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    Início » Saúde: por que o cabeceio no esporte pode ser tão perigoso
    Brasil

    Saúde: por que o cabeceio no esporte pode ser tão perigoso

    13 de janeiro de 2026
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    Jogadora cabeceando a bola em direção ao gol, em um jogo de futebol

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, Os jogadores de futebol profissional e futebol americano correm muito mais risco de desenvolver demência
    Article Information

      • Author, Jasmin Fox-Skelly
      • Role, BBC Future
    • Há 2 horas

    • Tempo de leitura: 9 min

    Para o jogador de futebol, não há nada como saltar em direção à bola lançada na sua direção em grande velocidade, cabeceá-la para as redes e marcar um gol para o seu time.

    Mas estão surgindo cada vez mais evidências de que cabeceios frequentes podem gerar danos ao cérebro que se manifestam décadas depois, na forma de mal de Alzheimer, Parkinson e doença do neurônio motor.

    Os riscos dos esportes de contato, na verdade, são conhecidos há quase 100 anos.

    Em 1928, o patologista americano Harrison Martland (1883-1954) publicou um artigo científico, defendendo que, “há algum tempo, os fãs e promotores de lutas reconheceram a ocorrência de uma condição peculiar entre os lutadores profissionais que, na linguagem do ringue, é conhecida como punch drunk“, um termo em inglês usado para designar o atordoamento causado pelos golpes na cabeça.

    Os sintomas incluem andar cambaleante e confusão mental. Eles eram mais comuns entre “lutadores do tipo violento, que normalmente são maus boxeadores e sofrem muitos golpes na cabeça”.

    Em alguns casos, o atordoamento progrediu para um tipo de demência, classificada posteriormente como “demência pugilística“. Ela ocorre em boxeadores que sofreram repetidos golpes na cabeça.

    Inicialmente, acreditava-se que este problema fosse restrito ao pugilismo. Mas, nas últimas décadas, o conhecimento se expandiu.

    O jogador de futebol Jeff Astle (1942-2002), do time West Bromwich Albion e da seleção da Inglaterra, morreu aos 59 anos de idade, após o diagnóstico de demência precoce.

    E, nos Estados Unidos, o jogador de futebol americano Mike Webster (1952-2002) morreu subitamente com 50 anos, depois de sofrer declínio cognitivo e outros sintomas similares ao mal de Parkinson.

    Nos dois casos, o exame do cérebro dos astros demonstrou que eles morreram de encefalopatia traumática crônica (ETC), uma designação mais moderna que substituiu o diagnóstico de demência pugilística.

    Surgiram outros casos entre esportistas conhecidos nos anos seguintes.

    No dia 17 de fevereiro de 2011, o ex-jogador do Chicago Bears David Duerson (1960-2011) cometeu suicídio. Ele sofria de depressão e análises subsequentes do cérebro mostraram que ele também tinha ETC.

    No Brasil, o pugilista Adilson “Maguila” Rodrigues (1958-2024) também conviveu com a ETC. O ex-campeão mundial na categoria peso-pesado pela Federação Mundial de Boxe morreu aos 66 anos de idade.

    Jogador cabeceia a bola em direção ao gol durante jogo de futebol

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, Os riscos dos esportes de contato são conhecidos há cerca de 100 anos

    “A ETC é uma forma muito específica de patologia cerebral degenerativa, que só observamos em pessoas com histórico de lesões ou impactos na cabeça”, segundo o consultor em neuropatologia Willie Stewart, da Universidade de Glasgow, no Reino Unido.

    Esta condição também é singular porque, se olharmos ao microscópio, veremos um padrão específico de depósitos anormais de proteína no cérebro, denominados tau.

    “A melhor forma de saber se alguém sofre de ETC é perguntar ‘você já jogou futebol?’ ou ‘você já jogou rugby?'”, segundo Stewart.

    “Porque, se você for jogador de futebol profissional e tiver demência, suas chances de ter ETC no cérebro são muito altas.”

    O que dizem as pesquisas

    Desde 2008, a professora de neurologia e patologia Ann McKee, da Faculdade de Medicina da Universidade de Boston, nos Estados Unidos, vem convidando ex-atletas a participar de estudos para saber como diagnosticar e tratar a ETC.

    Em 2023, McKee e seus colegas analisaram cérebros doados de 376 ex-jogadores de futebol americano da liga nacional dos Estados Unidos (NFL). Eles descobriram que 91,7% deles tiveram ETC.

    Os jogadores examinados incluíram o ex-quarterback do Philadelphia Eagles Rick Arrington (1947-2021). Ele jogou pela equipe do Estado americano da Pensilvânia entre 1970 e 1973.

    Também foi estudado o cérebro do ex-defensor do Kansas City Chiefs Ed Lothamer (1942-2022), que disputou a primeira edição do Super Bowl.

    O resultado do estudo não representa o risco real de desenvolver ETC entre os jogadores de futebol americano, já que as pessoas que suspeitam que podem ter a condição podem ser mais propensas a doar seu cérebro para a ciência.

    Mas, para dar uma ideia, calcula-se que a incidência de ETC na população em geral seja de menos de 1%.

    McKee também diagnosticou ex-jogadores de baseball, ciclistas e astros do hóquei sobre o gelo com ETC. Em todos os casos, o denominador comum foram os golpes repetidos na cabeça.

    Mas não se trata apenas desta condição. O cabeceio também está relacionado a outras doenças degenerativas do cérebro.

    Stewart conduz um estudo em andamento chamado Influência do Futebol sobre a Saúde ao Longo da Vida e o Risco de Demência (Field, na sigla em inglês).

    Em 2019, ele e sua equipe examinaram o histórico de saúde de cerca de 8 mil ex-jogadores de futebol profissional escoceses e os compararam com 23 mil membros da população em geral.

    “Pegamos nossos futebolistas e os comparamos com pessoas da comunidade que nasceram no mesmo ano e viveram aproximadamente na mesma região”, explica Stewart.

    “Para cada jogador de futebol, tivemos três controles coincidentes. Com isso, formamos uma boa ideia de como deve ser o envelhecimento e a saúde normal.”

    Jogadores de futebol americano posicionados para colocar a bola em jogo no centro do campo

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, Em 2023, um estudo com cérebros doados por antigos jogadores de futebol americano da liga NFL concluiu que mais de 90% deles mostravam sinais de encefalopatia traumática crônica, uma condição relacionada à demência

    O estudo concluiu que ex-jogadores de futebol profissional apresentam propensão cinco vezes maior a desenvolver mal de Alzheimer; quatro vez maior a sofrer de doença do neurônio motor; e duas vezes mais probabilidade de desenvolver mal de Parkinson, em comparação com pessoas da mesma idade na população em geral.

    Ao todo, ex-jogadores de futebol profissional apresentaram 3,5 vezes mais chance de morrer por doenças neurodegenerativas que o esperado.

    “O risco é maior nas posições em que ocorre a maior parte das cabeçadas”, segundo Stewart.

    “Por isso, os defensores correm risco muito mais alto que os demais jogadores. E, se você for goleiro, seu risco é mais ou menos o mesmo da população em geral.”

    A pesquisa de Stewart também demonstrou que, quanto mais tempo uma pessoa jogar futebol profissional, maior é o risco. Ele varia de cerca do dobro para os jogadores com carreira mais curta até cerca de cinco vezes nas carreiras mais longas.

    Os motivos

    Mas por que cabecear uma bola causa tantos danos ao cérebro?

    A ETC só costuma ser diagnosticada após a morte, pois ela deixa emaranhados denunciadores de uma proteína anormal chamada tau no córtex cerebral das pessoas afetadas.

    Mas o professor de radiologia Michael Lipton, do Centro Médico Irving da Universidade Columbia, nos Estados Unidos (CUIMC), utilizou ressonância magnética do cérebro para detectar os primeiros sinais da condição em jovens jogadores de futebol amador.

    “Selecionamos pessoas com mais de 18 anos, que jogam em algum tipo de grupo organizado”, explica Lipton. “Pode ser um time universitário, mas normalmente uma liga recreativa.”

    “Temos muitas pessoas que não cabeceiam a bola e outras que cabeceiam milhares de vezes por ano.”

    A pesquisa demonstrou que os jogadores que cabeceiam a bola com mais frequência apresentam resultados inferiores em testes de memória e aprendizado, além de demonstrarem sinais claros de lesões na parte do cérebro pouco atrás da testa, conhecida como córtex orbitofrontal.

    Imagem do cérebro humano, com destaque para o córtex orbitofrontal (em vermelho)

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, A camada externa do córtex orbitofrontal parece ser particularmente vulnerável a impactos

    “É a parte do cérebro logo acima da órbita ocular”, segundo Lipton.

    A camada exterior do córtex orbitofrontal, composta de massa branca, parece ser particularmente vulnerável.

    “A massa branca é como o cabeamento em rede do cérebro humano”, explica ele. “Ela é composta de filamentos muito finos chamados áxons, que transmitem informações.”

    Estes filamentos finos são muito vulneráveis à aceleração rápida por uma força súbita.

    A mudança brusca da velocidade da cabeça durante o impacto faz com que o cérebro ricocheteie dentro do crânio, estirando os áxons e prejudicando sua conectividade.

    “Se você pensar no cabeceio, o impacto à cabeça é relativamente suave”, explica Lipton. “Ele não causa fraturas no crânio, nem sangramento no cérebro, nem lesões óbvias, mas tem potencial de fazer com que as forças trafeguem através do cérebro.”

    “Essas forças fazem com que o cérebro dentro do crânio se movimente para longe do local do impacto. E o cérebro é extremamente mole, quase com a consistência de gelatina. Por isso, quando recebe um impacto como este, o cérebro irá se comprimir, retorcer e deformar, causando tensão sobre os áxons.”

    Os cabeceadores mais frequentes, com mais de 1 mil bolas tocadas de cabeça por ano, apresentaram danos significativamente maiores naquela região.

    Isso provavelmente ocorre devido à diferença de densidade entre a massa branca e cinzenta do cérebro, que faz com que elas se movimentem em velocidades diferentes ao cabecear a bola.

    Essa diferença cria forças de cisalhamento entre os dois tipos de tecido. Mas ainda não sabemos o que acontece em seguida.

    Pugilista dando um soco na cabeça do oponente

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, A mudança súbita da velocidade da cabeça durante o impacto faz com que o cérebro ricocheteie dentro do crânio, danificando redes delicadas de neurônios

    “Nossas pesquisas indicam que, nessas pessoas relativamente jovens e saudáveis, existe algo acontecendo no seu cérebro, mas que não causa doença naquele momento”, segundo Lipton.

    Alguns desses indivíduos podem vir a desenvolver condições como ETC, mal de Alzheimer, Parkinson ou doença do neurônio motor. Outros, não.

    Além do número de cabeceios ao longo da vida, talvez algumas pessoas sejam mais vulneráveis que outras, devido a uma combinação de fatores genéticos ou de estilo de vida.

    Entre as pessoas que desenvolvem doenças neurodegenerativas, uma hipótese é que repetidos impactos ao cérebro possam danificar os vasos sanguíneos ou acionar um processo de inflamação crônica, que leva à doença com o passar do tempo.

    “Em resposta às lesões das fibras e dos vasos sanguíneos, surge a inflamação como reação de cura do cérebro para tentar reparar a situação”, explica Stewart.

    “Pode ser que os vasos, na verdade, não sejam adequadamente reparados e, por isso, eles apresentem vazamentos crônicos que levam para o cérebro substâncias que não deveriam estar ali. Ou, talvez, a inflamação nunca termine realmente como deveria e você acabe com um processo inflamatório crônico.”

    Alternativamente, aquela lesão talvez cause a degeneração e a morte dos neurônios, ocasionando cada vez mais problemas ao longo do tempo.

    “Provavelmente se trata de uma mistura de todos esses fatores, gerando problemas de longo prazo, mas é isso que estamos tentando identificar”, afirma Stewart.

    Reduzir os cabeceios

    O que podemos fazer para proteger os atletas profissionais e esportistas amadores contra a demência na idade avançada? Bem, a tecnologia pode ajudar.

    Pesquisadores da Universidade de Stanford, no Estado americano da Califórnia, estão projetando capacetes para futebol americano com absorventes de choque líquidos no seu interior. Afirma-se que eles reduzem os impactos à cabeça em cerca de 30%.

    Cabecear menos a bola também pode ajudar. No Reino Unido, devido à pesquisa de Willie Stewart, as categorias inferiores de futebol eliminaram o cabeceio.

    O grupo do pesquisador também defende com sucesso a redução da quantidade de cabeceios durante os treinos.

    “Quando conversamos com os jogadores de futebol, descobrimos que eles podem cabecear a bola 70 mil vezes durante sua carreira”, explica Stewart, “mas apenas 2 mil vezes durante os jogos.”

    “Ou seja, são 68 mil impactos à cabeça durante os treinos, que ninguém observa. Por isso, vamos eliminá-las ao máximo possível.”

    Mas, como sempre acontece, a prevenção é a melhor cura.

    “Se simplesmente parássemos de bater nossas cabeças contra as coisas, o risco cairia a zero”, segundo o pesquisador. “Mas, em termos práticos, é difícil convencer as pessoas a fazer isso.”



    Notícia publicada originalmente por BBC Brasil
    em nome do autor .

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