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    Início » Como greve de astros no All-Star Game de 1964 revolucionou a NBA e firmou bases da liga que duram até hoje
    Esportes

    Como greve de astros no All-Star Game de 1964 revolucionou a NBA e firmou bases da liga que duram até hoje

    15 de fevereiro de 2026
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    Em 2026 (e há muito tempo), além de melhor liga de basquete do mundo, a NBA também é sinônimo de dinheiro. Muito dinheiro. Franquias bilionárias, jogadores com salários astronômicos que crescem a cada ano e acordos televisivos cada vez mais pomposos e de cifras exorbitantes.

    Além disso, dentre os princípios da liga, uma das maiores do planeta em qualquer modalidade, parte fundamental é um acordo firmado entre os donos das franquias e os jogadores, estipulando regras salariais, divisão de lucros da NBA, condições dignas de trabalho, etc., chamado de CBA (Collective Bargaining Agreement, ou Acordo Coletivo de Trabalho, em tradução livre), que precisa ser refeito de tempos em tempos. Sem esse acordo, os jogos não começam, como já aconteceu em quatro oportunidades, que acabaram encurtando a temporada.

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    Mas nem sempre foi assim. E a grande mudança aconteceu minutos antes do All-Star Game de 1964, em Boston, em um enorme ponto de virada na história da NBA.

    A NBA buscando um lugar ao sol

    Muito mais nova que as outras grandes ligas americanas (MLB, no beisebol, NFL, no futebol americano, e NHL, no hóquei) a NBA demorou para engrenar e tomar a relevância que detém hoje. Criada no final dos anos 1940, ainda não tinha, até 1964, jogos transmitidos ao vivo nos EUA. Eram todos passados depois, e nem sempre na íntegra.

    Buscando ampliar a presença na mídia, a NBA fez uma série de movimentações que resultaram em um acordo com a emissora ABC na temporada 1963-64, que teria início com a transmissão do All-Star Game de 1964, no dia 14 de janeiro, em Boston.

    Seria a grande exposição para o público americano dos astros da liga, como Bill Russell, Wilt Chamberlain, Oscar Robertson, Elgin Baylor, Jerry West, Bob Petit, entre outros, o que poderia render, num futuro próximo, um contrato de longo prazo de direitos televisivos, o que poderia injetar uma enorme quantia de dinheiro na liga (e que realmente aconteceu pouco tempo depois).

    Jerry Lucas (à frente) e Wilt Chamberlain (atrás) durante o All-Star Game de 1964, que quase não aconteceu Getty Images

    A união dos jogadores

    Apesar (ou talvez também por isso) de ser a liga mais nova dentre as principais modalidades nos EUA, a NBA também foi pioneira em apoiar e/ou reconhecer diversas lutas sociais da sociedade americana no século XX. Mas nem sempre por iniciativa própria.

    Em 1954, menos de dez anos após a criação da NBA e uma década antes do fatídico All-Star Game, Bob Cousy, astro do Boston Celtics, se uniu com os principais jogadores da outras franquias e formou a Associação Nacional dos Jogadores de Basquete (NBPA, na sigla em inglês) para lutar por melhores condições para os jogadores. Na prática, um sindicato. E mesmo que as organizações de trabalhadores já existissem há mais de um século nos EUA, o esporte ainda não era contemplado por nenhuma delas.

    Diferente de hoje, na época a NBA era uma ‘liga de donos’, e não dos jogadores. Muitos deles precisavam, inclusive, de outros empregos durante a intertemporada para complementar renda e poderem voltar a jogar no ano seguinte, além de não terem nenhum tipo de apoio das franquias em casos como lesões, enfermidades, etc.

    A iniciativa de Cousy, porém, não ‘pegou’ logo de cara. Apesar de ter conseguido alguns avanços ao longo dos anos, o progresso era muito lento. E oficialmente, a NBA nem reconhecia a existência da NBPA (ou Sindicato dos Jogadores). Também por isso, muitos deles, sofrendo pressão de alguns dos donos das franquias, não declaravam apoio publicamente e nem se filiavam à associação.

    A maior demanda dos atletas era a criação de um fundo de pensão que permitisse a possibilidade de aposentadoria enquanto profissionais do basquete. Até então, exercer o esporte significava sacrificar os anos iniciais da vida profissional e precisar arrumar um novo emprego quando a carreira basquetebolística terminasse, o que geralmente acontecia no início dos 30 anos de idade.

    Até que em 1961, a NBPA, que na época já era presidida por Tommy Heinsohn, companheiro de Bob Cousy nos Celtics, chegou a um acordo com a NBA para a criação de um fundo de pensão. Só que ele nunca saiu do papel, e a insatisfação só aumentou.

    Apenas um ano após virar comissário da NBA, Walter Kennedy precisou lidar com a maior crise do século na liga Bettmann Archive/Getty Images

    A greve

    Quando a transmissão do All-Star Game de 1964 foi anunciada, Tommy Heinsohn identificou a oportunidade perfeita para pressionar a liga a ampliar os direitos dos atletas. Afinal, a NBA estava prestes a ficar mais popular e, principalmente, mais endinheirada. Junto de Elgin Baylor, então astro do Los Angeles Lakers, articulou as principais demandas da época, como o já citado plano de pensão, seguro contra lesões, auxílio nas mudanças de cidade em situações de troca, melhorias nas equipes médicas das franquias e ajustes no calendário.

    Mas o plano inicial não envolvia, diretamente, uma greve. Foi marcada uma reunião com a NBA, os donos das franquias e os jogadores presentes no All-Star para o dia 13 de janeiro, véspera do All-Star Game, para negociar os pedidos.

    Só que uma forte nevasca na cidade de Boston, que está no auge do inverno em janeiro, impediu que a reunião acontecesse. Assim, os atletas só se encontraram, de fato, no dia 14 de janeiro, já nos vestiários, horas antes da partida começar.

    Os jogadores pediram por uma nova reunião com os dirigentes, mas após o cancelamento por conta da neve no dia anterior, os donos só queriam se reunir novamente após o fim da temporada. Foi então que Tommy Heinsohn e Elgin Baylor, apoiados por Bill Russell e Oscar Robertson (que viria a se tornar presidente da NBPA anos depois), colocaram todos os companheiros à par da situação e sugeriram entrar em greve.

    O vestiário, composto por 20 jogadores (10 de cada conferência), se dividiu. A primeira votação foi de 11 a 9 a favor do boicote ao evento. Os que eram contrários à greve não necessariamente discordavam das demandas dos colegas, mas tinham medo de possíveis retaliações ao prejudicar um evento tão importante.

    Tom Heinsohn (esquerda) e Bob Cousy (direita) anos depois, em 1967. Dan Goshtigian/The Boston Globe via Getty Images

    O impasse seguiu, e o horário do evento foi ficando cada vez mais próximo. Os donos dos clubes, já cientes de todo o imbróglio, ameaçaram os jogadores de diversas maneiras possíveis, com destaque para o então dono dos Lakers, Bob Short, vociferando que Elgin Baylor e Jerry West jamais pisariam numa quadra de basquete novamente.

    Mas as reprimendas, no final das contas, uniram ainda mais os jogadores, que decidiram, então, pela greve até que a NBA acatasse os pedidos.

    Com o jogo já atrasado para começar, foi a vez da ABC partir para cima dos donos das equipes. Se a situação não fosse resolvida, eles cancelariam tanto a transmissão do All-Star Game quanto das demais partidas previstas em contrato.

    Para evitar um desastre nas projeções financeiras da liga, e especialmente no bolso dos donos, Walter Kennedy, então comissário da NBA, atendeu aos pleitos dos atletas, garantindo o fundo de pensão e os demais pedidos, além de reconhecer oficialmente a existência da NBPA.

    Embora a liga e os jogadores já houvessem firmado acordos em 1957 e 1961, foi a greve de 1964 que resultou na primeira CBA como conhecemos hoje. O All-Star Game, então, aconteceu normalmente na sequência, como a grande festa que sempre foi.

    O crescimento nos anos seguintes

    O evento, no final das contas, foi um sucesso. A NBA firmou novos acordos com a ABC para outras temporadas, resultando num crescimento considerável a médio prazo. A injeção de dinheiro aconteceu junto do aumento da popularidade por todo o país, num boom que durou até meados dos anos 1970, quando a NBA entrou em uma nova crise, mas que é assunto para outro dia.

    Se em 1964 apenas nove franquias disputavam a competição, em 1974 esse número já era de 18 times, o que tanto ajudou no aumento de popularidade da NBA, espalhando-a para ainda mais cidades (e grandes mercados) do país, como foi reflexo do sucesso do bom produto apresentado à época.

    Para os jogadores, a situação também melhorou ano a ano. Os salários cresceram, a NBPA ficou ainda mais relevante, e melhores condições foram negociadas em outras temporadas, já sob o comando de Oscar Robertson, como um fundo de pensão ainda melhor, diminuição no número de jogos de exibição (amistosos) para arrecadar dinheiro e expandir a influência do basquete, aprimoramento nos seguros e condições médicas, limite de 82 jogos na temporada regular, entre outras mudanças.

    Oscar Robertson em 1972, já pelo Milwaukee Bucks. Astro também teve uma longa passagem pelo Cincinnati Royals (atual Sacramento Kings). Vernon Biever/NBAE via Getty Images

    O acordo firmado em 1964 criou as bases, ao menos financeiras e de condições mínimas de trabalho, que transformaram a NBA no que ela é hoje, permitindo todos os grandes saltos das décadas seguintes: criação da free agency (agência livre), novos acordos salariais e televisivos, épocas marcantes como a era Magic Johnson x Larry Bird, a era Michael Jordan, processo de internacionalização da liga, entre muitos outros, tanto os já concluídos, quanto os ainda em transformação.

    Por isso, por mais que há vários anos o All-Star Game careça de competitividade e da mesma relevância de outrora, ele segue no imaginário da NBA, dos jogadores e do público, especialmente o americano, como a grande reunião das estrelas, estopim de algumas das melhores histórias de toda a existência do campeonato.

    Os 20 jogadores do All-Star Game de 1964

    Conferência Leste

    Conferência Oeste



    Notícia publicada originalmente por www.espn.com.br –
    em nome do autor Lucas Guanaes.

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