Práticas rotineiras dentro de casa, muitas vezes encaradas como inofensivas ou até corretas, podem estar contribuindo silenciosamente para o aumento de doenças transmitidas por alimentos no Brasil. É o que revela um estudo conduzido por pesquisadores da Universidade de São Paulo (USP) e publicado no periódico científico Food and Humanity. A pesquisa acende um alerta sobre erros frequentes na compra, no armazenamento e no preparo dos alimentos.

Entre os hábitos mais preocupantes identificados estão lavar o frango antes de cozinhar, descongelar carnes fora da geladeira e secar as mãos em pano de prato reutilizado. Atitudes simples, mas que favorecem a contaminação cruzada por bactérias e outros microrganismos.

O levantamento foi realizado a partir de um questionário online respondido por cerca de 5 mil pessoas, de diferentes regiões do país. “As perguntas abordavam comportamentos relacionados à compra, ao armazenamento e à manipulação de alimentos no dia a dia”, explica a cientista de alimentos Emília Maria França Lima, da Faculdade de Ciências Farmacêuticas da USP, uma das autoras do estudo.

Dados que preocupam

Os resultados mostram que uma parcela significativa da população ainda ignora cuidados básicos de higiene alimentar. Apenas 38% dos entrevistados afirmaram higienizar corretamente frutas, legumes e verduras antes do consumo. Além disso, 17% relataram consumir ovos crus ou malcozidos, prática associada ao risco de infecção por salmonela. Outro dado alarmante é que 11,2% das pessoas disseram guardar sobras de comida apenas depois de duas horas do preparo, período considerado crítico para a proliferação de bactérias.

Segundo a Organização Mundial da Saúde (OMS), as chamadas doenças transmitidas por alimentos (DTAs) afetam cerca de 600 milhões de pessoas todos os anos no mundo. Os sintomas variam de diarreia e vômitos a quadros mais graves, especialmente em crianças, idosos, gestantes e pessoas com imunidade baixa.

O perigo mora nos detalhes

De acordo com os especialistas, muitos dos erros acontecem por desinformação ou por hábitos culturais passados de geração em geração. Lavar carnes cruas, por exemplo, é uma prática comum em muitos lares brasileiros, mas totalmente desaconselhada. Isso porque a água espalha microrganismos presentes na superfície do alimento pela pia, utensílios e mãos, aumentando o risco de contaminação.

Outro ponto crítico é o uso prolongado de panos de prato. Quando úmidos e mal higienizados, eles se tornam verdadeiros reservatórios de bactérias, contaminando mãos, louças e alimentos prontos para consumo.

Prevenção começa na cozinha

Com base nos achados do estudo e em recomendações de órgãos de saúde, especialistas listam estratégias simples, mas eficazes, para reduzir os riscos à saúde no preparo das refeições:

  1. Leve bolsa térmica ao supermercado, principalmente para carnes, laticínios e congelados.
  2. Observe as condições dos alimentos congelados, evitando produtos com embalagens danificadas ou sinais de descongelamento.
  3. Lave bem as mãos com água e sabão antes e durante o preparo dos alimentos.
  4. Troque os panos de prato com frequência ou utilize papel toalha para secar as mãos.
  5. Não lave carnes cruas, como frango e carne vermelha.
  6. Tenha cuidado com a tábua de corte, separando uma para alimentos crus e outra para alimentos prontos.
  7. Capriche na higienização de frutas e hortaliças, usando água corrente e solução sanitizante adequada.
  8. Descongele carnes sempre na geladeira, nunca em temperatura ambiente.
  9. Não recongele alimentos que já foram descongelados.
  10. Organize a geladeira, mantendo alimentos crus separados dos cozidos.
  11. Evite demorar para guardar a comida pronta, refrigerando-a em até duas horas após o preparo.

Informação como aliada da saúde

Para os pesquisadores, a divulgação de informações claras e acessíveis é fundamental para mudar comportamentos e reduzir a incidência de doenças alimentares. “São cuidados simples, que não exigem grandes investimentos, mas fazem toda a diferença para a segurança dos alimentos e a proteção da saúde”, reforça Emília Lima.

O estudo evidencia que, dentro da própria cozinha, pequenas mudanças de hábito podem representar um grande avanço na prevenção de riscos invisíveis, mas potencialmente graves.



Notícia publicada originalmente por Luciana
em nome do autor LUCIANA NOVAIS.

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