O camponês e ativista Erasmo Alves Theofilo nasceu em 1988 e viveu até recentemente na zona rural do município paraense de Anapu, que ele cruzava em sua cadeira de rodas. Hoje, ele está incluído no Programa de Proteção aos Defensores de Direitos Humanos do Estado do Pará. Em suas palavras, tornou-se um exilado em seu próprio país.

A região de Anapu é uma das mais perigosas do país para ativistas, camponeses e defensores de direitos humanos. A irmã Dorothy Stang, assassinada a mando de fazendeiros em 2005, é o nome mais conhecido de uma longa lista de pessoas mortas por grileiros e outros criminosos. “Se eu seguisse lá, podia morrer anônimo”, diz ele ao escritor e sociólogo José Henrique Bortoluci, na edição deste mês da piauí.

No novo texto do dossiê Geração Democracia, Bortoluci conta a história de luta de Theofilo e reflete sobre o presente e o futuro da Amazônia. “Meu primeiro contato com a Amazônia foi no Fórum Social Mundial de 2009, em Belém. A cidade era imensa, quente, saborosa, desigual”, conta o escritor. “Meu pai, caminhoneiro que trabalhou na região quando as grandes obras encabeçadas pela ditadura militar estavam sendo construídas, me contava histórias das matas, estradas e rios da Amazônia.” Bortoluci narrou as histórias de seu pai no livro O que é meu.

Theofilo diz que a relação do camponês com a floresta é totalmente diferente da lógica que causou a devastação. “O camponês sempre foi mais extrativista que desmatador. Estar isolado nunca foi problema – era até desejo de muita gente. Tem gente que vive a 70, 80 km da vila, feliz no mato.” Para ele, a ocupação do território segue uma lógica simples: onde tem terra boa, água e árvores frutíferas, é lá que as pessoas se instalam.

Para quem vive da terra, explica Theofilo, as árvores em pé são renda: a possibilidade de vender sementes, mudas, e colher os frutos. “Mas aí passa alguém que já trabalhou em serraria, vê o ipê com outros olhos. Volta, avisa o povo do dinheiro – e começa o assédio. Tentam convencer a família a vender a madeira. É o início do conflito. É sempre assim desde a Transamazônica”, ele afirma.

O ativista participou de seis retomadas, sempre em terras de fazendeiros ocupadas ilegalmente. “Com o Ministério Público Federal, conseguimos reintegrações importantes, como na Ilha Grande do Xingu: tiramos 45 invasores e recolocamos 214 indígenas, e o lugar virou uma Área de Preservação Permanente reconhecida”, recorda. “Tenho muito orgulho, e os indígenas também me protegem: já ficaram seis guerreiros comigo quando recebi ameaças. Em troca, ajudo com visibilidade, documentos e articulação. É uma parceria real. Mas não é de graça. Os grileiros que foram atingidos por essas reintegrações tentaram sequestrar meus filhos, em retaliação. Tentaram me matar.”

Para Bortoluci, vista a partir da Amazônia, a democracia brasileira é frágil, quando não é uma patente decepção. “Em grande medida, ela promoveu a reprodução dos padrões violentos de ocupação inaugurados na ditadura, com alguns breves períodos de avanços, sempre frágeis. O processo de devastação não foi linear nem descolado de dinâmicas das políticas brasileiras”, comenta o escritor.

Theofilo compartilha dessa conclusão: “Estou com 36 anos e, sendo direto, o Brasil não melhorou em vinte anos, pelo menos não na minha realidade. Na luta que vivo – ambiental, camponesa, florestal – só vi retrocesso.”

Assinantes da revista podem ler a íntegra do texto neste link.





Notícia publicada originalmente por revista piauí
em nome do autor Amanda Gorziza.

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