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    Piauí

    A COP30 em um mundo imprevisível

    1 de novembro de 2025
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    O alarme foi disparado em março deste ano por Günther Tallinger, membro do Conselho da Allianz SE: caso o aquecimento global mantenha seu ritmo atual, o capitalismo poderá se tornar inviável. Vindo de um representante de uma das maiores seguradoras do planeta, o aviso não se restringe aos descalabros ambientais e eventos extremos que estão se intensificando. O que está em risco, disse Tallinger, é também a nossa capacidade de projetar cenários futuros – algo central para o funcionamento dos mercados, sobretudo o de seguros.

    O raciocínio é simples. A atividade securitária depende, fundamentalmente, da capacidade de estimar riscos – e, com isso, calcular possíveis perdas, computar o valor das apólices, dos prêmios, e assim por diante. Essa premissa elementar, contudo, vem sendo comprometida pelas mudanças no planeta, que geram mais incertezas do que os nossos modelos conseguem prever. A frequência e a intensidade dos eventos climáticos dependem de um número cada vez maior de variáveis, fazendo com que seja quase impossível precificar o risco futuro.

    As enchentes no Rio Grande do Sul, em maio de 2024, ilustram esse processo. O volume atípico de chuva que caiu no estado interrompeu o funcionamento de subestações elétricas, deixou regiões inteiras sem energia e paralisou hospitais, assim como redes de transporte e de abastecimento de água. O desmantelamento desses sistemas urbanos mostrou que as redes de infraestrutura das cidades brasileiras estão expostas a uma ameaça sistêmica para a qual não foram preparadas. O colapso de energia elétrica em uma importante metrópole do país não decorreu de ataque externo, falha humana ou sabotagem, mas de um fenômeno climático antecipado por muitos estudos – e, ainda assim, subestimado em sua potência destrutiva.

    Subestimamos com frequência os riscos ao nosso redor. A ocorrência de uma pandemia como a de Covid, embora se costume dizer que foi imprevista, havia sido antecipada por especialistas. A maior surpresa não foi a emergência sanitária, mas a sua escala e os seus desdobramentos econômicos e políticos. Governos recorreram a pacotes trilionários de estímulos, endividamento futuro e socorro a setores estratégicos. O mesmo método tem sido aplicado à crise climática, mas com uma diferença fundamental: a vacina para intervir nos problemas atmosféricos depende de uma transformação sistêmica da sociedade, de modo a zerar as emissões de gases poluentes.

    O colapso ambiental não é um evento pontual, e sim um processo. Compreender isso deve ser o ponto de partida para que possamos reagir adequadamento ao problema.


    Nos últimos anos, seguradoras vêm se retirando de regiões que consideram ser inviáveis para negócios, como a Califórnia. O que antes era risco se tornou incerteza. Essa distinção, proposta pelo economista americano Frank Knight há um século, continua relevante ainda hoje: o risco é mensurável; a incerteza, não. A transformação imposta pelas mudanças climáticas borrou essa fronteira, de modo que tem sido muito mais difícil avaliar o futuro a partir do passado.

    Tragédias como as de Mariana (2015) e Brumadinho (2019), por mais espantosas que tenham sido, ainda puderam ser processadas pelo sistema de responsabilidade legal e securitária. Terremotos no Japão, mesmo os mais catastróficos, são previstos nos códigos de construção civil, nos sistemas de alerta e nas apólices. Já o colapso climático não tem localização, data ou escala fixa. Seus impactos são simultâneos, interdependentes, transfronteiriços. A seca que reduz o nível de reservatórios pode ser seguida por uma tempestade que destrói a usina hidrelétrica. Um deslizamento em área urbana pode prejudicar redes de esgoto, água, energia, transporte e comunicação, como se fossem peças de dominó caindo uma depois da outra.

    A modelagem de risco usada pelos setores financeiro, de seguros e de infraestrutura parte da suposição de que o mundo é estável o suficiente para que o futuro possa ser convertido em números confiáveis. Ao colocar em xeque essa premissa, a crise climática afeta diretamente a sustentabilidade de negócios que dependem de continuidade – como empresas de concessão de energia elétrica, água e saneamento, transporte público ou resíduos sólidos.

    Tome-se como exemplo o litoral do Ceará, onde os sinais da crise climática são gritantes. Trechos de praia desapareceram, e a faixa costeira tem sofrido reconfigurações aceleradas. Algumas comunidades já perderam moradias, ruas e estruturas públicas. A erosão, antes tratada como um fenômeno lento e natural, se intensificou com o avanço do nível do mar, consequência do aquecimento global. Ao mesmo tempo, 100% do território do Ceará está sujeito a desertificação e 11,45% já foi extremamente afetado por esse processo, segundo estimativa de 2018 da Fundação Cearense de Meteorologia e Recursos Hídricos (Funceme). O avanço da aridez, combinado ao uso intensivo do solo, compromete cadeias produtivas inteiras, pressiona os sistemas de abastecimento e reconfigura os padrões de ocupação do território.  

    No Brasil, mais de 8,9 milhões de pessoas, em 1,9 mil municípios, vivem em áreas de risco sujeitas a inundações, enxurradas e deslizamentos, de acordo com dados compilados em 2023 pelo governo federal. Muitas dessas pessoas moram em periferias urbanas precarizadas, locais que, a cada evento extremo, funcionam como sensores do colapso climático em escala humana. Não se trata mais de um fenômeno exclusivamente ambiental, e sim de um problema urbano, fundiário, econômico e jurídico.

    A situação nos impõe dilemas tecnológicos para os quais não há resposta fácil. A energia nuclear de nova geração, defendida por lideranças como Bill Gates, tem sido apresentada como uma alternativa para produzir energia limpa em larga escala. Mas a rejeição pública, os resíduos e os riscos geopolíticos desse tipo de projeto ainda o limitam. O hidrogênio verde, por sua vez, requer grandes volumes de energia renovável e de água, elementos nem sempre disponíveis. Já os veículos elétricos e os painéis solares, símbolos da transição energética, criam um passivo ambiental desconcertante, com milhões de baterias usadas, escassez de minerais estratégicos e novas cadeias de extração e descarte.

    Não basta inovar – é preciso medir e antecipar os efeitos colaterais da inovação. A pergunta não é apenas o que fazer, mas também como lidar com aquilo que fazemos. A civilização tecnológica de baixa emissão pode se tornar inviável se não houver um ciclo completo de reaproveitamento e reuso dos novos resíduos. É preciso, portanto, investir em conhecimento. Medir, modelar, estudar, antecipar, preparar. A ciência climática precisa ser fortalecida. Os dados devem ser transformados em inteligência aplicável. É necessário criar métricas de impacto que sejam robustas, auditáveis e comparáveis. Os governos, as empresas e a sociedade civil – incluindo a academia – precisam formar uma massa crítica capaz de lidar com esse quadro. Isso implica educação, planejamento e pactos de médio e longo prazo.

    A crise climática não é, definitivamente, um problema só para os ambientalistas. É uma crise epistêmica, institucional, econômica. E, para reagir a ela, precisaremos de novas formas de articulação entre saberes. A ideia de que o progresso depende apenas de crescimento quantitativo deve ser revista. Crescimento é simplesmente produzir mais. Progresso é garantir as condições de continuidade da vida com justiça, segurança e inteligência coletiva.

    A 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, a COP30, será realizada em novembro em Belém. A escolha da cidade-sede foi simbólica e estratégica. A Amazônia, não raro vista como periferia do Brasil e do mundo, será durante alguns dias o centro do debate global sobre o meio ambiente. Mas Belém não deve ser apenas um palco para se discutir emissões e metas. Deve, em vez disso, ser o lugar onde avançaremos no debate sobre riscos sistêmicos, infraestrutura, mercados e, em última instância, a sobrevivência do próprio capitalismo.





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