Sistema Opinião de Comunicação, da família Pinheiro – os mesmos proprietários do Grupo Hapvida.

    A administração, porém, durou pouco. Em outubro do mesmo ano, os irmãos Maurício e Alexandre Rands, do Grupo R2, conhecidos no cenário político pernambucano, assumiram o comando. Quatro anos depois, em setembro de 2019, o Grupo R2 vendeu o jornal, juntamente com o periódico Aqui PE (que parou de circular em maio de 2020) e as rádios Clube FM e Rádio Clube, para o advogado e empresário Carlos Frederico de Albuquerque Vital, atual gestor.

    Na época da compra, Carlos Vital explicou em entrevista à Marco Zero Conteúdo que sua decisão de assumir o jornal tinha dois motivos: a admiração de seu pai por Assis Chateaubriand e o desejo pessoal de participar mais intensamente da vida política e social do estado e do país.

    Sua experiência em empresas jornalísticas até então passava por uma locadora, um estacionamento, uma distribuidora de água e o conselho de um time de futebol, o Sport Club do Recife. 

    Durante o evento de abertura da cápsula do tempo, Vital, com 64 anos, declarou à piauí que aquele representava “o grande momento” de sua vida profissional. E acrescentou: “Ainda mais depois de adquirir um jornal cheio de broncas.” Em seguida, jogou panos quentes: “Mas tenho certeza de que vamos resolver todas elas. Se cheguei até aqui, não vai ser isso que vai atrapalhar.” 

    O cenário, porém, é mais complexo do que sugere o entusiasmo do empresário.

    Na Justiça do Trabalho, o Diario de Pernambuco acumula mais de 40 milhões de reais em dívidas trabalhistas. O não pagamento levou o Tribunal Regional do Trabalho (TRT-6) a incluir o caso, em novembro de 2024, no Regime Especial de Execução Forçada (REEF), um mecanismo destinado a concentrar as ações de grandes devedores e acelerar a quitação dos valores. 

    Mais de trezentos ex-funcionários ingressaram com processos alegando salários, FGTS, verbas rescisórias e INSS atrasados. 

    Entre os que aguardam o pagamento está Anamaria Nascimento, que trabalhou no jornal de 2009 a 2021. Ela entrou como estagiária de Jornalismo do Aqui PE e foi efetivada como repórter do caderno de Vida Urbana do Diario, que à época tinha a maior estrutura da redação com dezesseis jornalistas (entre estagiários, pauteiro, repórteres júnior, pleno, sênior, especial e editores). 

    O Diario era, para Anamaria, o sonho profissional. A estrutura interna era boa, conta: salário inicial acima da média do mercado (começou ganhando 5 mil reais em 2011), jornada de sete horas diárias (embora, na prática, trabalhasse nove, com pagamento de “duas horas extras fixas”), plano de saúde e odontológico. 

    Os atrasos salariais começaram a ser mais frequentes a partir de 2015, após a empresa ser vendida para o Grupo R2, ela diz. Poucos meses depois da nova gestão assumir, veio um primeiro corte na sua editoria: quase todo o time doVida Urbana foi demitido, incluindo o editor recém-contratado. “Alguns estavam na rua apurando quando receberam a ligação. Foi um processo muito desrespeitoso”, conta. Até 2021, ela lembra de pelo menos cinco grandes cortes — “às vezes mais de um por ano”. 

    O pagamento, até então, era feito por quinzena: 60% do salário era depositado no quinto dia útil e os outros 40% no dia 20. Depois, passou a ser feito em pedaços ainda menores: “Às vezes eles só pagavam 20% dos 60% da primeira quinzena. Depois caíam duzentos reais, quinhentos, que diziam ser 10% da segunda quinzena. Até que chegou num ponto que a gente não sabia mais o que estava recebendo”, recorda.

    O FGTS parou de ser depositado em 2016 e nunca foi regularizado. Daí em diante, o cenário só piorou: viagens para pautas cortadas, 13º não pago, novas contratações apenas por PJ, mudanças constantes de endereços.

    No início da pandemia, em 2020 — já sob a administração atual, da família Vital — veio redução de jornada e salário (medida provisória emergencial autorizada pelo Governo Federal), seguida de mais atrasos. Anamaria tornou-se a repórter mais experiente do Vida Urbana. Foi transferida para Economia e, em fevereiro de 2021, pediu demissão: aderindo a um desligamento voluntário para antigos funcionários que oferecia o pagamento do FGTS depositado antes de 2016. Anamaria havia usado o dinheiro para dar entrada em um apartamento. Saiu do jornal sem receber nada.

     

    Depois disso, decidiu parar de trabalhar na imprensa: assumiu um emprego na comunicação de um escritório de advocacia e passou a integrar o grupo de WhatsApp “Diário da Esperança”, criado por ex-funcionários para pressionar publicamente o jornal pelo pagamento das dívidas trabalhistas. O grupo reúne cerca de oitenta ex-colaboradores de períodos distintos que organizam ações simbólicas e articulações judiciais.

    Foi ali que surgiu a mobilização para um ato no aniversário de duzentos anos do Diario, em frente ao Teatro Santa Isabel. 

    Com cartazes na mão, ex-funcionários expuseram o que chamaram de “a verdadeira cápsula do tempo”: anos de atrasos salariais e direitos não pagos. Em um deles, lia-se a denúncia de quinze salários atrasados e cinco anos de FGTS sem recolhimento. Em outro, o desabafo: “A dor da gente não sai nos jornais.”

    Do lado de dentro do teatro, o presidente do TRT-6, desembargador Ruy Salathiel, recebia no palco da festa para setecentas pessoas uma homenagem das mãos do presidente do Diario, Carlos Vital, e do seu filho, Diogo. O evento teve subsídio de 200 mil reais do Governo de Pernambuco e patrocínio de grandes empresas privadas. Entre os convidados, o prefeito João Campos (PSB) e a governadora Raquel Lyra (PSD). Houve ainda um coquetel no jardim externo e show do cantor Lenine.

    Na manhã seguinte, o Sindicato dos Jornalistas Profissionais de Pernambuco (Sinjope) soltou uma nota de repúdio à festa. No texto, denunciou que a redação atual do Diario opera majoritariamente com profissionais contratados como MEIs, sem direito a férias, 13º salário ou horas extras, classificando o modelo como “desrespeito e ameaça à dignidade da prática jornalística”. Afirmou ainda que, sem justiça trabalhista, “continuaremos vendo banquetes e espetáculos para convidados, enquanto os responsáveis por esses duzentos anos seguem com migalhas e exclusão”.

    Depois da publicação da edição comemorativa dos duzentos anos, o Sindicato entrou com uma nova petição na Justiça pedindo o bloqueio do valor arrecadado com os anúncios feitos pelos cerca de setenta patrocinadores. A medida buscava acelerar o pagamento das dívidas trabalhistas: a Justiça já havia determinado a venda dos imóveis registrados em nome do Diario que iriam a leilão para quitar os débitos, mas o Sindicato argumenta que esse trâmite “não é algo rápido e simples” e que o jornal estaria “criando obstáculos para a conclusão das transações”.

    Em resposta à piauí, o Diario de Pernambuco atribuiu os problemas trabalhistas às gestões anteriores. Afirmou que herdou “um número excessivo” de execuções na Justiça do Trabalho, “muitas delas movidas não por ex-colaboradores seus, mas por ex-funcionários de empresas anteriores”. 

    Explicou que a decisão de reunir as execuções em um processo piloto foi do TRT-6 como forma de “otimizar a distribuição de valores de forma mais equitativa entre os credores, com a unificação dos atos executórios, evitando que alguns recebam antes de outros”. 

    E disse ainda que realiza todos os esforços necessários para manter a viabilidade da instituição, que tem “sólido patrimônio imaterial e material”. Sobre a festa do bicentenário, afirmou que a comemoração foi até “modesta” em comparação ao feito histórico e que seria “inadequado e autoritário” impedir a realização de uma homenagem ao jornal numa época de “grave crise da imprensa em razão da revolução digital”. 

    A respeito da presença do presidente do Tribunal na festa dos duzentos anos em meio ao imbróglio judicial, o TRT-6 preferiu não se manifestar. Em nota à piauí, limitou-se a informar que acordos estão sendo realizados com valores de bloqueios e de saldos transferidos pelas Varas do Trabalho, que bens do Diario já foram penhorados (sem especificar quais ou o valor de mercado estimado levantado) e que os procedimentos de alienação judicial para a quitação das dívidas seguem em andamento.

    A redação do Diario funciona atualmente no galpão que abrigava a antiga gráfica do jornal, no bairro de Santo Amaro, onde trabalham cerca de quarenta jornalistas e sete estagiários. Em seu site, o veículo se apresenta como líder entre os jornais do estado, com mais de 400 mil acessos diários em seu novo portal, lançado em maio. Conta ter alcançado em outubro a marca de 8,5 milhões de pageviews. No Instagram, tem 1,6 milhão de seguidores.

    O jornal afirma que em 2025 promoveu um aumento do time de jornalistas (não disse quantos), distribuídos em diferentes editorias (não disse quais), e a criação de um núcleo de reportagens especiais. Afirma estar “otimista com os resultados para os próximos meses” e que irá “apostar no crescimento digital com o lançamento de outros produtos e formatos” em breve. Sobre o impresso, assegura não ter planos de interrompê-lo. 

    Sobre a previsão de um possível retorno à contratação CLT ou a formalização dos atuais colaboradores, a empresa preferiu não se manifestar. Anunciou outras novidades: está estudando como fazer uma nova cápsula do tempo, inspirada na de Naasson Figueiredo, que dê conta de registrar o espírito dos dias atuais. A data prevista para abertura e o conteúdo que será guardado não foram informados.

     

    Depois de todas as voltas que o mundo deu nos últimos cem anos, o clima no dia da abertura da cápsula era de especulações. Que mensagens a redação de cem anos atrás havia enviado a seus sucessores distantes?

    A piauí estava lá, e corrobora a descrição feita pelo site do próprio Diario:

    A peça que armazenava os itens centenários, feita de madeira de cedro, foi aberta em três etapas. A primeira consistiu na retirada dos parafusos, que não eram manipulados havia cem anos. Em seguida, a tampa foi removida; até então, não se sabia se ela estava fechada por rosca, lacre ou encaixe.

    Por fim, os arames que envolviam a estrutura foram cortados, revelando os objetos. Como não havia espaço suficiente para retirar os itens, foi necessário abrir a cápsula ao meio com um abridor de lata. (…) O público acompanhou o momento com entusiasmo e a redescoberta dos itens, marcados pelo tempo, foi recebida com aplausos”

    Quando a cápsula foi aberta, viu-se um rolo espesso da papelada. E aí veio um momento de frustração: não seria possível desembrulhar o presente por completo. As folhas deveriam ser desenroladas com calma, para depois ficarem expostas ao público. Isso só aconteceu uma semana depois.

    Após análise minuciosa dos materiais, o Instituto divulgou o que estava guardado na cápsula: havia ali treze exemplares originais do próprio DP, publicados entre 1922 e 1925, além de edições de outros jornais que circularam na mesma data: A Província, A Serra, A Rua, A Notícia, Diário do Estado, Jornal do Comércio e Jornal Pequeno.

    Continha ainda oito revistas, entre elas, A Ocasião (1925), a Revista da Cidade (sem data) e a estrangeira Espanha América (1928). 

    Mais: objetos comemorativos: dois cartazes “DP Cem Anos”, três convites para o almoço oficial do centenário, um Boletim Bibliográfico 1825/1925, 26 selos comemorativos, uma caneta na qual se lê “Lembrança do DP”, um abridor de cartas e um postal com fotografia da sede do jornal.

    Por fim, o mais interessante de todo o material: uma carta de onze páginas escrita à mão pelo próprio Naasson.

    Um trecho, em particular, chamou atenção: 

    A epoca atual é das mil maravilhas – impossivel que outras novidades existam em 2025. Já hontem, de volta do Japão, num só voo, chegou um Zepellin aos Estados Unidos. 

    Procurem do Diario de Pernambuco de 1925 por diante os meus artigos, alguns interessantes. Por elles verão muita coisa do actual progresso. 

    Dizer, portanto, da grandeza do século em que ora vivemos, não comportaria aqui a mais volumosa das obras de que ha noticia. Seria a maior das Historias. Consultem os jornais e verão do nosso progresso. 

    A cidade progride dia a dia. Já agora difficil é identificar-se um local de ha lo annos atraz! Imagine agora identificar-se um a epoca dos holladezes!!!

    Naasson prosseguia falando sobre sua carreira, seu casamento e sua família. Mencionava ainda os livros sobre a história de Pernambuco que havia escrito e desejava ver publicados postumamente — documentos que hoje estão sob guarda do Instituto e que, segundo a direção, devem ser lançados um dia.

    Encerrava a carta dizendo: 

    Tudo isto que aqui escrevi, e ás pressas, vale apenas para os de amanha – 2025 – identificarem quem os legou o que fez o Diario de Pernambuco para solemnisar o seu primeiro Centenario.

    Em outra lata, igual a esta, que deixo ao meu Galileu, em minha morte, tenho coisas interessantes sobre Pernambuco. Espero que elle, por minha morte e sua velhice, legue-a ao Instituto. 

    Adeus. Resem por mim. 

    E que sejam felizes. 

    Naasson Figuerêdo 

    28 de agosto de 1929

    A letra bonita de Naasson faz merecer a leitura na íntegra:

    A carta de Naasson Figuerêdo


    A carta de Naasson Figuerêdo

    A carta de Naasson Figuerêdo


    A carta de Naasson Figuerêdo

    A cápsula guardava ainda fotografias em preto e branco já amareladas do tempo: imagens do prédio do jornal e da própria família de Naasson Figuerêdo, todos posando diante da câmera. Tudo se manteve surpreendentemente preservado e segue, agora, exposto no mesmo Instituto, fazendo valer a vontade de Naasson.


    Edições de jornais, fotos, uma carta e canetas que recheavam o cilindro

     

    A abertura da cápsula aconteceu no dia em que o Diario de Pernambuco completou duzentos anos, como ele próprio também havia determinado. Embora o objeto não tenha sido depositado em nome do jornal — Naasson o registrou como pessoa física —, a cerimônia reuniu figuras ligadas ao veículo: o presidente Carlos Frederico de Albuquerque Vital; seu filho e superintendente, Diogo Vital; a então diretora de Jornalismo, Paula Losada; o diretor de Redação, Ricardo Novelino; além de editores e repórteres que acompanharam de perto o momento. O próprio Diario fez uma cobertura extensa do evento. 

    Para marcar a data histórica, o jornal publicou uma edição comemorativa de 47 páginas, com um caderno especial repleto de reportagens que revisitam sua trajetória bicentenária. As pautas percorreram diferentes episódios da memória nacional, mas também local: entre eles, a ascensão e queda de Lampião e o primeiro registro do termo “frévo” (que foi inventado por um jornalista e deu origem ao nome do ritmo).

    Segundo uma das editoras, as matérias foram distribuídas de forma que toda a redação atual pudesse aparecer na edição. O prazo para a entrega dos textos foi de duas semanas. Na reta final, o trabalho avançou madrugada adentro: houve dias em que repórteres e editores deixaram o prédio por volta das duas da manhã.

    Também foi lançado um livro assinado por Ennio Benning, ex-colaborador do jornal (entre 1990 e 1998), que percorre, em formato de linha do tempo, todas as fases do Diario: começa em novembro de 1825 com a fundação do periódico e termina em maio de 2025, com a premiação do cineasta pernambucano Kleber Mendonça Filho em Cannes, como melhor direção pelo filme O Agente Secreto, que fala sobre memória e esquecimento.





    Notícia publicada originalmente por revista piauí
    em nome do autor daniel.bergamasco.

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