Vicente Serejo
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Há dois mundos em todos os mundos do mundo. Não é um simples pleonasmo a adornar a frase. É assim na política, economia, artes e artimanhas. Quem avisa não é o cronista, bicho besta dessa beira de rio, entre morros de ventos que também uivam em noites misteriosas. É de Lou Andreas-Salomé, a tão famosa psicanalista, nascida em São Petesburgo, Rússia, em 1861, e que fechou os olhos, para sempre, em 1937, em Gottingen, na Alemanha, aos 76 anos, e consagrada.
Por aqui, confesso, só há um único livro seu: a tradução dos dois ensaios – “Reflexões sobre o Problema do Amor’, e ‘O Erotismo’, tradução de Antonio Daniel Abreu, edição Land, SP, 2005. Nada mais. Lou Andreas-Salomé, como expressa o próprio tradutor, lutou por um amor feminino com os mesmos direitos do amor masculino. Uma luta que não é fácil até nos dias de hoje, quando a mulher perde a vida por ser mulher numa estatística dura e galopante, principalmente no Brasil.
Os seus dois mundos são definidos claramente: “O primeiro, é formado por aquilo que nos é homogêneo, simpático, familiar; o segundo, pelo que nos é estranho, insólito, hostil”. Fiquemos aqui, se não é diretamente o amor e o desamor que nos interessam, mas o maniqueísmo que impõe a todos essa luta do bem contra o mal. Pior: de um mal que se faz de bem e de um bem que se faz de mal, e vice-versa, em um ritmo de alternância no qual todos são bons e maus ao mesmo tempo.
Pior que a ambiguidade de se ser o bem e o mal, simultaneamente, é que o jogo não muda de resultado. É o mesmo do mundo colonial. Os fortes, em quaisquer circunstâncias, continuam fortes e os fracos também. Talvez tenhamos uma novidade: o populismo é o mesmo, mas agora sem saída para a modernidade. Lula cumpriu seu papel como líder sindical e líder nacional na hora mais dura do regime militar, mas não fez do PT uma escola, isto ao longo de vinte anos de poder.
A Direita, no seu conservadorismo sem lastro, também não soube construir-se como uma verdadeira alternativa para a modernidade. De Fernando Collor passamos a Michel Temer e, deste, a Jair Bolsonaro. E sem que o campo da Direita, apesar de empresários vitoriosos nos seus campos de atuação, encontrassem um líder de verdade. Irão às ruas levando o andor de Flávio Bolsonaro, adiando, sem uma previsão e sem controle, a formação de um líder que os represente de verdade?
Mantido o quadro, continuaremos ambíguos, alternada e simultaneamente recorrentes, com dois mundos iguais. Basta notar que o Centrão, em qualquer das duas hipóteses, será o grande aliado do vencedor. A perdurar o jogo dos dois mundos, com o Centrão como o fiel da balança sempre em nome da governabilidade, o nosso mundo não será aquele das afeições. Será aquele outro, que Lou Andreas-Salomé descreveu como “estranho, insólito e hostil”. Era só e até amanhã.
PALCO
AVISO – Quem vender ao prefeito Paulinho Freire a ideia de que a solução dos efeitos da engorda de Ponta Negra é uma obra simples prestará grave desserviço a ele mesmo e a todos os natalenses.
DESAFIO – A engorda está certa como solução para recuperar a praia, um ícone de Natal na cena turística, mas exige um redimensionamento das redes de esgotos e drenagens das águas pluviais.
MEMÓRIA – O novo livro de Joventina Simões, presidente do Instituto Histórico, é a história do médico Percílio Simões, seu pai, que hoje nomeia o Hospital de Ceará-Mirim, onde viveu e atuou.
MODELO – Dr. Percílio, como era tratado, foi um comunista convicto que exerceu a medicina a serviço principalmente dos mais humildes como um médico de carreira do Ministério da Saúde.
GESTO – A decisão do bloco ‘Se parar eu Caio’, no seu cortejo carnavalesco deste ano, dia 10 próximo, pela décima-primeira vez, no dia 11, será uma homenagem ao seu fundador, Cláudio Porpino.
HUMOR – Do Lobo Guará, direto do Senadinho: “Ainda bem que os prefeitos de Nova Iorque, Londres e Paris não ouvem Alex e Moniquinha. Eles morreriam de inveja do progresso de Natal”.
POESIA – Fragmento de um diálogo de Charlene, personagem de Paula Lopes Ferreira, no livro ‘Despaixão’, de impressões existenciais, ed. ‘Seja Breve’, S. Paulo: “Todos são capazes de voltar”.
POBREZA – De Nino, o filósofo melancólico do Beco da Lama, no tédio das decepções com a política: “Os chefes substituíram os líderes e as paixões sinceras foram devoradas pelos negócios”.
CAMARIM
LUTA – Algumas fontes ouvidas por esta coluna concordam com a tese de que não será tão fácil para o candidato Allysson Bezerra quando sair às ruas com seu andor conduzido pela força velada dos representantes dos grupos familiares que, no passado recente, foram vistos como oligarquias.
EFEITO – O fato pode caracterizar sua retórica como retorno ao passado, fixando a posição do ex-prefeito Álvaro Dias com marca de renovação. Mesmo diante da tintura bolsonarista certamente por apoiar a Flávio, filho de Jair Bolsonaro. O União Brasil não pode alegar nem independência.
DÚVIDA – Por todas os erros no caso da Operação Lava-Jato e as reações diante da condenação dos golpistas, o Intercept Brasil quebrou a mesmice da cobertura do escândalo do Banco Master com uma indagação que não é de resposta fácil: “O Brasil quer mesmo investigar as suas elites?”.
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Notícia publicada originalmente por Tribuna do Norte
em nome do autor Redação Tribuna do Norte.
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