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    Início » Alimentação: o que você deve comer em cada fase da vida
    Brasil

    Alimentação: o que você deve comer em cada fase da vida

    9 de março de 2026
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    Pessoa oferece uma maçã verde em uma das mãos e um donut rosa na outra.

    Crédito, Getty Images

    Article Information

      • Author, Jessica Bradley
      • Role, BBC Future
    • 8 março 2026

    • Tempo de leitura: 10 min

    Durante a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), o governo do Reino Unido criou uma política de racionamento, que oferecia provisões semanais às famílias britânicas.

    A ideia era permitir que as pessoas satisfizessem suas necessidades nutricionais, garantindo que os alimentos fossem distribuídos igualmente em todo o país.

    Um dos alimentos racionados foi o açúcar. Cada indivíduo podia receber cerca de 227 g do produto por semana. Mas, para sua tristeza, crianças abaixo de dois anos de idade não tinham esse direito.

    Na época, as pessoas mal sabiam, mas este fato histórico ofereceu aos cientistas do futuro uma ótima oportunidade de determinar os efeitos do consumo de açúcar para a saúde na fase inicial da vida.

    Eles descobriram que as crianças expostas a menos açúcar no útero e nos primeiros 1 mil dias de vida apresentaram 20% menos propensão a desenvolver doenças cardiovasculares com mais idade; 25% menos de desenvolver paradas cardíacas; e 31% menos de ter AVC do que crianças que se alimentaram com doces após o fim do racionamento.

    Provavelmente não surpreende que esta forte relação entre a ingestão de açúcar e a saúde persista depois que nascemos. Resumidamente, comer muitos doces faz mal para nós, independentemente da idade.

    Mas, como ocorre com outros alimentos, os benefícios nutricionais dependem do estágio da vida. Bebês e crianças precisam muito da gordura presente no leite integral e seus derivados, por exemplo, mas essa alimentação não seria considerada tão saudável para alguém na casa dos 20 ou 30 anos de idade.

    Para a cientista nutricional Federica Amati, do Imperial College de Londres, as grandes necessidades de energia das crianças fazem com que elas precisem de alimentos ricos em nutrientes.

    Foto em preto e branco de uma cliente mostrando sua caderneta de racionamento para a atendente de uma loja, durante a Segunda Guerra Mundial

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, O racionamento imposto durante a Segunda Guerra Mundial ofereceu aos pesquisadores a oportunidade de estudar os efeitos do consumo de açúcar na infância

    “Na infância, os alimentos estão literalmente construindo o corpo e o cérebro”, explica ela.

    “Além das calorias saudáveis, as crianças também precisam de ferro, iodo e uma ampla variedade de vitaminas para aumentar a imunidade, o desenvolvimento cerebral e o crescimento dos músculos.”

    Isso significa muitas frutas e legumes, grãos integrais, feijões e lentilhas, gorduras de boa qualidade como nozes e sementes e o mínimo de alimentos ultraprocessados.

    “Da concepção até os primeiros 1 mil dias de vida e na idade escolar, as crianças crescem rapidamente e formam a maior parte da sua massa óssea futura”, prossegue Amati.

    “É por isso que o cálcio e a vitamina D são nutrientes prioritários nesta fase. Eles são essenciais para o desenvolvimento normal dos ossos e para atingir um pico saudável da massa óssea, o que reduz o risco de osteoporose e fraturas em idade avançada.”

    Na prática, segundo Almati, isso significa fontes regulares de cálcio, como leite, iogurte, queijo, tofu enriquecido com cálcio ou bebidas vegetais fortificadas, além de vitamina D da exposição ao sol e de alimentos como peixes e ovos.

    Existem boas evidências de que comer os alimentos certos na infância pode beneficiar a saúde na idade adulta.

    Em um estudo de 2023, pesquisadores analisaram a alimentação de crianças e a compararam com sua saúde, tanto na infância quanto ao se tornarem adultos.

    Eles concluíram que as crianças que atenderam a três ou mais recomendações alimentares do Guia Coma Bem do NHS (o serviço público de saúde britânico) aos sete anos de idade apresentaram menos marcadores de risco de doenças cardíacas aos 24 anos, em comparação com as que não seguiram nenhuma das orientações.

    Adolescentes e jovens adultos

    A infância é uma fase importante, mas os alimentos que ingerimos na adolescência e na casa dos 20 anos de idade também formam a base para a saúde no futuro.

    Segundo Amati, é nesta etapa da vida que terminamos de construir os ossos e os músculos e começamos a passar horas estudando, trabalhando e nos socializando. Todas estas atividades aumentam a necessidade de nutrientes.

    “A adolescência e o início da idade adulta formam outra grande janela de oportunidades para a nutrição”, afirma ela.

    “Na casa dos 20 anos, o crescimento perde a velocidade, mas esta ainda é uma década fundamental para estabelecer hábitos que irão proteger a saúde do coração e do cérebro com mais idade. Observamos que grande parte das bases para doenças cardiovasculares já se forma nesta faixa etária, embora os sintomas só apareçam muito depois.”

    Eles incluem cálcio, vitamina D e ferro, que é especialmente importante para a menstruação. Proteínas e vitaminas do complexo B também são importantes, destaca Amati.

    Mas que forma tem essa alimentação?

    Amati explica que os adolescentes e jovens adultos devem seguir uma dieta, em grande parte, à base de plantas e evitar alimentos ultraprocessados. Ou seja, com muitas frutas, verduras, cereais integrais, feijões, nozes, lentilhas e sementes.

    Estudos demonstram que essa alimentação não beneficia apenas o corpo. Ela também pode influenciar a saúde mental.

    A dieta mediterrânea é rica em verduras, legumes, nozes e azeite de oliva, com pequenas quantidades de aves, peixes e laticínios.

    Prato colorido de legumes, sementes e queijo, no estilo mediterrâneo

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, A dieta mediterrânea aparentemente protege a saúde mental, segundo especialistas

    A dieta mediterrânea também pode beneficiar homens e mulheres que desejem formar família, o que costuma acontecer na casa dos 20, 30 e 40 anos.

    Estudos demonstram que a dieta mediterrânea pode influenciar positivamente a fertilidade. Já a dieta ocidental (que tende a ser rica em gorduras saturadas, carne e carboidratos brancos) é correlacionada à infertilidade masculina e feminina.

    Meia-idade

    Na meia-idade, devemos começar a pensar em otimizar nossa alimentação para termos saúde na idade avançada, segundo a professora de nutrição humana Elizabeth Williams, da Universidade de Sheffield, no Reino Unido.

    Isso vale principalmente para as mulheres perto da menopausa, “quando há perda acelerada de densidade óssea, sarcopenia [perda muscular relativa à idade] e osteoporose“, explica ela.

    Mas, na menopausa, o fluxo de estrogênio no corpo é menor. Por isso, o peso e a gordura visceral tendem a aumentar.

    Em um estudo populacional recente, pesquisadores examinaram a alimentação e a saúde de mais de 100 mil homens e mulheres americanos com pelo menos 39 anos de idade.

    Eles concluíram que uma dieta saudável, consistindo de frutas, verduras, cereais integrais, gorduras insaturadas, nozes, legumes e laticínios com baixo teor de gordura, é fortemente associada ao envelhecimento saudável, definido como viver até pelo menos 70 anos sem doenças crônicas, boas funções físicas e cognitivas e com boa saúde mental.

    Conjunto de alimentos saudáveis sobre uma mesa

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, Cientistas relacionaram a alimentação saudável na meia-idade ao envelhecimento saudável

    “À medida que as mulheres chegam à casa dos 40 e 50 anos de idade, surgem duas grandes prioridades nutricionais: a saúde cardíaca e a saúde dos ossos e músculos”, segundo Amati.

    “A transição da menopausa é associada a um forte aumento do risco cardiovascular, em parte porque a perda de estrogênio afeta os lipídios do sangue, os vasos sanguíneos e a distribuição da gordura do corpo.”

    As gorduras ômega-3 são úteis, especialmente os tipos encontrados em peixes gordurosos, como salmão e cavalinha. Elas reduzem os fatores de risco de doenças cardíacas, segundo Almati, e apresentam efeitos anti-inflamatórios.

    Paralelamente, Amati recomenda leve aumento da ingestão de proteínas, para combater os efeitos da perda de massa muscular, e seguir dieta em estilo mediterrâneo, para melhorar a saúde cardiometabólica — e, possivelmente, também a saúde intestinal e mental.

    Por fim, ela orienta que é importante buscar uma alimentação em estilo mediterrâneo variada e rica em vegetais, com quantidades suficientes de proteína, cálcio, vitamina D e ômega-3 para manter a saúde do coração, ossos e cérebro, limitando a ingestão de alimentos ultraprocessados.

    Idade avançada

    À medida que envelhecemos, a composição do nosso corpo se altera e as necessidades de energia diminuem. Por isso, necessitamos de menos calorias.

    Mas ainda precisamos garantir a ingestão de nutrientes em quantidade suficiente para manter nossa resistência óssea e muscular.

    Segundo Williams, os dois principais nutrientes na terceira idade são o cálcio e a vitamina D. Idosos que não conseguem esses dois nutrientes em quantidade suficiente apresentam risco maior de osteoporose e fraturas por fragilidade.

    O cálcio é encontrado no leite e em bebidas fortificadas alternativas, queijo curado, iogurte, sardinhas, tofu e espinafre. Alimentos ricos em vitamina D incluem peixes gordurosos, gema de ovo e alimentos fortificados.

    A ingestão de proteínas com qualidade suficiente também é muito importante à medida que envelhecemos, segundo a nutricionista Jane Murphy, uma das líderes do Centro de Pesquisa em Envelhecimento e Demência da Universidade de Bournemouth, no Reino Unido.

    “À medida que envelhecemos, a nossa forma e as funções se deterioram, perdemos força e massa muscular e precisamos de proteína para evitar a sarcopenia”, explica ela.

    Mas, para garantir que o nosso corpo use a proteína adequadamente, ela deve fazer parte de uma dieta equilibrada, que inclua carboidratos, gorduras de boa qualidade (como gorduras insaturadas, incluindo azeite de oliva, abacate, nozes e peixes gordurosos), vitaminas e sais minerais, destaca Murphy.

    Idosa comemorando 100 anos de idade no quintal de casa com a família

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, ‘As pessoas que vivem até os 100 anos parecem desafiar muitos aspectos do envelhecimento’, segundo a professora de medicina geriátrica Mary Ni Lochlainn

    Conforme envelhecemos, nossa microbiota também muda. Ela é marcada pela perda de bactérias benéficas, como Firmicutes e Bifidobacterium, e pelo aumento de espécies potencialmente prejudiciais, como Clostridium.

    Os pesquisadores ainda não sabem ao certo a relação entre a microbiota intestinal e cada processo de doença específico. Mas podemos aprender muito com os centenários, segundo a professora de medicina geriátrica Mary Ni Lochlainn, do King’s College de Londres.

    “As pessoas que vivem até os 100 anos parecem desafiar muitos outros aspectos do envelhecimento que são comuns às demais pessoas”, explica ela. “Elas têm microbiota diversa, que parece diferente dos outros idosos.”

    De forma geral, não existe uma definição de bactérias intestinais saudáveis ou não saudáveis. É mais questão de ter um equilíbrio de micróbios que trabalham juntos para promover a saúde.

    Mas foram identificadas algumas espécies bacterianas específicas que parecem proteger a saúde, como Faecalibacterium prausnitzii.

    As pessoas que envelhecem bem são muito mais propensas a ter F. prausnitzii, segundo Ni Lochlainn. Os pesquisadores determinaram que esta espécie tem qualidades protetoras positivas, mas eles não entendem ao certo como ela funciona.

    Se você quiser incentivar F. prausnitzii a viver no seu intestino, a melhor forma é consumir uma alimentação rica em fibras e polifenóis, que são abundantes em frutas e verduras.

    O intestino saudável também pode ajudar a gerenciar algumas das deficiências de nutrientes que podem ser associadas à idade avançada, pois os idosos têm menos capacidade de absorver as vitaminas dos alimentos que as pessoas mais jovens.

    Uma microbiota intestinal saudável também pode ajudar a evitar o risco de perda muscular e sarcopenia entre os idosos.

    Por fim, certos suplementos podem ser benéficos na terceira idade.

    As pesquisas de Ni Lochlainn indicam que suplementos pré-bióticos — compostos naturais que incentivam o crescimento de micro-organismos benéficos — podem melhorar a cognição em idosos após um período de 12 semanas.

    Os pré-bióticos de Ni Lochlainn contêm inulina (um tipo de fibra alimentar) e fruto-oligossacarídeos, que são açúcares encontrados nas plantas.

    Outras pesquisas indicam que as pessoas idosas podem se beneficiar de suplementos de vitamina D, especialmente os que moram em casas de repouso.



    Notícia publicada originalmente por BBC Brasil
    em nome do autor .

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