Vicente Serejo
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Os misteriosos também entoam sua graça. E são assim, quem sabe, a la Kant, feito um imperativo categórico do próprio jeito de ser como vivente na vastidão da alma, a traçar os caminhos por onde a vida vai passar. Outro dia, numa mensagem curta, JLM indicou a leitura de um livro que acaba de ser traduzido no Brasil pela Editora 34. Na crônica a partir do seu texto não fiz referência. Ele, então, na sua rabugem ranhenta, mandou deixar um exemplar. No remetente, o enigma das suas três iniciais: JLM.
Deixei uns dias debaixo da rede, voltado para outras curiosidades mais urgentes, e só depois joguei os olhos nas suas páginas. Tem vários bichos na capa e um título bem assim: “Zoo, ou Cartas Não de Amor’. O autor, Viktor Boríssonovski Chklóvski, é russo de S. Petesburgo e viveu entre 1893 e 1984. Como mentir é feio, aprendi com a minha mãe, e como deve ser pecado sem perdão, devo confessar aos mais atentos que nunca soube do livro e do seu autor. Esses saberes são coisas da personalidade de JLM.
Confesso, também, que além da editora que publicou a primeira edição brasileira nada mais há a dizer, a não ser que o tradutor, Vadim Nikitin, também é russo, de Moscou, e vive no Brasil desde 1976. É formado em Letras pela Universidade de São Paulo e, além de tradutor, segundo o resumo biográfico, é ator, diretor e dramaturgo. Foi quem traduziu “Duas Narrativas Fantásticas: a dócil e o sonho de um homem ridículo”, de Fiódor Dostoiévski, e também é autor de algumas traduções de Marguerite Duras.
‘Zoo, ou Cartas Não de Amor’, se a ignorância deixa dizer, é um romance epistolar com trinta cartas. Do lido, grifado e anotado, restaram alguns frutos que talvez agradem ao leitor desta Cena, tão simples quanto o próprio cronista. Coisas assim, à página 70: “E ser cruel é fácil, basta não amar”. Ou então, e ainda na mesma página, como estivesse vendo a mulher amada em sonho: “Eu a vejo em sonho, e a pego pelas mãos, e a chamo Liússa”. E, num corte rápido e perfeito: “… e caio para fora do sonho”.
Lançado em 1923, em Berlin, Chklóvski tem antevisões incríveis. Está na página 84: “As coisas, sobretudo a máquina, transfiguraram o homem”. E depois: “Agora o homem sabe apenas colocá-las em funcionamento, e elas então seguem adiante sozinhas. Seguem, seguem, e esmagam o homem”. Já no trecho seguinte, faz uma advertência que talvez revele o ponto determinante da crise que o mundo vive: “Na ciência a situação é bem séria. / A necessidade da razão e a necessidade da natureza divergiram”.
Chklóvski é rebuscado no jogo metafórico e nunca se obriga a explicar o que escreve. Como na poética, não há uma só leitura, mas tantas quantos sejam os olhos leitores. À página 102, simplesmente joga no branco: “As cartas ressuscitam, cicatrizam…”. Quase no fim, informa sem temer o julgamento: “Este livro é uma tentativa de sair dos limites do romance comum”. Belo e inesperado, Chklóvski lembra: ‘Quem é amado nunca é culpado”. Ora, quem ama, por suposto, certamente, também não. Será?
PALCO
JOGO – O deputado Adjuto Dias Neto e a vereadora Nina Souza farão uma dobradinha em 2026. Ele para renovar o mandato de deputado estadual e ela para ser deputada federal. A política tem seu método.
OLHO -Do Lobo Guará olhando a cena e lendo as folhas da aldeia “A professora Fátima fez um governo sem planejamento”. Fez uma pausa e, logo a seguir, arrematou, certeiro: “Nem para antever os perigos”.
ESTÁTUA -A professora Nilda, prefeita de Parnamirim, inaugura no próximo dia 17, na cidade, uma estátua de bronze do ex-prefeito de Agnelo Alves. A ideia e sua doação partiram de um grupo de amigos.
ESTRANHO – Há qualquer coisa de pouco lógico no diagnóstico de Alzheimer do general Augusto Heleno. A constatação datada de 2018 revela que ele foi ministro da defesa depois de atestada a doença.
OU… – Seja: sendo portador de Alzheimer, foi responsável pela defesa de uma nação e do seu povo, mas vale agora diante da condenação. Ou aqueles impropérios já eram efeito do alemão roendo a consciência?
CONFRONTO -Foi o jornalista Elio Gaspari, maior historiador do período militar, em cinco volumes, e herdeiro dos arquivos pessoais de Golbery do Couto e Silva, que confrontou as datas na Folha de SP.
POESIA – “Um dos maiores defeitos do amor é que, pelo menos por algum tempo, ele corre risco de nos tornar felizes”. De Alain de Botton, filósofo que popularizou a filosofia nos seus ‘Ensaios de Amor’.
ESTILO – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, cansado da literatice que nos cerca mais a cada dia: “Sem a contundência que a realidade ensina, a literatice louvaminheira nega a própria vida”.
CAMARIM
SAZONAL – Grande e imponente, construído com recursos públicos e projetado por técnicos de costas para o mercado consumidor, o Mercado da Redinha vai ser reaberto durante o verão, como se fosse de uso sazonal. Nesses dias, algum tecnocrata vai inventar um festival de inverno nos mangues do Potengi.
OBRAS – A prática revela: a paralisação das obras é fruto da falta de empenho na busca de recursos que ficaram garantidos pela gestão anterior. A prioridade tem sido outra e, a prova, é o forte volume de novos recursos já conquistados. Em política, há sempre um diabo invisível agindo, mesmo entre bons aliados.
RETRATO – “O real obstáculo a qualquer reforma é político: governantes e legisladores se acovardam diante do lobby poderoso das corporações estatais, sobretudo as da elite ou mesmo conivente, por ideologia ou afinidades por interesses”. Do editorial da Folha de S. Paulo na edição de 30 de nov/2025.
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Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.
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