Dácio Galvão
Mestre em Literatura Comparada, doutor em Literatura e Memória Cultural/UFRN e diretor da Fundação Cultural Helio Galvão
Na Quarta-Feira de Cinzas só me rendi ao frevo composto pelo pianista André Mehmari. O músico compositor e arranjador participante de festivais internacionais no padrão Umbria Jazz -referência italiana para o mundo- oferecendo dias de blues, jazz e fusões de gêneros. O frevo de Mehmari no piano e percussão mais a voz da Ná Ozzetti cantando “Symmy”, o poema de Câmara Cascudo. Assim grafado quando enviou para o jornalista Joaquim Inojosa, estimulador do movimento modernista no Nordeste. A cantora Ozzetti estrelou na interpretação de “Canto Em Qualquer Canto”. Daí disparou a composição parceira junto a voz maior do rotulado movimento musical “Vanguarda Paulista”, Itamar Assumpção. Participou do Grupo Rumo e… dupla dispensada de comentários.
O escritor potiguar cotejou a poética na sua escrita e na vida social. Procurou apreendê-la nos ensaios literários, na edição de livros -como o de Jorge Fernandes, Lourival Açucena…- e na articulação por correspondência com escritores -Carlos Drumond de Andrade, Ribeiro Couto…- e no próprio fazer produtivo. O exercício reiterado e o tema da modernidade iniciado na década de 1920 nele permaneceu ao longo dos conturbados anos de 1940, quando fez pioneira operação tradutora de três poemas do estadunidense Walt Whitman, autor de recepção dentre as nomeadas vanguardas históricas. Os textos whitmanianos decodificavam aspectos antecipadores de novas estéticas contemporâneas. No bojo desses embalos literários surgiu o poema ‘Symmy’ cuja temática entre tantas metáforas traz o ofídio “Cascavel” a dançar e frevar sob a égide ambiental de sertões:”Inda vibra, mexe e bole / o corpo anegrado e mole / Sustém o compasso enfim / Cede a cadência da dança / Pára o chocalho, descansa / E tudo cessa por fim”. A luta poética no ‘Symmy’ tem fulcro nativista e de batalhas de culturas. Dialoga com a música-dança estrangeira, signo de investida da dominação cultural, tendo na contraposição o cenário, ingredientes e personagens brasílicos: cobra cascavel, sol, besouro, maracá…
O leitor se defronta na atitude metalinguística: …o maracá que reboa / E tudo dança no pó / Alonga a beleza tôsca / Da pele que vai e enrosca / E fica tremendo só”. A víbora-fantasia evolui na desenvoltura feroz, erótica e sagaz, esbanjando trejeitos sensuais, tal qual passista. Na estilização cascudiana do ofídio pode ser paradigma da étnica música-dança urbana, Shimmy. Modalidade de coloração afro-americana tendo atingido boa difusão nos anos 20 do século passado associada à dinâmica corporal. Contudo, no escrito a dança é clarificada sob temperatura tropical extenuante onde “o sol lhe bate de chapa”. Na abertura, o título causa estranhamento multiplicando a semântica.
Sem novo hit na edição do Carnaval-2026, é ouvir “Symmy” nas plataformas de áudio mesclando sambas-enredos preferenciais. Neste carnaval, André Memhari recebeu em casa na intimidade musical o maestro saxofonista Roberto Sion! Agor é aderir a Quaresma e… se purificar.
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Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
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