INDICAÇÃO DE ALEJANDRO CHACOFF
Um dos paradoxos da globalização é seu provincianismo. O mundo nunca esteve tão conectado, e ao mesmo tempo nunca pareceu tão indiferenciável. Lugares em extremos opostos do planeta são tratados com o mesmo tipo de jargão gastronômico, a mesma curiosidade banal e pecuniária. Quanto custa alugar uma casa ali, de frente para o mar? Com quantos dólares se faz uma compra de mercado? Influenciadores vagam, de Atenas a Zanzibar, filmando decotes na rua e provando os mesmos doces e sanduíches.
Não devo ser o único sedento por relatos de viagens mais inspirados, que evoquem a nossa multiplicidade e o frisson de deixar um país ou continente em busca de outro. O escritor italiano Alberto Moravia é taciturno, ocasionalmente chauvinista, e possui um esnobismo europeu incorrigível. Mas seus relatos de viagens em Américas têm a qualidade crucial de serem só seus, produtos de uma inteligência senciente que mistura precisão observacional e elaborações teóricas às vezes duvidosas, mas nunca entediantes. Organizada e traduzida para o português por Adriana Marcolini, a coletânea publicada pela Cosac reúne 42 textos que Moravia escreveu para a imprensa italiana sobre suas viagens pelo continente americano. O artigo mais antigo é de 1936; o mais recente, de 1970. Há relatos sobre os Estados Unidos, México, Cuba, Guatemala, Bolívia, e Brasil.
Os prédios cinzentos no ar límpido de Nova York geram uma ilusão de unidade e organização, mas trata-se de uma “cidade oriental, levantina, babilônica. […] Como um corpo enorme em que não existe nada além dos aparelhos digestivos, Nova York engole lindas mulheres inocentes, inteligências lúcidas, materiais preciosos como madeiras raras […] e devolve prostitutas, livros de insípida vulgarização, horríveis jornais escandalosos e cem mil objetos, do arranha-céu ao lenço, todos efêmeros, provisórios e fabricados em série.” Sobre uma parada de trem na fronteira mexicana: “Descia-se nessas estações para estirar um pouco as pernas; soprava um vento baixo e sibilante como o que existe apenas nos territórios despovoados, onde o vento parece ser o dono e o único morador.” Observando a matança industrial de animais em Chicago, Moravia escreve: “Um boi saído do estábulo pelo cabresto do camponês [..] provoca só pena, mas milhares de bois reunidos dentro das fileiras de estacas de Stock Yard à espera do golpe do facão e, imediatamente depois, à espera das várias máquinas produtoras que dividirão a carne em muitos vidros alegremente multicoloridos, fazem refletir e inspiram um sentimento de vazio e de arrepio paradoxal.”
Os textos têm o gosto dos relatos de viagens sinceros, despachados durante uma bebida no hotel, ao entardecer, depois de um dia cansativo de andanças. Para o leitor brasileiro, é um exercício interessante se enxergar através dessas lentes. As imagens do nosso país às vezes surpreendem. Brasília, vista do avião no ano de sua fundação, em 1960, leva Moravia a “pensar em um monte de bifes ensanguentados expostos no balcão de um açougueiro”. Mas o olhar estrangeiro também nos tira do conforto da familiaridade, gerando um novo tipo de apreciação pelos arredores. Escrevendo sobre Belo Horizonte e o “fascínio melancólico da antiga sociedade colonial” encontrado nas sacristias, Moravia define o azulejo como “uma das mais belas criações da civilização ibérica” – não por causa da inspiração religiosa, mas sim pelo “sopro humanista, tão amável e floreado: mitos gregos e romanos, história sacra, vida dos santos, tudo está coberto por um manto renascentista, iluminado pelo Sol do Mediterrâneo e transformado em aventura humana.”
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Notícia publicada originalmente por revista piauí
em nome do autor felipe.fernandes.
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