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    Início » Guerra da Ucrânia: a mulher que recruta estrangeiros para lutar no Exército russo
    Brasil

    Guerra da Ucrânia: a mulher que recruta estrangeiros para lutar no Exército russo

    18 de janeiro de 2026
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    Polina Azarnykh, sorrindo de pé, vestindo um longo casaco preto e botas pretas ao lado de homens usando jeans, calçados casuais e jaquetas. Seus rostos foram borrados para proteger suas identidades. Eles mostram documentos de viagem russos.

    Crédito, Telegram

    Legenda da foto, Polina Azarnykh posta com frequência imagens suas com novos recrutas, incluindo o grupo sírio que acompanhava Omar em viagem
    Article Information

      • Author, Nawal Al-Maghafi,
      • Role, Repórter investigativo internacional, BBC News,
      • Author, Sheida Kiran,
      • Role, BBC Eye Investigations
    • Há 29 minutos

    • Tempo de leitura: 11 min

    Chamas atingem a borda do passaporte de Omar. “Está queimando bem”, diz, em russo, a voz de uma mulher no vídeo.

    Omar é um profissional da construção civil sírio de 26 anos de idade. Ele estava destacado há nove meses na linha de frente da guerra da Rússia na Ucrânia, quando recebeu o vídeo no seu telefone celular.

    Ele reconheceu a voz da mulher. O nome dela é Polina Alexandrovna Azarnykh.

    Segundo ele, Azarnykh o ajudou a se alistar para combater pela Rússia, com a promessa de um trabalho lucrativo e de obter cidadania russa. Mas, agora, ela está irritada.

    Omar é um pseudônimo criado por motivos de segurança. Em uma série de mensagens de voz enviadas da Ucrânia, ele descreve como acabou apavorado e sem saída na zona de guerra.

    Ele conta que Azarnykh prometeu que, se ele pagasse a ela US$ 3 mil (cerca de R$ 16,1 mil), ela garantiria que ele ficasse fora de combate.

    Mas Omar afirma que foi enviado para batalha com apenas 10 dias de treinamento. Por isso, ele se recusou a pagar e ela respondeu queimando seu passaporte.

    Omar conta que tentou se recusar a fazer parte da missão, mas seus comandantes ameaçaram matá-lo ou levá-lo para a cadeia.

    “Fomos enganados… esta mulher é mentirosa e vigarista”, afirma ele.

    A investigação

    Uma investigação da BBC acompanhou como a ex-professora Azarnykh, de 40 anos, usa um canal no Telegram para atrair homens jovens, muitas vezes de países pobres, para as Forças Armadas russas.

    As mensagens de vídeo da ex-professora sorrindo e suas postagens otimistas oferecem “contratos de um ano” por “serviço militar”.

    O Serviço Mundial da BBC identificou cerca de 500 casos em que ela forneceu documentos, indicados como convites, que permitem ao seu portador viajar até a Rússia para entrar nas Forças Armadas.

    Eles foram emitidos para homens, principalmente da Síria, Egito e Iêmen. Aparentemente, eles enviaram os dados dos seus passaportes para se alistar.

    Mas os recrutas e seus parentes contaram à BBC que ela os fez acreditar que não entrariam em combate. Azarnykh não esclareceu que eles só poderiam sair depois de um ano e ameaçou aqueles que a questionaram.

    Em contato com a BBC, ela rejeitou as acusações. Mas 12 famílias nos contaram sobre jovens que, segundo elas, foram recrutadas por Azarnykh e, agora, estão mortos ou desaparecidos.

    Polina Azarnykh olha de frente para a câmera, sentada em um veículo. Ela tem longos cabelos loiros, usa óculos de sol e está sorrindo.

    Crédito, Telegram

    Legenda da foto, Azarnykh posta frequentemente vídeos de si própria, incentivando as pessoas a se alistar nas Forças Armadas russas

    Internamente, a Rússia ampliou o alistamento militar. O país recrutou prisioneiros e ofereceu bônus de alistamento cada vez mais generosos, para manter suas operações na Ucrânia, apesar das perdas substanciais.

    Mais de um milhão de soldados russos foram mortos ou feridos, desde o início da invasão em 2022. Apenas em dezembro de 2025, houve 25 mil mortos, segundo a Otan.

    Uma pesquisa realizada pela BBC News Rússia, com base em obituários e outros registros públicos de mortes, indica que, no ano passado, as perdas de soldados russos na Ucrânia aumentaram no maior ritmo já registrado desde o início da guerra.

    É difícil calcular quantos estrangeiros se alistaram nas Forças Armadas da Rússia.

    A análise da BBC News Rússia examinou também a quantidade de estrangeiros mortos e feridos nos combates. Ela indica que pelo menos 20 mil estrangeiros podem ter se alistado, de países que incluem Cuba, Nepal e Coreia do Norte.

    A Ucrânia também sofreu perdas significativas de soldados e também recebeu combatentes estrangeiros nas suas fileiras.

    ‘Corpos por toda parte’

    O primeiro contato de Omar com Azarnykh ocorreu em março de 2024, quando ele estava quase sem dinheiro com outros 14 cidadãos sírios, em um aeroporto da capital russa, Moscou.

    A Síria tem poucos empregos e os salários são baixos. Omar conta que um recrutador no seu país ofereceu aos homens o que eles entenderam ser um trabalho civil, protegendo instalações de petróleo na Rússia. Eles viajaram para Moscou e só então perceberam que se tratava de um golpe.

    Ao buscar opções na internet, Omar conta que uma pessoa do grupo encontrou o canal de Azarnykh e enviou uma mensagem para ela.

    Ela se encontrou com eles no aeroporto em questão de horas e os levou de trem até um centro de recrutamento em Bryansk, no oeste da Rússia, segundo ele.

    Omar afirma que, ali, ela ofereceu a eles contratos de um ano com o exército russo, com salário mensal equivalente a cerca de US$ 2,5 mil (cerca de R$ 13,4 mil) e um bônus de US$ 5 mil (cerca de R$ 26,9 mil) na assinatura do contrato. Na Síria, só era possível conseguir estes valores em sonho.

    Ele conta que os contratos estavam em russo e nenhum dos homens sírios conhecia o idioma.

    Azarnykh tomou seus passaportes, prometendo obter a cidadania russa. E também prometeu que eles poderiam evitar participação em combates, se pagassem a ela US$ 3 mil (cerca de R$ 16,1 mil) cada um, dos seus bônus pagos na assinatura do contrato, segundo Omar.

    Uma grande explosão com chamas brancas e laranja sai de um tanque ucraniano, disparando contra posições russas em um cenário coberto de neve na região de Donetsk, em janeiro de 2024

    Crédito, Roman Chop/Global Images Ukraine via Getty Images

    Legenda da foto, Omar descreveu combates ferozes e frequentes explosões na linha de frente

    Mas ele conta que, cerca de um mês depois, ele estava na linha de frente, com apenas 10 dias de treinamento e nenhuma experiência militar.

    “Vamos todos morrer aqui”, afirma ele, em uma de suas mensagens de voz enviadas para a equipe investigativa da BBC.

    “Muitos ferimentos, muitas explosões, muitos bombardeios”, conta ele, em maio de 2024. “Se você não morrer com a explosão, morrerá com o impacto dos destroços.”

    “Corpos por toda parte… Pisei nos mortos, Deus me perdoe”, prossegue Omar, no mês seguinte.

    “Se alguém morre, eles colocam em um saco de lixo e atiram ao lado de uma árvore. Vi com meus próprios olhos.”

    Depois de cerca de um ano, Omar descobriu o que, segundo ele, Azarnykh não havia explicado. Um decreto russo de 2022 basicamente permite que as Forças Armadas renovem automaticamente os contratos dos soldados até o fim da guerra.

    “Se eles renovarem o contrato, estarei em apuros”, exclama ele. “Oh, meu Deus!”

    E o seu contrato foi renovado.

    Recrutado na universidade

    O canal de Azarnykh no Telegram tem 21 mil seguidores. Suas postagens costumam dizer aos leitores que desejam se alistar nas Forças Armadas russas para que enviem uma cópia do seu passaporte.

    Em seguida, ela posta documentos de convite, às vezes com uma lista de nomes das pessoas envolvidas.

    A BBC identificou mais de 490 desses convites, enviados por Azarnykh no ano passado. Eles se destinavam a homens de países como Iêmen, Síria, Egito, Marrocos, Iraque, Costa do Marfim e Nigéria.

    Suas postagens mencionaram o recrutamento de um “batalhão internacional de elite” e esclarecia que pessoas que moravam na Rússia ilegalmente poderiam se inscrever, mesmo que seus vistos estivessem vencidos.

    A BBC conversou com oito combatentes estrangeiros recrutados por Azarnykh, incluindo Omar. Também falamos com as famílias dos 12 homens desaparecidos ou mortos.

    Muitos acreditam que Azarnykh tenha enganado ou explorado os recrutas.

    Eles nos disseram que os homens sabiam que estavam se alistando nas Forças Armadas, mas não esperavam servir na linha de frente. Vários deles, como Omar, acreditam que seu treinamento foi inadequado ou pensavam que poderiam sair depois de um ano.

    No Egito, Yousef (nome fictício) contou à BBC que, em 2022, seu irmão mais velho, Mohammed, começou um curso universitário, na cidade russa de Ecaterimburgo, na divisa entre a Europa e a Ásia.

    Mas ele tinha dificuldade para pagar suas mensalidades, segundo Yousef, e contou à família que uma mulher russa chamada Polina havia começado a oferecer ajuda na internet. Esse auxílio incluía um emprego nas Forças Armadas russas que, segundo Mohammed, permitiria que ele continuasse seus estudos.

    “Ela prometeu moradia, cidadania, despesas mensais”, conta Yousef. Mas, “de repente, ele foi mandado para a Ucrânia e começou a lutar.”

    Sua última ligação ocorreu em 24 de janeiro de 2024, segundo Yousef. E, cerca de um ano depois, ele conta ter recebido uma mensagem de um número da Rússia pelo Telegram, contendo imagens do corpo de Mohammed.

    A família ficou sabendo que ele havia sido morto quase um ano antes da mensagem.

    ‘Alguns perderam o juízo’

    Azarnykh se tornou “uma das mais importantes recrutadoras” do Exército russo, segundo Habib, outro cidadão sírio que serviu nas forças armadas da Rússia.

    Ele se dispôs a ser filmado, mas falou sob pseudônimo, por medo das repercussões.

    Habib conta que ele e Azarnykh “trabalharam juntos por cerca de três anos com convites de visto para a Rússia”.

    Ele não ofereceu detalhes e a BBC não conseguiu confirmar sua participação no processo. Uma imagem publicada em 2024 nas redes sociais mostra Habib ao lado dela.

    Azarnykh é da região de Voronezh, no sudoeste da Rússia. Ela administrou um grupo no Facebook que ajudava estudantes árabes a ir estudar em Moscou, até abrir seu canal no Telegram, em 2024.

    Habib de blusa branca, fala para a câmera contra um fundo escuro. Ele tem barba escura e bigode.
    Legenda da foto, ‘Polina recrutava os homens sabendo que eles iriam morrer’, conta Habib à BBC

    Habib conta que a maior parte dos recrutas estrangeiros chegava esperando trabalhar na segurança de instalações ou em postos de controle.

    “Os árabes que chegam morrem imediatamente”, segundo ele. “Alguns perderam o juízo. É difícil ver os corpos.”

    Habib afirma que conheceu Omar e o grupo de sírios em uma instalação de treinamento militar.

    “Ela havia prometido a eles cidadania, bons salários e que eles ficariam em segurança”, ele conta. “Mas, depois que você assina um contrato aqui, não há forma de sair.”

    “Nenhum deles sabia usar uma arma. Mesmo se recebessem tiros, eles decidiam não atirar… E, se você não atirar, será morto.”

    “Polina recrutava os homens sabendo que eles iriam morrer”, segundo Habib.

    Ele conta que ela “recebia US$ 300 [cerca de R$ 1,6 mil] para cada pessoa que recrutava”.

    A BBC não conseguiu confirmar a informação, mas outros recrutas também nos disseram acreditar que Azarnykh recebia pagamento.

    ‘Nada acontece de graça’

    A partir de meados de 2024, as postagens de Azarnykh começaram a indicar que os recrutas “participarão das hostilidades”, mencionando que houve combatentes estrangeiros que morreram em combate.

    “Todos vocês sabiam muito bem que estava indo para a guerra”, afirma ela em um vídeo de outubro de 2024.

    “Vocês achavam que poderiam conseguir um passaporte russo, não fazer nada e morar em um hotel cinco-estrelas? Nada acontece de graça.”

    Em outro caso, ocorrido em 2024, a BBC ouviu uma mensagem de voz enviada por Azarnykh para uma mãe cujo filho estava servindo nas Forças Armadas.

    Ela afirma que a mulher “publicou algo horrível sobre o Exército russo”. Usando palavrões, ela ameaça a vida do filho e alerta a mulher: “Vou encontrar você e todos os seus filhos.”

    A BBC tentou diversas vezes entrar em contato com Azarnykh. Inicialmente, ela disse que daria uma entrevista se viajássemos para a Rússia, mas a BBC recusou a oferta por razões de segurança.

    Questionada em uma chamada de voz sobre as acusações de que os recrutas receberam a promessa de não participar em combates, ela desligou.

    Em mensagens de voz enviadas posteriormente, ela afirmou que o nosso trabalho “não era profissional” e alertou sobre possíveis processos por difamação.

    Azarnykh também usou um palavrão para indicar o que “nossos respeitados árabes”, segundo ela, poderiam fazer com essas acusações.

    A BBC entrou em contato com o Ministério de Relações Exteriores e o Ministério da Defesa da Rússia em busca de comentários, mas não houve resposta até a publicação desta reportagem.

    Anteriormente, em março de 2022, o presidente russo Vladimir Putin apoiou o recrutamento de homens do Oriente Médio. Ele defendeu que os recrutas eram levados por fatores ideológicos e não financeiros.

    “Existem pessoas que querem vir voluntariamente, não por dinheiro, para fornecer assistência às pessoas”, declarou Putin.

    Azarnykh de casaco escuro, de pé, ao lado de nove pessoas em uniformes militares, com uma densa floresta ao fundo. Ao lado dela, está Habib, vestindo um capuz cáqui, com o rosto visível. Os rostos de algumas outras pessoas estão cobertos por lenços ou balaclavas pretas e os demais tiveram o rosto borrado na foto.

    Crédito, Telegram

    Legenda da foto, Imagem compartilhada no canal de Azarnykh no Telegram em janeiro de 2024, mostrando Habib de pé ao lado dela.

    ‘Incentivos em dinheiro’

    Jornalistas e pesquisadores que acompanham a questão afirmam que indivíduos como Azarnykh fazem parte de uma rede de recrutadores informais.

    A BBC encontrou outras duas contas em árabe no Telegram com ofertas similares, de ingresso nas Forças Armadas russas.

    Uma delas inclui postagens que mostram documentos de convite e listas de nomes, enquanto a outra anunciou grandes pagamentos de bônus de assinatura para entrar em um “batalhão de elite”.

    Em setembro, a polícia do Quênia afirmou ter desarticulado um suposto “sindicato do tráfico”, que estaria atraindo cidadãos quenianos com ofertas de emprego, que depois eram enviados para a guerra na Ucrânia.

    A pesquisadora Kateryna Stepanenko, do Instituto para o Estudo da Guerra, declarou à BBC que autoridades municipais e regionais da Rússia ofereceram incentivos em dinheiro de até US$ 4 mil (cerca de R$ 21,5 mil) para que indivíduos como profissionais de RH e moradores locais recrutassem cidadãos russos ou estrangeiros para o serviço militar.

    Ela afirma que o Kremlin, inicialmente, usou para o recrutamento organizações maiores, como o grupo militar privado Wagner e o sistema prisional. Mas, desde 2024, estaria também “incentivando moradores locais e companhias menores”.

    Isso “sugere que aquelas versões anteriores de recrutamento não geram mais a mesma quantidade de recrutas”, destaca Stepanenko.

    Paralelamente, Habib retornou à Síria, segundo ele, depois de subornar diversos comandantes para pôr fim ao seu contrato.

    Omar chegou a receber a cidadania russa e também conseguiu voltar para a Síria. E dois cidadãos sírios que serviram com ele estão mortos, segundo suas famílias.

    Azarnykh “nos vê como números ou dinheiro”, segundo ele. “Ela não nos vê como pessoas.”

    “Não iremos perdoá-la pelo que ela fez conosco.”

    Com colaboração de Olga Ivshina, Gehad Abbas, Ali Ibrahim, Victoria Arakelyan e Rayan Maarouf

    O documentário do Serviço Mundial da BBC que deu origem a esta reportagem está disponível em vídeo e áudio (em inglês).



    Notícia publicada originalmente por BBC Brasil
    em nome do autor .

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