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    Rio Grande do Norte

    A casa como extensão do corpo: espaço vivido e identidade

    6 de março de 2026
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    Dom João Santos Cardoso
    Arcebispo de Natal

    A Campanha da Fraternidade 2026, com o tema “Fraternidade e Moradia” e o lema “Ele veio morar entre nós” (Jo 1,14), convida-nos a compreender a moradia não apenas como estrutura material, mas como espaço vivido. A casa é mais do que abrigo: é extensão do corpo e condição da identidade.

    O filósofo francês Maurice Merleau-Ponty (1908-1961), em Fenomenologia da Percepção, sustenta que o corpo não é um objeto que possuímos, mas o modo como estamos no mundo. Ele fala do “corpo próprio” como centro da experiência. Não habitamos o mundo de fora; nós o vivemos corporalmente.

    Essa perspectiva ilumina o sentido da casa. O espaço não é neutro nem meramente geométrico. Ele é vivido através do corpo. Caminhamos, tocamos, abrimos portas, sentamo-nos à mesa. A moradia organiza nossos gestos, nossos ritmos, movimentos e nossa percepção. Caminhar por um quarto, abrir uma janela, sentar-se à mesa, tudo isso não são apenas ações funcionais, mas modos corporais de estar-no-mundo.

    Merleau-Ponty afirma que o corpo constrói um “esquema corporal”, uma estrutura sensível pela qual nos orientamos no espaço. Com o tempo, a casa integra-se a esse esquema. Movemo-nos nela quase sem pensar; reconhecemos seus cantos, suas luzes e seus sons. A moradia torna-se prolongamento do próprio corpo.

    Nesse sentido, a casa participa da formação da identidade. É no espaço doméstico que a criança aprende a orientar-se, a distinguir proximidade e distância, proteção e exposição. A estabilidade do lar sustenta a confiança fundamental na vida; a instabilidade habitacional, ao contrário, gera insegurança corporal e emocional.

    Na linha dessa reflexão, a casa pode ser compreendida como uma espécie de “segunda pele”. Assim como a roupa protege e expressa a identidade de quem a veste, a moradia envolve a pessoa, resguarda sua intimidade e manifesta sua história. Nela se guardam memórias, afetos, símbolos e tradições. A casa fala de quem a habita; é extensão do corpo e expressão da identidade.

    O Texto-Base da Campanha da Fraternidade 2026 recorda que milhões de pessoas vivem em moradias precárias ou em situação de rua. À luz do pensamento de Merleau-Ponty, essa realidade atinge o núcleo da experiência humana. Sem um espaço estável, o corpo permanece em estado de alerta, e a percepção do mundo torna-se marcada por tensão e descontinuidade.

    Habitar é, portanto, um ato corporal. É pelo corpo que sentimos o calor do ambiente, a firmeza do chão, a proteção das paredes. Quando esse espaço falta, fragiliza-se também a experiência de pertencimento. O ser humano passa a viver em condição de desenraizamento sensível.

    O lema da Campanha – “Ele veio morar entre nós” – ilumina essa reflexão. A encarnação significa que o Filho de Deus assume um corpo e, com ele, um espaço vivido. Jesus cresce numa casa concreta, partilha a vida doméstica, aprende gestos e relações. O mistério cristão confirma que o habitar corporal é lugar de dignidade e revelação.

    Promover moradia digna é, portanto, garantir estabilidade existencial. É assegurar que cada pessoa tenha um espaço onde sua identidade amadureça, seus vínculos se fortaleçam e seu corpo encontre repouso.

    Cuidar da moradia é cuidar da própria experiência humana de estar no mundo. Defender esse direito é proteger o corpo, a identidade e o desenvolvimento integral da pessoa.

    Os artigos publicados com assinatura não traduzem, necessariamente, a opinião da TRIBUNA DO NORTE, sendo de responsabilidade total do autor.



    Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
    em nome do autor Redação Tribuna do Norte.

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