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- Author, Laura Bicker
- Role, Correspondente da BBC News na China
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Tempo de leitura: 8 min
A China não está sendo afetada diretamente pela guerra no Oriente Médio — até agora. Mas está sentindo as ondas de choque.
No curto prazo, o país tem reservas de petróleo suficientes para vários meses. E, depois disso, Pequim poderá pedir ajuda para a vizinha Rússia.
Mas a China irá calcular o que isso pode significar a longo prazo, não apenas para os seus investimentos no Oriente Médio, mas também para suas ambições globais.
Pela primeira vez desde 1991, o governo chinês reduziu suas expectativas de crescimento econômico, apesar do seu rápido desenvolvimento em alta tecnologia e indústrias renováveis.
Agora, Pequim enfrenta a perspectiva de convulsões no Oriente Médio, que oferece as suas principais rotas de navegação e abastece grande parte das suas necessidades de energia.
Quanto mais tempo se arrastar a guerra, maiores serão os prejuízos, especialmente se o tráfego pelo Estreito de Ormuz permanecer bloqueado.
“Um período prolongado de turbulência e insegurança no Oriente Médio prejudicará outros setores importantes para a China”, segundo Philip Shetler-Jones, do centro de estudos britânico Instituto Real de Serviços Unidos de Estudos de Defesa e Segurança (Rusi, na sigla em inglês).
Ele destaca que “as economias africanas, por exemplo, têm se beneficiado de fluxos constantes e substanciais de capitais do Golfo”.
“Se a onda de investimentos desaparecer, haverá o risco de aumento da instabilidade, o que prejudica a sustentabilidade dos interesses chineses maiores e de longo prazo.”
Ou seja, a pegada global da China faz com que seus investimentos e mercados além do Oriente Médio também fiquem vulneráveis à continuidade da guerra. E, como tantos outros países, a China está atenta a este novo período de imprevisibilidade.
“Acho que a China pensa da mesma forma que todo mundo”, segundo o professor Kerry Brown, do King’s College de Londres. “Qual é o plano de jogo? Certamente, os americanos não entraram nisso sem um planejamento.”
“Mas, como todo mundo, provavelmente eles também estão pensando ‘oh, meu Deus, eles realmente entraram nisso sem plano nenhum'”, prossegue Brown.
“‘Certo, não queremos ser arrastados para isso, como não queremos ser arrastados para nada, mas também precisamos fazer algo.'”
Amigos não tão próximos
Muitos no Ocidente sempre consideraram o Irã “aliado” da China. E, com certeza, os dois países têm sido amigáveis entre si.
A última viagem para o exterior do ex-líder supremo do Irã, o aiatolá Ali Khamenei (1939-2026), foi para Pequim, em 1989. Ele chegou a ser fotografado na Grande Muralha da China.
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A parceria entre os dois países se aprofundou quando Xi Jinping visitou Teerã em 2016. E ambos assinaram uma parceria estratégica de 25 anos em 2021.
A China prometeu investir US$ 400 bilhões (cerca de R$ 2,1 trilhões) no Irã ao longo de 25 anos. Em troca, o Irã manteria o fluxo de petróleo para Pequim.
Mas analistas acreditam que apenas uma fração daquele dinheiro chegou aos iranianos. E o fluxo de petróleo foi mantido.
A China importou do Irã 1,38 milhão de barris de petróleo por dia em 2025, segundo o Centro de Política Energética Global. O volume representa cerca de 12% do total das importações chinesas de petróleo bruto.
Grande parte deste volume teria sido remarcada como de origem malaia, para ocultar sua origem.
O centro de pesquisa da Universidade Columbia, nos Estados Unidos, publicou um relatório afirmando que há mais de 46 milhões de barris de petróleo iraniano em armazenagem flutuante na Ásia.
E existe ainda mais em armazenagem restrita, aguardando liberação da alfândega, nos portos chineses de Dalian e Zhoushan, onde há tanques alugados pela empresa National Iranian Oil Company.
Existem também acusações de vendas de armas entre os dois países.
A China nega ter vendido a Teerã mísseis de cruzeiros antinavios, mas a inteligência americana acusou Pequim de apoiar o programa iraniano de mísseis balísticos, treinando engenheiros e fornecendo componentes.
Grupos defensores dos direitos humanos afirmam que a brutal repressão do Irã contra manifestantes e críticos do regime foi alimentada pela tecnologia chinesa de vigilância e reconhecimento facial fornecida por Pequim.
Com tudo isso, pode parecer que os dois países são grandes amigos. As manchetes dos tabloides chegaram a reunir a China e o Irã em um “eixo da revolta”, ao lado da Coreia do Norte e da Rússia.
Os quatro países desejam questionar a ordem mundial liderada pelos Estados Unidos. Mas, na verdade, seu relacionamento é transacional.
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“Não há motivos reais, sejam eles culturais ou ideológicos, para que a China tenha amizade com o Irã”, segundo o professor Brown.
“O Irã, em alguns momentos, serviu bem à estratégia chinesa de quase ‘dividir para conquistar’, por ser uma irritação constante para os Estados Unidos”, explica ele.
“Por isso, acho que existem principalmente razões negativas para a China querer manter relações com o Irã, mais do que positivas.”
“Esta é uma base muito frágil para um relacionamento e funcionou até certo ponto. Mas não era uma relação muito profunda”, afirma o professor.
A China não considera suas “alianças” da mesma forma que o Ocidente. O país não assina tratados de defesa mútua e não virá correndo em auxílio ao seu aliado.
Na verdade, Pequim pretende ficar de fora de qualquer tipo de conflito.
China observa
Isso não significa que a China não esteja profundamente preocupada com o que está acontecendo no Oriente Médio.
Pequim emitiu uma condenação tênue e previsível ao conflito, convocando um cessar-fogo entre as partes.
O ministro das Relações Exteriores da China, Wang Yi, afirmou ser “inaceitável que os Estados Unidos e Israel lancem ataques contra o Irã… ainda mais para assassinar flagrantemente o líder de um país soberano e instigar a mudança do regime.”
Nas duas ocasiões, Pequim se manteve à margem como observador, incapaz de ajudar os países que se encontram na sua órbita.
A China tenta se posicionar como “contrabalanço responsável” aos Estados Unidos, explica Philip Shetler-Jones, mas, “em termos de equilíbrio militar, os EUA demonstram o que realmente significa ser uma superpotência, que é a capacidade de forçar resultados em qualquer cenário pelo mundo”.
Para ele, Pequim não é “uma superpotência do mesmo nível”, apesar do seu poderio econômico. “A China não está preparada para proteger seus amigos contra este tipo de ação, mesmo se quisesse.”
Para combater estas preocupações, Xi continuará se posicionando como um líder global estável e previsível, em contraste com Donald Trump.
“O argumento da China será que Donald Trump, mais uma vez, demonstrou além de qualquer dúvida a extensão da hipocrisia ocidental e do discurso do Ocidente sobre a ordem internacional liberal”, afirma o professor Steve Tsang, diretor do Instituto China da Escola de Estudos Africanos e Orientais (SOAS, na sigla em inglês) da Universidade de Londres.
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As paralisações do fornecimento de energia e das viagens aéreas causadas por este conflito terão “ramificações econômicas muito maiores no Sul Global do que no Ocidente”, segundo Tsang.
“Alguns países sofrerão falta de alimentos em alguns meses… e serão países do Sul Global. Também estamos observando a ruptura da aliança ocidental, com o Reino Unido e a Espanha sendo escolhidos para críticas.”
Pequim também pode observar uma possibilidade de ajudar a mediar os diálogos com outros países.
O ministro do Exterior Wang Yi já conversou com seus homólogos de Omã e da França. A China anunciou que irá destacar um enviado especial para o Oriente Médio.
A iminente visita de Trump
A China também pisa com cautela porque um dos maiores fatores para o país é o intempestivo presidente americano, que deve chegar a Pequim para uma reunião muito aguardada ainda este mês.
Nenhuma das críticas chinesas aos ataques israelenses e americanos ao Irã foi dirigida diretamente a Donald Trump, o que pode facilitar um pouco os apertos de mãos durante o encontro.
Alguns especularam se a visita ainda vai mesmo acontecer. Mas existem sinais de que ela continua programada.
Autoridades dos dois lados devem se reunir para discutir a viagem, segundo a agência de notícias Reuters.
Para Shetler-Jones, a China pode considerar esta oportunidade como uma chance de “procurar indicações” sobre como Trump pode reagir a outros pontos de conflito, como a questão de Taiwan, a ilha autogovernada reivindicada por Pequim.
“À medida que esta guerra se mostrar impopular, ela poderá contribuir para a tendência cada vez maior de ‘restrição’ na política externa e de segurança dos Estados Unidos.”
“Se for colocada em ação por um governo futuro, esta tendência poderá oferecer à China maior liberdade para buscar seus interesses na sua própria região e no planeta como um todo”, afirma ele.
A crise atual apresenta a alguns na China a oportunidade de rotular Washington como país promotor de guerras, algo que o Exército de Libertação Popular chinês já fez nas redes sociais.
Mas ter um agente tão “disfuncional e imprevisível” pode ser uma fonte de inquietação para Pequim, segundo Brown.
“Não acho que a China queira um mundo dominado pelos EUA, mas eles certamente não querem um mundo em que os Estados Unidos sejam um participante tão instável”, conclui o professor.
Notícia publicada originalmente por BBC Brasil
em nome do autor .
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