Felipe Salustino
Repórter
Em 2025, o transporte de mercadorias no RN por cabotagem – modal de navegação que transporta cargas entre portos de um mesmo país – cresceu cerca de 250% no comparativo com o ano anterior, de acordo com dados da Agência Nacional de Transportes Aquaviários (Antaq). No período analisado, as movimentações por meio desse tipo de transporte saíram de pouco mais de 427 mil toneladas para 1,5 milhão. Ainda assim, a participação do estado nas movimentações do Nordeste é pouco expressiva, de apenas 2,4%. Dados do Ministério de Portos e Aeroportos (MPor) com base em informações da Antaq, apontam que a região movimentou 60,7 milhões de toneladas por cabotagem em 2025.
No ano passado, segundo o MPor, a maior parte da movimentação se concentrou em quatro estados da região, os quais responderam, juntos, por 91,6% de tudo o que passou pelos portos nordestinos via cabotagem: Bahia, com 15,3 milhões de toneladas; Maranhão, com 14,6 milhões; Ceará, com 12,9 milhões; e Pernambuco, com 12,8 milhões de toneladas.
Klaus Jardim, diretor comercial da Braslog, empresa especializada em transporte de cargas com sede em Macaíba, na Grande Natal, afirma que há um fator principal que inviabiliza a cabotagem no RN.
“Considerando que o navio vem e volta, o ponto central é a chamada cabotagem de retorno. O que acontece é que tem carga para trazer para cá, mas não tem mercadoria para levar daqui a outras regiões. Esse é um problema que afeta especialmente o Porto de Natal, uma vez que o sal é o principal produto que utiliza a cabotagem, mas sai de Areia Branca. Então, os navios não querem atracar por aqui”, analisa Jardim.
De acordo com a Antaq, no ano passado, o sal foi o produto com maior movimentação por cabotagem no RN, com 1,4 milhão de toneladas transportadas (ou 93,3% do total) pelo terminal marítimo de Areia Branca. Klaus Jardim aponta a necessidade de investimentos nesse tipo de transporte sob a justificativa de barateamento do setor logístico em todo o País. “Para o transporte rodoviário é preciso investir em estradas, enquanto que o ferroviário requer a construção de ferrovias. Esses são investimentos caros, mas, para a cabotagem não é preciso construir nada no mar”, afirma.
“A cabotagem, portanto, é o sistema de logística mais viável e mais barato para qualquer país. No Brasil, esse tipo de transporte não funciona porque falta estratégia e decisão política. Todas as cidades no mundo que se desenvolveram fizeram investimentos em portos. Acho que não somente o RN, mas o Brasil como um todo conseguiria resolver boa parte dos problemas logísticos se investisse na modalidade”, complementa.
RN fora das rotas de grandes empresas de cabotagem
O presidente da Federação das Indústrias do RN (Fiern), Roberto Serquiz, afirma que o estado está fora das rotas das grandes empresas de logística em cabotagem no Brasil. Segundo ele, os portos de Suape (PE) e Pecém (CE) são as bases para atendimento das empresas e indústrias potiguares atualmente.
Serquiz pontua que a infraestrutura portuária do RN é o principal fator de contribuição para o cenário. “Desde 2024, a Fiern busca articular com empresas logísticas nacionais e indústrias locais a inserção do Porto de Natal como ponto de parada nas rotas pré-existentes, encontrando, todavia, a barreira da limitação da infraestrutura portuária, que diz respeito a investimentos necessários em dragagem, defensas e scanner e balança”, pontua.
Para Marcelo Queiroz, presidente da Fecomércio RN, os desafios da cabotagem no estado são semelhantes aos enfrentados pela logística rodoviária, especialmente no que se refere à infraestrutura e à concentração econômica. Queiroz avalia que há um número restrito de produtos com potencial de obter vantagem competitiva por meio do transporte marítimo, como o sal e os combustíveis produzidos no litoral Norte.
“Pelas características de volume e localização, esses produtos apresentam maior viabilidade para a cabotagem”, descreve. Em razão disso, de acordo com ele, é preciso modernizar os terminais, a fim de fortalecer esse tipo de transporte e expandir a utilização dele para demais produtos. “A ampliação e modernização de portos e terminais ao longo da costa potiguar são apontadas como medidas necessárias para fortalecer a modalidade. Trata-se de uma agenda que exige articulação com o Governo Federal com vistas à atração de novos aportes e à melhoria da competitividade logística do estado”, diz Queiroz.
Necessidade de integração logística com o interior
O presidente da Federação da Agricultura e Pecuária do RN (Faern), José Vieira, também classifica a estrutura portuária local como um dos entraves para a utilização da cabotagem. Segundo ele, a modalidade tem potencial para fortalecer a competitividade logística do RN e apoiar o desenvolvimento de cadeias agropecuárias, mas é preciso maior integração logística com o interior e ampliação da escala de movimentação de cargas.


“O agronegócio exige infraestrutura logística específica, como áreas de consolidação de cargas, pátios de contêineres refrigerados e estruturas de apoio para produtos perecíveis que ainda são limitadas no estado”, fala Vieira. Ele analisa que a cabotagem pode contribuir para reduzir custos logísticos e ampliar a competitividade da produção agropecuária do RN, especialmente em cadeias voltadas para mercados nacionais, tendo com um dos principais benefícios a redução do custo de transporte de insumos agrícolas, que podem chegar ao estado por via marítima a custos menores.
“Isso tende a diminuir o custo de produção e melhorar a competitividade de atividades importantes para o estado, como fruticultura, horticultura e outras cadeias agropecuárias”, comenta. Ainda segundo Vieira, a cabotagem pode facilitar o escoamento da produção para grandes centros consumidores, sobretudo no Sudeste e em outros polos do Nordeste. “Produtos como frutas, pescado e derivados agropecuários podem alcançar esses mercados com maior regularidade logística e menor custo por tonelada transportada”, indica Vieira, enquanto defende a integração do estado a hubs logísticos nacionais, como Suape, Pecém e Salvador.
Programa BR do Mar alterou as regras do setor
Os dados do MPor com base na Antaq indicam que, dentre os produtos mais transportados por cabotagem no Nordeste em 2025 estão o petróleo (13,3 milhões de toneladas), contêineres (12,5 milhões de toneladas), derivados de petróleo (11,7 milhões de toneladas), bauxita (9,8 milhões de toneladas) e minério de ferro (4,3 milhões de toneladas). A movimentação de contêineres demonstra, segundo o órgão, a diversidade econômica da região.
Entre os destaques estão arroz, produtos químicos e celulose (papel e cartão), evidenciando que a cabotagem atende tanto grandes cadeias industriais quanto o abastecimento alimentar e comercial. O desempenho, de acordo com o MPor, está associado às medidas do Programa BR do Mar, que modernizou regras e ampliou a segurança regulatória do setor.
Para o secretário nacional de Hidrovias e Navegação, Otto Luiz Burlier, o avanço decorre da previsibilidade trazida pelo programa. “Ao garantir estabilidade regulatória, fortalecemos a cabotagem como alternativa estratégica na matriz de transportes e ampliamos sua contribuição para o desenvolvimento regional”, destacou.
O Programa BR do Mar foi instituído por meio da Lei nº 14.301/2022, e estabelece isenção do Adicional ao Frete para Renovação da Marinha Mercante (AFRMM) para cargas com origem ou destino em portos do Norte e Nordeste, reduzindo diretamente o custo do frete marítimo na região.
NÚMEROS
Movimentação por cabotagem no NE em 2025/ em toneladas
BA: 15,3 milhões
MA: 14,6 milhões
CE: 12,9 milhões
PE: 12,8 milhões
RN: 1,5 milhão
Fontes: MPor e Antaq
Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.
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