Nos dias seguintes à divulgação dos resultados do Enem 2025, não foram poucos os relatos de candidatos que já haviam prestado o exame em outros anos e viram suas notas decaírem muito na redação desta edição. Embora não haja confirmação de uma queda generalizada nas notas, uma vez que o Inep (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisas Educacionais Anísio Teixeira) ainda não divulgou os dados oficiais, a percepção era de que algo poderia ter mudado na correção, com novos parâmetros ou orientações não divulgadas pelo instituto. Documentos sigilosos apurados pelo portal G1 e publicados nesta quinta-feira (5) corroboram a teoria.
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A partir das documentações obtidas, além de trocas de e-mails e depoimentos anônimos de corretores de redação do Enem, o veículo indica que houve, sim, mudanças nas orientações para correção da redação. Procurado, o Inep nega qualquer alteração.
O portal identificou três novas regras de correção, que seriam o suficiente para alterar a nota final nos textos dos candidatos. A primeira seria uma mudança na competência 4, sobre o uso de elementos e expressões coesivas; a segunda, um aumento de penalidade na competência 5; e a terceira, talvez a mais impactante, um diálogo entre a avaliação do repertório sociocultural da competência 2 na competência 3. À reportagem, os corretores ouvidos afirmam que essa foi a principal causa da queda das notas.
Entenda abaixo quais são as essas mudanças e os documentos que corroboram para a denúncia.
Alteração nº 1: operadores argumentativos na competência 4
Elementos ou expressões coesivas são palavras usadas para ligar ideias e organizar o raciocínio do texto, garantindo fluidez e progressão lógica entre as frases e parágrafos. Termos como “dessa forma”, “além disso”, “porém”, “portanto”, “nesse sentido” e “consequentemente” são exemplos que indicam causa, consequência, contraste ou conclusão, ajudando o leitor a entender como os argumentos se relacionam e evitando que a redação pareça fragmentada ou desconexa.
Cada uma das cinco competências na redação do Enem vale 200 pontos, subdivididos em itens de 1 a 5 que valem 40 pontos cada. A competência 4 é a responsável por analisar o uso de conectivos e operadores argumentativos no texto.
Até o Enem 2024, levava 4 na avaliação (ou seja, 160 pontos) o texto que tivesse a presença constante de elementos coesivos intra e interparágrafos, de tipo “operador argumentativo”, em pelo menos 1 momento do texto.
Já a nota 5 (200 pontos) era reservada ao candidato que fizesse a mesma coisa, mas em pelo menos 2 momentos do texto e, pelo menos, com 1 elemento dentro de todos os parágrafos. Ou seja, era feita uma avaliação basicamente numérica da presença desses elementos, com pouco espaço para subjetividades.
Na redação do Enem 2025, apontam corretores, essa métrica mudou, ficando menos precisa. A frequência de elementos coesivos intra e/ou interparágrafos continuou como parâmetro, mas ao invés de números exatos, a avaliação se limitou aos termos “regular”, “constante” e “expressiva”.
Se antes a presença dos elementos coesivos era medido apenas entre os pontos 4 e 5 da avaliação, passou a ser avaliado também na casa dos 3 pontos, no caso daqueles que atingissem apenas a métrica “regular” – sem uma especificação exata do que seria isso.
Alteração nº 2: maior punição na competência 5, na proposta de intervenção
Na proposta de intervenção, avaliada pela competência 5, o candidato deve finalizar o texto apresentando uma solução para o problema discorrido ao longo da dissertação. Pode ser a criação de uma lei, algum projeto social, campanhas de conscientização etc.
É de obrigação nessa parte da redação responder a cinco perguntas que sintetizam a proposta:
- Ação (o quê?);
- Agente (quem?);
- Modo (como?);
- Finalidade (para quê?);
- Detalhamento (explicação e/ou exemplo)
Até a edição anterior, cada uma dessas perguntas era avaliada em 40 pontos igualmente. No Enem 2025, uma nota de rodapé na grade de correção alterou essa regra, afirmando que o candidato que não incluísse especificamente o item “ação” perderia não mais 40 pontos, mas sim o triplo, 120 pontos.
Alteração nº3: repertório sociocultural em duas competências
Entre as cinco competências, a de número 2 é a responsável por avaliar a compreensão do tema, adequação ao tipo textual e ao uso do repertório sociocultural. Como já é sabido dos estudantes, repertório sociocultural é o conjunto de referências externas usadas para sustentar os argumentos do texto. São fatos históricos, dados, autores, livros, filmes, leis, entre outros, que devem ser pertinentes ao tema e aparecer de forma contextualizada, e não apenas como citações soltas.
Na competência 2, a banca avalia se essas referências realmente ajudam a desenvolver a argumentação e demonstram domínio de conhecimento de mundo.
Como comunicado no Manual do Candidato do Enem 2025, os chamados “repertórios de bolso” ou “repertórios coringa” seriam um ponto de atenção na correção deste ano, diminuindo pontos do estudante que citasse uma referência genérica de modo não agregador ao texto – embora, em outros anos, este já fosse um critério subentendido, já que todo repertório deve ser conectado ao argumento e tema.
O que o G1 apurou foi que, após o treinamento presencial dos corretores, um documento adicional foi enviado aos profissionais, alterando a avaliação do repertório em um outro quesito não divulgado antecipadamente pelo Inep.
Segundo o portal, esse documento afirmava que a produtividade do repertório sociocultural deveria dialogar diretamente com a competência 3, que avalia a capacidade do candidato de selecionar, interpretar e relacionar informações para sustentar seu ponto de vista. Ou seja, caso o candidato citasse um repertório considerado inadequado ou não-produtivo pelo corretor, perderia ponto não apenas em uma, mas em duas competências.
Inep nega alterações
Pouco dias depois da divulgação das notas, em 16 de janeiro, diversos veículos como G1 e Folha de S. Paulo procuraram Manual Palacios, presidente do Inep, que negou qualquer alteração nos parâmetros de avaliação. “Não houve nenhuma mudança no critério de correção. São os mesmos corretores e a mesma instituição aplicadora [Cebraspe]. A equipe de capacitação é daqui do Inep e usou os mesmos critérios”, disse em janeiro.
Em nota, o Ministério da Educação (MEC) também reafirmou a integridade da correção dos textos, “garantindo equilíbrio, justiça e tratamento isonômico a todos os participantes”. O texto relembra que uma mesma redação passa por, pelo menos, dois corretores afim de ceifar quaisquer divergências.
O sentimento entre os estudantes, no entanto, é de frustração, e de que, justo na vez deles, a correção ficou mais rigorosa. O sentimento é inflamado também por conta das alterações no sistema de inscrições do Sisu (Sistema de Seleção Unificada), que passou a permitir nesta edição o uso da nota do Enem de edições passadas — neste ano, as de 2023 e 2024.
Ou seja, o que os candidatos do Enem 2025 argumentam é que concorreram com outros que tiveram uma correção de redação mais branda em anos anteriores.
[Matéria em atualização]
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Notícia publicada originalmente por Enem – Guia do Estudante
em nome do autor Luccas Diaz.
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