Cláudio Emerenciano
Professor da UFRN

As coisas da vida mudam constantemente em sua forma. Modificam-se no mesmo ritmo da vertente dos tempos. Mas sua essência, conteúdo e substância possuem natureza e dimensão semelhantes ao próprio sentido da Criação, do mundo e da vida: são imutáveis, inesgotáveis e insuperáveis. Estão em contínua, crescente e infindável expansão. A vida humana, sendo assim, não tem limites. Não se submete às aparências das coisas efêmeras, passageiras e finitas. A percepção, o entendimento e a explicação dessa realidade transcendental emergem da alma, do coração, do íntimo e dos sentimentos de cada pessoa. Eis a relação que Jesus Cristo identificou exclusivamente no amor entre a criatura e o Criador: “Amarás ao Senhor teu Deus de todo o coração, de toda a alma e de todo o entendimento” (Mateus 22, 37). Mas as relações humanas também possuem um elo só, verdadeiro, legítimo, projetando a humanidade nos caminhos de sua ascensão sem fim: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo” (Mateus 22, 39). Todas as religiões monoteístas, não somente as cristãs, em 1986, reunidas em Assis (Itália), sob inspiração do Papa João Paulo II, proclamaram essas verdades (mandamentos) como as vias de sublimação da condição humana.

Em tudo na vida se descortina um sentido que excede à sua visualização objetiva, palpável ou externa. Os sentimentos são insubstituíveis para o ser humano alcançar tudo “além do horizonte”. Não basta contemplar o nascer do sol. Encantar-se com a variedade de cores da aurora. Sentir o hálito frio da manhã que desponta. Ouvir os primeiros acordes dos pássaros madrugadores. O tom do choro de uma criança, que acorda faminta. Ou, ainda, como Romeu, comparando sua felicidade e o arrebatamento do seu amor com a explosão de vida no alvorecer. Desde o cântico da cotovia ao ruído plácido das águas do rio. Das primeiras borboletas, que encobriam a relva úmida da primavera. Algo mais. Que é a eternidade da convergência de tudo com Deus.

Os homens não podem perder a consciência do essencial. Em 1943, com o mundo dilacerado por uma guerra sem limites, Antoine de Saint-Exupéry lançava em Nova York “O Pequeno Príncipe”. Um livro para todas as idades. Dirigido especialmente às crianças que ainda habitam os corações dos adultos. Até hoje, o livro vendeu mais de 200 milhões de exemplares. Em quase todos os idiomas, incluindo chinês e japonês. É dedicado a Léon Werth, seu maior amigo. Escritor como ele. Na época, por ser judeu, estava preso em campo de concentração. Sobreviveu milagrosamente. O mundo era uma chaga só de fogo, morte, violência, atrocidades indescritíveis e inimagináveis, medo, terror, miséria e barbarismo. Eis por que, até hoje, o “Pequeno Príncipe” sintetiza e suscita o que se deve buscar, revelar e desfrutar num humanismo. Na redenção do homem através de sua inserção no real sentido da vida e na prática do amor. O “Pequeno Príncipe” volta a explodir em vendas. Pessoas, em todo o mundo, recolhidas ao anonimato, perdidas, atônitas e aturdidas no turbilhão de violências e incertezas destes tempos, buscam reencontrar-se na fé e em ensinamentos que germinam a esperança. Como esse: “Tu te tornas eternamente responsável por aquilo que tu cativas”. Fundamentos de laços sem fim…

A alma do nosso tempo ainda não se revelou. É refém da estupidez. Circunstâncias em que governantes medíocres e insensatos a garroteiam e a sufocam. Há uma crise de confiança. Os sonhos e os ideais são submetidos por interesses que se realimentam de guerras, lucros e poder. O “Pequeno Príncipe” reanima a consciência da humanidade. Sua volta às livrarias é, talvez, um novo começo. Um alento. Ainda bem!



Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.

Acesse a matéria completa

Compartilhar.
Exit mobile version