Vicente Serejo
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Seria injusto afirmar que o Brasil não tem um povo criativo. Tem. E muito. Tão muito que basta a doce esperteza de Chicó e João Grilo, personagens do ‘Auto da Compadecida’, de Ariano Suassuna, para o brasileiro de todas as classes e credos se olharem no espelho do quarto. Nem o padre e o senhor bispo resistem ao encanto esperto das promessas dos dois, muito menos o cangaceiro Severino de Aracaju. E toda essa trama sob o manto protetor da Padroeira do Brasil.

A invencionice é tão encantadora que leva o cristão de boa-fé a acreditar na máscara como se não encobrisse as verdades. A mais recente invenção é de que há extremas direita e esquerda moderadas. Como lembrou Thiago Amparo, doutor em direito, e jornalista, o que há é a tentativa de diluição semântica no desejo de normalizar o que não é normalizável. Daí a falsa graduação em radical, extrema e ultra. A Direita e a Esquerda nunca condenam os extremismos. Silenciam.

E é nesse sentido, na dissecação tecido a tecido, que Amparo avança: “Conceitos não são realidades objetivas; partem de uma posição política. Conceitos são relacionais: faz sentido falar em extrema direita em relação ao espectro francês e ao europeu. Conceitos são históricos”. Logo depois, e ainda no mesmo tônus, e se na sua visão os conceitos são históricos, ele já lembra: “A diferença está nas costas de quem as botas do extremismo vão pisar e em quem vai lambê-las”.

A política é sempre enganadora para quem a vê sob a luz maniqueísta do amor e do ódio dos seus maus formadores de convicções. O antropólogo Juliano Spyer, estudioso do papel dos evangélicos, a firma que não foi saudável a vitória de Jair Bolsonaro e de Lula nas duas últimas eleições presidenciais. Os evangélicos, em posições extremas, saíram vitoriosos na primeira e derrotados na segunda eleição. Extremismo que não cabe aos evangélicos de um lado ou de outro.

Foram toscos os barbarismos do pastor Silas Malafaia, por exemplo, no ato público em favor da anistia, ao acusar generais de covardes e traidores pelo fato de não concordarem com a trama golpista. Toda posição é legítima. É da essência da política a retórica como campo de luta no embate das ideias, desde Aristóteles. A democracia garante o direito de livre expressão e o dever de ouvir e respeitar as opiniões contrárias. Além desse limite, nenhuma retórica é legítima.

A polarização Lula versus Bolsonaro, pela força, partiu os brasileiros em duas metades e sua maior vítima é o povo evangélico. A parte liderada por figuras celeradas, até apopléticas, acabou substituindo, nos púlpitos, a retórica evangelizadora pela persuasão eivada de interesses que dividem e subalternizam. A Igreja Católica se manteve distante do fragor dos combates. Sabe que a sua tradição de mais de dois mil anos impõe que a fé não tenha dono neste mundo de Deus.

PALCO

JOGO – Foi certeira e competente a decisão de lançar a candidatura ao governo do prefeito de Mossoró, Allyson Bezerra, antes do carnaval. Um fato forte e verdadeiro para ocupar o noticiário.

MAS – Não retira a espada, justa ou injusta, das denúncias saídas das investigações divulgadas pela Polícia Federal. No marketing eleitoral a dúvida joga a vítima a ficar, sempre, na defensiva.

ALIÁS – O marketing quer ser ciência, por usar a comunicação que é de fato ciência, mas é uma técnica com licença para trabalhar a versão e o fato. Com uma mesma forte e ousada intensidade.

TOQUE – Da elegante Constanza Pascolato, quando teve seu apartamento roubado, bem acima do padrão dos espíritos medíocres e dos torneios sociais: “Desejo a quem furtou dinheiro e sorte”.

FOLIÕES – O folclorista Gutemberg Costa mergulhado na pesquisa sobre os grandes foliões de Natal entre os anos dez e sessenta. Depois, vai levantar as moças foliãs que espantavam a cidade.

MILAGRE – Injusto dizer que falta grana nos cofres públicos. O sucesso de São Wesley Safadão substituiu com pão e circo a vida naqueles becos humildes, pobres e sem nomes da velha Redinha.

POESIA – Do poeta peruano César García Ríos, contando, numa prosa poética, sua vida no Rio de Janeiro, onde se declara construtor de sonhos: “O sol entra pela sala e pinta tudo de amarelo”

CENÁRIO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, olhando a cara de pau de alguns falsos zelosos das finanças públicas: “Estamos entre o jeito cretino de uns e a cretinice de outros”.

CAMARIM

SERTÃO – “Feito a Ferro e Fogo no Sertão de Lendas e Incertezas” é o título do novo livro da pesquisadora Adriana Lucena a ser lançado em dezembro. Ela vai revelar a civilização do gado – a cria, a lida, os caminhos, o transporte das boiadas e a alimentação no vasto mundo do sertão.

CIÊNCIA – Para quem ainda acredita que há alguma coisa impossível na política, essa ciência que desafia a lei da gravidade: o senador Ciro Nogueira, líder no governo Bolsonaro, em encontro com Lula, admitiu afastar o PP de Flávio Bolsonaro e aliar-se ao PT, de quem foi o crítico feroz.

MILAGRE – A vida no terceiro milênio – só vivemos um quarto do século – melhorou, mesmo em alguns poucos casos. Na matéria na Folha sobre o câncer de pênis – ceifou três mil nos últimos cinco anos – a ilustração foi a genitália do David, de Michelangelo. A arte faz o feio ficar bonito.

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Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.

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