Em resenha de 2011, publicada na revista online the arts fuse, Train dreams, de Denis Johnson (1949-2017), foi apresentada como “uma novela assombrosa, linda” (a beautiful, haunting novella). A adaptação do livro para o cinema, por sua vez, foi aclamada ao estrear no Festival de Sundance, em janeiro de 2025, teve lançamento restrito em cinemas meses depois, nos Estados Unidos, e está disponível na Netflix desde novembro passado.
O título da novela de Johnson foi preservado no filme dirigido por Clint Bentley a partir do roteiro que ele e Greg Kwedar escreveram. Filmado quase todo no estado de Washington, no extremo noroeste da costa americana, Train Dreams narra a jornada solitária de um homem comum no início do século XX – Robert Grainier (Joel Edgerton), trabalhador ferroviário e madeireiro. Para Bentley, em entrevista ao The New York Times, o que o atraiu ao ler o livro foi “algo na história dessa vida modesta e na maneira como Johnson a retratou que nos fazia sentir a dimensão épica e a imensidão dessa vida tão acanhada”. No Brasil, onde o filme estreou no Festival do Rio, em outubro de 2025, devemos lamentar ter sido adotada a infeliz tradução literal do título – Sonhos de trem –, que nem de longe guarda o poder evocativo do original.
Embora não esteja, segundo previsões das revistas Variety e Hollywood Reporter, entre os prováveis premiados, Train Dreams concorre ao Oscar a ser entregue no próximo dia 15 em quatro categorias: Filme, Roteiro Adaptado, Fotografia, e Canção Original (os cotados para receber o maior número de troféus são Pecadores, de Ryan Coogler, e Uma batalha após a outra, de Paul Thomas Anderson, com dezesseis e treze indicações cada um, respectivamente).
Grandioso sucesso de crítica, Train Dreams é considerado, de modo geral, “um filme lindo” (a beautiful movie) ou “de uma beleza impressionante” (an astonishingly beautiful film), entre outros encômios. Além disso, é bem-sucedido como negócio – produzido com orçamento de 10 milhões de dólares, abaixo do custo médio de um filme feito nos Estados Unidos, teve seus direitos de distribuição adquiridos pela Netflix por 16 milhões de dólares (o orçamento estimado de Pecadores foi entre 90 e 100 milhões de dólares, e a renda de bilheteria chegou a cerca de 369 milhões de dólares no mercado mundial; Uma batalha após a outra teve orçamento estimado entre 130 milhões e 175 milhões de dólares e receita em cinemas acima de 200 milhões de dólares).
A disparidade financeira de Pecadores e Uma batalha após a outra, de um lado, e Sonhos de trem, do outro, é espelhada no número de indicações ao Oscar desses filmes e atesta quem são os verdadeiros protagonistas da grande festa da indústria americana e os figurantes que até surpreendem, às vezes, e levam uma estatueta para casa.
Quem assistiu ou vier a assistir a Train Dreams haverá de concordar que o filme faz jus aos adjetivos exaltando sua beleza, além de suas outras virtudes. Há, no entanto, quem julgue excessiva tanta formosura.
Haveria um limite nítido além do qual o que é reconhecido como sendo lindo se torna “estetizante”? Qual seria? O comentário pejorativo, feito em detrimento de Train Dreams, não contradiz a busca legítima do belo inerente à criação artística, derivada do ideal platônico?
Essas questões me lembraram de dois artigos de Paulo Emílio Sales Gomes – Desnecessidade da inteligência e Gosto pela inteligência, publicados, nessa ordem, no Suplemento Literário de O Estado de S.Paulo, em 1963 (os textos estão disponíveis para assinantes do jornal aqui e aqui). No primeiro, o crítico que afirma sempre ter gostado muito da inteligência escreve que ela “eventualmente pode ser dispensada na criação, já na apreciação é condição indispensável de bom rendimento”. No segundo artigo, ele assinala a “eclosão da inteligência no cinema, que apenas enunciado salta aos olhos do observador mais distraído”, sobretudo a partir dos “últimos anos da década de 1950”.
O raciocínio paradoxal, típico de Paulo Emílio, serviria para resolver o que chamaríamos de “a equação do excesso de beleza”?
Justin Chang, crítico de cinema da revista The New Yorker, desconfia da beleza superlativa de Train Dreams na primeira frase de seu artigo sobre o filme, publicado em dezembro de 2025:
Train Dreams é um filme belíssimo, mas não posso dizer que confio totalmente em sua beleza. O diretor, Clint Bentley, e o diretor de fotografia, Adolpho Veloso, compuseram um hino intencionalmente arrebatador à natureza selvagem dos Estados Unidos […] fiquei maravilhado com a nitidez das imagens de Veloso, com seu contraste intenso entre luminosidade e sombras: um trecho de floresta verde-esmeralda, vislumbrado de dentro de um túnel cavernoso, não perdeu seus contrastes na minha tevê caseira. Um segundo olhar, desta vez em um cinema de verdade, provou ser ainda mais cativante: aqui, finalmente, havia uma tela grande o suficiente para suportar o brilho radiante de um pôr do sol rosa-dourado e os rostos de Joel Edgerton e Felicity Jones. Trata-se de uma técnica inegavelmente majestosa, capaz tanto de nos deixar boquiabertos quanto de levantar uma sobrancelha; em certo ponto, começamos a nos perguntar se o esplendor visual do filme não estará ultrapassando seu significado. Quão requintado seria requintado demais?
A novela de Johnson, segundo Chang, “mantém a beleza e a feiura do mundo em um equilíbrio mais convincente” – ou seja, para ele, o livro é mais realista do que o filme e este seria lindo demais e horrível de menos.
Embora elucidativo quanto ao desequilíbrio que assinala, o critério do qual Chang lança mão para avaliar Train Dreams falha pela simples razão de depender do espectador ter lido o livro, o que certamente não é o caso para a imensa maioria, eu inclusive. Pelo mesmo motivo, resulta inadequado contrapor o protagonista da novela ao do filme – o primeiro, “longe de ser um mero espectador inocente ou testemunha bem-intencionada” como seria o caso do segundo, “participa ativamente da tentativa de execução” do trabalhador chinês, escreve Chang. “No filme, Grainier [Joel Edgerton] defende Fu, perguntando: ‘O que ele fez?’ Enquanto, na novela, ele agarra o acusado pelas pernas e grita: ‘Deixa comigo! Peguei o desgraçado.’
Ao transpor um livro para o cinema, segundo Chang,
cada alteração necessariamente revela algo da intenção do adaptador e o que essa mudança em particular demonstra, a meu ver, é uma curiosa falta de fé no público — como se só pudéssemos simpatizar com um protagonista moralmente irrepreensível, mesmo um já imbuído da inefável simplicidade e da melancólica gravitas de Edgerton.
Na entrevista citada ao The New York Times, Bentley esclarece que
Grainier, no filme, ajuda sim. Ele ajuda por um instante. Ele se deixa levar pela violência de […] carregar o cara até a ponte […] ele agarra as pernas dele para ajudar a carregá-lo, mas é afastado com um chute. Essa cena não é tão desenvolvida quanto no livro, em parte por ser uma mídia diferente. E eu li as críticas. Não tenho nenhuma resposta específica além de que há coisas que eu acho que […] podem funcionar e que você pode fazer na literatura. Às vezes, é possível manter um certo distanciamento de algo muito difícil, um distanciamento emocional que não se consegue ter no cinema da mesma forma.
Bentley teve a coragem de optar por uma versão ambígua do comportamento de Grainier, diferente da adesão explícita dele à violência na novela. A mudança me parece revelar, ao contrário do que Chang afirma, muita fé no público.
Dito isso, só resta deixar claro que Train Dreams não me parece bonito além da conta – é uma beleza de filme e merece ser reconhecido como tal.
Notícia publicada originalmente por revista piauí
em nome do autor Luigi Mazza.
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