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    Piauí

    Os méritos de Valor sentimental

    4 de fevereiro de 2026
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    Ao estrear em maio de 2025 no Festival de Cannes, Valor Sentimental recebeu o Grande Prêmio, segundo em importância, depois apenas da Palma de Ouro, vencida por Foi Apenas um Acidente, de Jafar Panahi. Nos meses seguintes, o filme de Joachim Trier participou de festivais mundo afora, entre eles o do Rio e a Mostra Internacional, em São Paulo, recebeu mais de quarenta prêmios e está indicado para concorrer em nove categorias do Oscar, cuja cerimônia acontecerá em 15 de março. De acordo com as previsões da Variety e The Hollywood Reporter, ele poderá ser premiado como Melhor Filme Internacional, e Stellan Skarsgård, como Ator Coadjuvante pelo papel do veterano cineasta Gustav Borg. 

    Filmado em película 35mm ao longo de doze semanas (duração superior à usual no Brasil), com orçamento de produção estimado em 7,8 milhões de dólares (acima também do padrão brasileiro), Valor Sentimental teve, até agora, faturamento bruto de aproximadamente 18,6 milhões de dólares no mercado mundial. Trata-se de uma merecida carreira triunfal, acompanhada de inúmeras entrevistas do diretor e do elenco, além de vasta fortuna crítica – tendo se tornado difícil evitar a impressão de que não há mais nada a dizer sobre Valor Sentimental, fora tudo o que já foi dito.

    No Brasil, porém, onde o filme estreou no circuito de cinemas em 25 de dezembro, Valor Sentimental não parece ter obtido recepção à altura de sua categoria ímpar, tendo chegado, inclusive, a ser tratado com desdém, tão inusitado quanto revoltante, por um crítico do Rio. Lançado em 88 salas, nos primeiros quatro dias em exibição Valor Sentimental foi visto por 20.062 espectadores, com média de 228 ingressos vendidos por cinema, segundo os dados do portal Filme B. E após seis semanas em cartaz, reduzido o circuito a 64 salas, acumulou público de 143.126 – resultado inversamente proporcional à alta qualidade do produto oferecido. Confirma-se, dessa maneira, a anomalia, tanto do público de cinema quanto da mídia, das empresas distribuidoras e dos exibidores. Uns resistem a serem atraídos até mesmo para assistir a um filme excepcional, e os demais nem sempre tratam com o cuidado devido um produto de valor maior do que costuma ser oferecido pelo mercado.

    Filmes não se diferenciam uns dos outros apenas pelos respectivos enredos, embora a relevância das tramas seja crucial. A singularidade de Valor Sentimental é fruto dos recursos de linguagem utilizados, ou seja, da maneira de contar a história e criar seus personagens. É nesses quesitos que o filme de Trier se distingue e se engrandece, ao harmonizar com maestria, a partir do roteiro escrito por ele e Eskil Vogt, de um lado, encenação, direção de arte e filmagens requintadas, com, de outro, conflitos pessoais e familiares da atriz Nora Borg (Renate Reinsve), da historiadora Agnes Borg Pettersen (Inga Ibsdotter Lilleaas) e de Gustav Borg, pai viúvo de ambas.

    Na panorâmica de abertura do prólogo de Valor Sentimental, há copas de árvores em primeiro plano, edificações de uma grande cidade ao fundo e os principais créditos que vão sendo sobrepostos, acompanhados pela versão original de Terry Callier do melancólico soul/folk Dancing Girl, do qual os primeiros versos voltam a ser ouvidos pouco antes do final do filme. É o tipo de música que “poderíamos dizer que se aproxima das que são fáceis de ouvir”, Trier disse a Margaret Talbot, que escreveu um perfil seu para a revista The New Yorker. O texto foi publicado em novembro de 2025. “Mas eu gosto de poder pegar música soul e torná-la leve, criar leveza com cordas e assim por diante. Eu gosto desse dinamismo nos filmes também — luz e cores agradáveis, mas, no fundo, uma tristeza real”, Trier acrescentou.

    Os últimos versos de Dancing Girl reproduzidos no prólogo são Follow the dancing girl (Siga a dançarina)/ Go to the quiet place (Vá para o lugar tranquilo)/ Here in the weary world (Aqui nesse mundo exausto)/ Somewhere between time and space (Em algum lugar entre o tempo e o espaço)/ We shall be free (Seremos livres)…

    No plano seguinte, vemos a casa onde a família Borg morou, sendo possível dizer que, além de ser sobre duas irmãs e a relação delas entre si e com o pai, Valor Sentimental é também a história dessa casa muito especial que “evoca a cabana de um conto de fadas” e “ressoa alegrias e tristezas de gerações sucessivas”, conforme Talbot escreveu. 

    A narração esparsa, na voz em off da atriz Bente Borsum, e que só intervém em momentos chave do filme, relata no prólogo a tarefa que Nora recebeu quando era adolescente: escrever uma redação do ponto de vista de um objeto. Ao escolher a perspectiva da própria casa da família, “ela se perguntou como a casa preferia estar, vazia e leve ou cheia e pesada; se o chão gostava de ser pisado; se as paredes sentiam cócegas; se já tinha sentido dor”. O pai havia dito que “a casa tinha um defeito descoberto logo após ficar pronta há um século” e a fenda de alto a baixo em uma parede corrobora esse comentário. Era “como se a casa estivesse afundando, desmoronando, só que em câmera lentíssima”, Nora escreveu. Aqui resumidos, os 4 minutos iniciais do filme chegam ao fim com o título sobreposto à imagem da parede rachada.

    A segunda sequência do filme é separada do prólogo por cerca de 2 segundos de frames pretos. Intervalos breves como esse pontuam Valor Sentimental – separam as sequências entre si e acentuam o caráter fragmentário da linguagem do cinema, baseada que é, afinal, na seleção e combinação de segmentos descontínuos de espaço e tempo. Além disso, essas micropausas tornam mais difícil para o espectador se deixar envolver pela fluidez ilusória à qual filmes em geral aspiram.

    Isolada em seu camarim, depois nos bastidores do teatro, Nora está em pânico, incapaz de entrar em cena por algum tempo. O pavor paralisante da personagem revela outra faceta criativa de Trier – a liberdade de incorporar aos personagens situações vividas por ele ou pessoas de sua família. Em uma conversa depois da exibição de Valor Sentimental no Lincoln Center, durante o 63º Festival de Nova York, em outubro do 2025, Trier disse:

    Para ser sincero, e talvez haja alguns cineastas ou escritores por aí que reconheçam isso, ou talvez não porque são mais brilhantes do que nós, muitas vezes entramos em pânico quando começamos a escrever, porque por um tempo sentimos que não seremos capazes de fazer outro filme e que não temos nada para contar, e esse pânico nos leva a um estado de mais pânico ainda e esse pânico acaba desencadeando a criatividade.

    O medo de não ter nada para dizer ou de entrar em cena é ratificado adiante no filme quando Gustav confessa seu incômodo e cansaço a Michael (Jesper Christensen), produtor do filme que estão preparando, por não deter controle da produção, conforme estava habituado. Da parte de Gustav, certo desalento e temor pairam na conversa, por mais que ele procure se mostrar senhor de si:

    G: Não estou acostumado. Costumo estar no controle. E, quando não estou, até me divirto. Entende?

    G: Cercaram a pradaria com arame farpado. Sou o último maldito moicano. E o [diretor de fotografia] novato não para de me enviar referências visuais. Ai, que saudades do Peter [Lars Varinger, diretor de fotografia aposentado, amigo de Gustav]. Quando ele ficou tão frágil? [off] Estou exausto, Michael. O que aconteceu? Há quinze anos, eu tinha 55 anos.

    M: Talvez você tenha razão. Talvez estejamos velhos demais. Esse pode ser nosso último filme juntos. Só não me diga que você precisa acompanhar os tempos ou algo assim. Prometa. Esse tema… Sabemos que você já trabalhou com ele antes. Mas você nunca o confrontou dessa forma antes. De forma tão pura. Tão pessoal. Está bem, foram necessários todos esses anos para chegar aqui. Mas você vai fazer esse maldito filme. E faça do seu jeito. Entendeu?

    Gustav (Stellan Skarsgård) e Nora (Renate Reinsve) — Crédito: Divulgação

    Trier transpõe e incorpora a Valor Sentimental a experiência pessoal de seu avô na sequência em que Agnes vai ao arquivo nacional norueguês para ler o dossiê sobre a prisão de sua avó Karin Irgens (Vilde Søyland) e ver fotografias de reconstituições de torturas que ela sofreu quando foi presa, em 1943, pelos alemães que ocuparam a Noruega a partir de 1940. Agnes lê em silêncio: “Apertaram as braçadeiras até eu gritar. O interrogador me atou a um fogão. Estava muito quente. Eles me bateram com uma vara. Doeu muito. A dor durou meses.”

    “Trier fez uma peregrinação semelhante para ver os arquivos de seu avô”, escreveu Talbot na New Yorker: “‘Foi extremamente emocionante ver a ficha de prisão’, ele disse. ‘E imaginar o quão assustado ele estava. Ele era um jovem que estudava direito, alguém que acreditava em uma sociedade livre e estava vivendo em condições terríveis sob um regime totalitário nazista. E ele perdeu muitos amigos.’”

    Trier diz a Talbot que “às vezes as pessoas criticam meus filmes por serem sobre pessoas mais privilegiadas e por não serem comentários sociais sobre o modo que a sociologia e a classe afetam as pessoas. Mas para me defender eu teria uma pequena discordância. Diria que as diferentes classes também têm diferentes problemas” – “desafios espirituais e psicológicos aos quais eu creio que vale mesmo a pena dar atenção. São questões com as quais eu me preocupo muito.”





    Notícia publicada originalmente por revista piauí
    em nome do autor Luigi Mazza.

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