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    Piauí

    O tempo, o livro, a raça

    4 de março de 2026
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    A resposta à pergunta “a presença das escritoras negras no mercado editorial brasileiro é irreversível?”, que me fazem com frequência, é simples e direta: “Sim, mas há condicionantes.” Para iniciar a minha argumentação, recorro a uma abordagem de Bernardine Evaristo – escritora inglesa de ascendência nigeriana – que guarda grande semelhança com a nossa realidade. À indagação “e o que você pensa sobre esse frenesi do mercado em torno das escritoras negras?”, Bernardine responde o seguinte:

    Temos sempre de ser cautelosas, jamais complacentes, e nunca ter grandes expectativas, especialmente diante dos eventos recentes. Não podemos esperar que o progresso sempre venha seguido de mais progresso, porque há forças que tentarão nos arrastar de volta. Esse retrocesso é o que chamamos de backlash [reação negativa a mudanças sociais ou políticas]. É o backlash do progresso. Sou positiva, mas, ao mesmo tempo, sei que não podemos ter isso como garantido. Especialmente alguém como eu, que escreve há muito tempo. Testemunhei pequenas aberturas acontecendo no passado que depois se fecharam. Agora, parece que as pessoas de cor estão mais inseridas na cultura britânica. Mas isso pode mudar. Quando a mulher se torna poderosa, o patriarcado masculino branco sente como se estivesse sendo discriminado, o que não é verdade. Eles continuam no comando de todas as grandes corporações e instituições, além de seguirem controlando a sociedade. Quando as mulheres têm muito poder e visibilidade, eles sentem que é demais…

    Embora a autora enfatize a condição das mulheres de modo geral, podemos realizar uma leitura específica a partir da experiência das mulheres negras, considerando os agravamentos produzidos pela interseccionalidade das discriminações que incidem sobre nós. Bernardine Evaristo abriu caminhos importantes de compreensão sobre o tema, mas prefiro um percurso mais direto e objetivo. As condicionantes para nossa permanência no mercado editorial (brasileiro, em especial) estão relacionadas a três macrofatores: primeiro, a pressão social em torno da ideia e das demandas de diversidade e representatividade das mulheres negras em todos os espaços; segundo, a escrita de um texto que se sustente por si só, ou seja, que tenha o que se reconhece como qualidade literária; e, terceiro, a capacidade, tanto da escritora quanto das casas editoriais, de articular-se e transitar pelas instâncias decisórias de poder e de legitimação de trajetórias literárias, tais como: prêmios, feiras e festas de livros, bienais, crítica e imprensa literária, jornalismo cultural, clubes de pares influentes, entre outras.

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    Equilibrar esses três elementos é um exercício arriscado de malabarismo, considerando que apenas uma parte desse triângulo – a execução de um texto literário consistente e convincente – depende exclusivamente da escritora. No entanto, mesmo essa atribuição, inerente a quem escreve, exige um conjunto de condições para sua concretização, especialmente o chamado tempo mental, o qual, por sua vez, depende de uma vida material minimamente estável para manter a cabeça saudável e fresca. Portanto, mesmo o elemento aparentemente autônomo da equação apresenta ressalvas. Além disso, não se pode desconsiderar que, em um mercado editorial de cartas marcadas, um bom texto, sozinho, pode não garantir muita coisa.

    O debate sobre diversidade e representatividade tem forçado portas e janelas para a entrada de pessoas pertencentes a grupos subalternizados em espaços que historicamente as excluem ou invisibilizam. No campo artístico, e em particular no literário, essa inclusão costuma estar circunscrita às pautas políticas desses grupos. Ou seja, espera-se, e muitas vezes exige-se, da escritora negra um mergulho nas temáticas raciais e de gênero. Pouco importa se ela quiser escrever sobre mares, marés, amores, bicicletas, borboletas, boxe, futebol, entre tantas outras possibilidades.

    A representatividade também sofre de certa sazonalidade, em outras palavras, depende da pressão exercida por modelos estrangeiros de diversidade sobre as empresas, meios artísticos e culturais, e suas contrapartes locais. As pessoas consideradas “diversas” se alternam conforme a pauta da vez: ora os que mandam querem destacar indígenas, ora pessoas negras, ou trans e travestis, a depender da planilha de metas já alcançadas e das exigências restantes para sustentar uma imagem progressista.

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    No caso dos conglomerados editoriais nacionais com capital estrangeiro, parece prevalecer a seguinte lógica: “Se contar até dez, pega; aquele ali conta até oito, pega também; até sete, tudo bem; até seis e meio, vai, pega.” Eles sabem que algumas autoras vão “dar errado”: o marketing da empresa não se empenhará na divulgação do livro, a autora terá de trabalhar muito mais do que suas colegas brancas para promover a obra, entre outros descasos que, inevitavelmente, levarão muitas ao naufrágio. Mas, ao final, ninguém poderá acusá-los de omissão ou de falta de investimento. A culpa será nossa. Assim, eles terão cumprido sua cota de apoio às minorias ou às “causas identitárias”. 

    O terceiro fator, isto é, a capacidade de se articular e transitar pelas instâncias decisórias de poder e legitimação, é ainda mais intrincado e dependente de agentes externos. Há clubes e igrejinhas literárias completamente fechados. Outros, com alguma permeabilidade, abrem-se apenas o suficiente para cumprir a cota de diversidade e representatividade que lhes garante uma fachada progressista.

    As condicionantes, portanto, formam um osso duro de roer. Nossa presença no mercado editorial é incontornável, mas seremos poucas a permanecer, porque, de nós, a branquitude cobra um desempenho altíssimo (às vezes sobre-humano) para que possamos acessar o básico, os lugares mais iniciais. Não acontecerá conosco o que se viu com autoras brancas que, ainda jovens, no fim dos anos 1990 e início dos anos 2000, foram apostas fortes de grandes editoras. Muitas delas não vingaram, deixaram de publicar pelas grandes, mas encontraram abrigo em casas editoriais menores. Estão aí até hoje: ministram oficinas literárias, lecionam em universidades, compõem júris de concursos, definem e chancelam o que se entende como literatura vencedora. Fazem crítica literária e cobertura jornalística; atuam nas editoras em diversas funções. São, portanto, atrizes centrais na definição e na consolidação de um entendimento de literatura contemporânea.

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    As intempéries, a falta de apoio e de lastro familiar, econômico e hereditário tornam as escritoras negras, e a população negra em geral, mais suscetíveis à volatilidade do tempo. A gente desaparece rápido, apesar do que tivermos construído, porque o presente não enxerga o que erguemos enquanto somos presença que respira. Talvez nos descubram no futuro. Basta ver os exemplos de Carolina Maria de Jesus, Lélia Gonzalez, Beatriz Nascimento, Virgínia Bicudo. O futuro ainda deve descobrir, e eternizar, Luiza Bairros, Fátima Oliveira… Que elas tenham o espaço e o reconhecimento à altura do que construíram, embora saibamos que o tempo racializado é crudelíssimo conosco.

     


    Este texto faz parte do livro Quando as borboletas furiosas se tornam mulheres negras, que a autora lança em março pela editora Relicário.

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    Notícia publicada originalmente por revista piauí
    em nome do autor Luigi Mazza.

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