Com informações do Blog Manoel de Medeiros

Cinco integrantes do núcleo duro da gestão do prefeito João Campos (PSB), no Recife, criaram em janeiro de 2024 um empreendimento privado com características no mínimo controversas e que levanta questionamentos jurídicos, éticos e administrativos. Trata-se do Sítio Pedra da Onça Ltda., empresa fundada quando seus sócios já ocupavam cargos estratégicos na Prefeitura do Recife e que tem como principal atividade econômica, segundo a Receita Federal, a compra e venda de imóveis próprios — apesar de se apresentar formalmente como um “sítio” e de possuir CNAEs agropecuários.
Entre os sócios fundadores está o atual vice-prefeito do Recife, Victor Marques (PCdoB), que à época ocupava o cargo de chefe de gabinete do prefeito João Campos. Victor integrou a sociedade desde sua fundação, em 25 de janeiro de 2024, mas retirou-se formalmente da empresa no dia 12 de junho de 2024, poucas semanas antes de ser oficializado como candidato a vice-prefeito, em 22 de julho de 2024. As suas quotas foram redistribuídas entre os demais sócios, todos eles integrantes da alta cúpula da gestão municipal. A empresa permanece ativa até hoje.
Inicialmente registrada como Agropecuária Pedra da Onça Ltda., a empresa passou posteriormente a se chamar Sítio Pedra da Onça Ltda., com consolidação contratual em agosto de 2025. Apesar do nome e das atividades secundárias ligadas à agropecuária — como “criação de bovinos para corte” e “criação de equinos e produção de sêmen” —, o objeto principal do negócio é imobiliário, incluindo ainda incorporação de empreendimentos imobiliários e loteamento de imóveis próprios, atividades que destoam de uma empresa rural e que, no âmbito dos órgãos de fiscalização, costumam acender alertas sobre a existência de lastro econômico e eventual uso para lavagem de capitais.
Outro elemento que reforça a suspeita de que a empresa possa ser de fachada é o endereço fiscal, registrado em um coworking no bairro do Poço da Panela, Zona Norte do Recife, sem qualquer indicação pública da existência física do sítio, propriedade rural identificável ou presença digital do empreendimento. Não há site, perfis em redes sociais ou registros públicos de operações imobiliárias ou agropecuárias realizadas pela empresa.
Dos seis sócios fundadores, cinco já atuavam na Prefeitura do Recife no momento da criação da empresa e acumulam passagens por sucessivas gestões do PSB no município e no Estado de Pernambuco. Além de Victor Marques, integraram a sociedade Daniel Saboya, então diretor da Emlurb; Gustavo Monteiro, à época secretário executivo e hoje titular da Secretaria de Articulação Política e Social; Luciano Temporal Carneiro, então secretário executivo de Infraestrutura da Saúde e hoje secretário executivo de Ordem Pública e Segurança; e Antônio Mario da Mota Limeira Filho, chefe da Assessoria Especial do prefeito. O sexto sócio é Bruno Delgado de Souza, atual sócio-administrador da empresa.
Com a reeleição de João Campos em 2024, a maioria desses auxiliares foi promovida a cargos ainda mais estratégicos. Daniel Saboya assumiu a presidência da Emlurb, a maior autarquia municipal; Gustavo Monteiro tornou-se o principal articulador político da gestão; e Antônio Limeira Filho segue como um dos assessores mais próximos do prefeito, ao lado de Monteiro, sendo considerado um dos seus principais operadores políticos. Limeira, inclusive, teve João Campos e a deputada federal Tabata Amaral (PSB) como convidados de honra de seu casamento, em maio do ano passado, em São José de Belmonte.
As ligações entre os sócios e a família Campos se estendem para além da administração pública. O atual sócio-administrador do Sítio Pedra da Onça Ltda., Bruno Delgado de Souza, mantém sociedade na empresa Tree Group, uma holding que também tem como sócio Aldo Guedes, amigo pessoal e ex-sócio do ex-governador Eduardo Campos, acusado no passado de atuar como operador de propina — embora nunca tenha sido condenado. Aldo Guedes e Eduardo Campos, inclusive, foram sócios em um empreendimento rural semelhante, a Agropecuária Nossa Senhora de Nazaré, em Brejão, no Agreste pernambucano, cuja existência física era pública e conhecida.
O caso mais sensível do ponto de vista legal envolve justamente Bruno Delgado. Desde 16 de dezembro de 2025, ele passou a integrar oficialmente os quadros da Prefeitura do Recife como secretário executivo de Transformação Digital e Inovação em Serviços Públicos, permanecendo, ao mesmo tempo, como administrador da empresa privada. Essa situação configura infração direta ao Estatuto dos Servidores Municipais do Recife (Lei nº 14.728/1985), que proíbe servidores efetivos ou comissionados em atividade de atuarem como gerentes ou administradores de empresas privadas. Para continuar no cargo público, Delgado precisaria se afastar formalmente da administração da companhia.
Embora a participação societária dos demais secretários seja legal do ponto de vista estritamente formal, o caso levanta uma série de questionamentos éticos e de transparência pública: onde funciona efetivamente o sítio? De quem é a propriedade rural? Houve, de fato, compra e venda de imóveis? A empresa movimenta recursos? Existe lastro econômico real para as atividades declaradas? Essas perguntas ganham ainda mais relevância diante do peso político e orçamentário dos cargos ocupados pelos sócios.
Juntos, os atuais cinco integrantes da sociedade do Sítio Pedra da Onça Ltda. comandam pastas, autarquias e estruturas administrativas que somam R$ 1,48 bilhão em orçamento previsto para 2026, incluindo áreas sensíveis como limpeza urbana, iluminação pública, segurança e ordem pública. Luciano Temporal Carneiro, por exemplo, atua como ordenador de despesas, com poder para assinar contratos, atas de registro de preços e autorizações administrativas relevantes.
Segundo registros atualizados da Jucepe, acessíveis ao público, a última movimentação contratual da empresa ocorreu em agosto de 2025. O quadro societário permanece ativo e regular perante a Receita Federal. Apesar disso, o conjunto de indícios — retirada estratégica do vice-prefeito antes da campanha, administração por servidor comissionado, CNAEs incompatíveis, ausência de lastro público e forte entrelaçamento político — coloca o Sítio Pedra da Onça Ltda. no centro de um debate que exige apuração rigorosa por parte dos órgãos de controle e fiscalização.
Notícia publicada originalmente por PE News
em nome do autor Redação.
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