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    Início » Os riscos da ação de Trump no Irã: ‘Não se pode mudar um regime sem tropas em terra
    Brasil

    Os riscos da ação de Trump no Irã: ‘Não se pode mudar um regime sem tropas em terra

    1 de março de 2026
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    Pessoas em Los Angeles agitam bandeiras e cartazes com a imagem de Trump em apoio aos ataques contra o Irã.

    Crédito, Los Angeles Times via Getty Images

    Legenda da foto, Manifestantes da comunidade iraniana em Los Angeles, Califórnia, agitam bandeiras e cartazes com a imagem de Trump em apoio aos ataques contra o Irã
    Article Information

      • Author, Daniel Bush
      • Role, Correspondente da BBC News em Washington
    • Há 59 minutos

    • Tempo de leitura: 7 min

    Trump proclamará uma vitória geracional se os Estados Unidos conseguirem destruir completamente o programa nuclear do Irã e provocar uma mudança de regime em Teerã utilizando apenas o poder aéreo, mesmo que, a partir de Washington, não pareça haver um plano claro sobre o que viria depois da República Islâmica.

    Mas, se o ataque militar, denominado Operação Fúria Épica pelo Pentágono, fracassar ou desencadear uma conflagração regional mais ampla que exija uma participação contínua dos Estados Unidos, Trump poderá prejudicar seu legado, assim como as chances dos republicanos de manter o controle do Congresso nas eleições legislativas de meio de mandato, em novembro.

    O presidente deixou claro o que está em jogo em declarações feitas nas primeiras horas de sábado, quando anunciou o início de uma campanha militar no Irã.

    “Heróis americanos podem ser perdidos”, disse Trump. Ele argumentou que esse seria um preço necessário para infligir danos a um regime que, segundo ele, tem semeado o caos no Oriente Médio desde que chegou ao poder em 1979.

    “Durante 47 anos, o regime iraniano entoou ‘Morte à América'”, afirmou Trump. E acrescentou mais tarde: “Não vamos tolerar isso por mais tempo”.

    Mas, enquanto o mundo espera para ver o que o regime iraniano fará após a morte de seu líder supremo, ainda está por se ver se Trump conseguirá evitar uma campanha militar prolongada.

    Também é uma incógnita se ele conseguirá convencer a opinião pública americana — e especialmente sua base, que em grande parte se opõe às intervenções dos Estados Unidos no exterior — a apoiar mais uma incursão no Oriente Médio.

    Ali Khamenei

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, Ali Khamenei foi morto em ataque no sábado

    É um momento decisivo para Trump, que retornou ao cargo há pouco mais de um ano com a promessa de pôr fim às chamadas “guerras eternas”, como as que os Estados Unidos travaram no Afeganistão e no Iraque, mas que acabou lançando operações militares no Irã, na Venezuela e na Síria, entre outros países.

    O temor por um conflito prolongado

    Os bombardeios dos Estados Unidos e de Israel ocorreram depois que a Casa Branca advertiu que haveria um ataque caso o regime não aceitasse um acordo para abandonar seu programa de armas nucleares, deixar de produzir mísseis balísticos e retirar o apoio a grupos aliados como o Hamas e o Hezbollah.

    Após concentrar uma enorme força militar na região, Trump passou a noite de sexta-feira supervisionando o ataque à medida que ele se desenrolava, ao lado de seus principais assessores em sua residência na Flórida, em Mar-a-Lago.

    Em Washington, o vice-presidente, J.D. Vance, a diretora de Inteligência Nacional, Tulsi Gabbard, e outros altos funcionários da administração se reuniram na Sala de Situação da Casa Branca, segundo uma fonte familiarizada com o assunto, e se conectaram por linha de conferência com Trump para acompanhar o bombardeio em tempo real.

    A morte de Khamenei representa uma grande escalada, mas analistas alertam que ela pode escapar ao controle de Trump.

    “O dado já está lançado, e agora os Estados Unidos precisam ir até o fim para alcançar uma mudança de regime. O problema é que não se pode fazer isso sem tropas no terreno”, disse Mohammed Hafez, professor da Escola de Pós-Graduação Naval, na Califórnia.

    Os ataques de retaliação do Irã contra vários aliados dos Estados Unidos na região — Bahrein, Emirados Árabes Unidos, Catar e outros — indicaram que o regime planeja responder de forma mais agressiva do que após o ataque americano do ano passado, acrescentou.

    “A estratégia do regime iraniano será criar um conflito regional que afete a economia global e a economia americana, e isso não seria algo positivo para Trump”, afirmou Hafez, especialista em violência política islâmica e política do Oriente Médio. “Isso pode se transformar em um atoleiro.”

    Um conflito prolongado no Oriente Médio poderia afetar outras prioridades de Trump na região, como a reconstrução de Gaza após a guerra entre Israel e Hamas e o fortalecimento dos laços com a Arábia Saudita.

    Também poderia afastar seus eleitores em um momento em que seus índices de aprovação vêm sendo afetados pela frustração dos americanos com o custo de vida e outras questões internas.

    Nas últimas semanas, vários altos funcionários da administração expressaram preocupações sobre uma grande operação militar no Irã, segundo um ex-funcionário do primeiro governo Trump que continua próximo de sua equipe e conhece as deliberações internas na Casa Branca.

    Trump demonstrou confiança na missão no sábado, após decidir lançar o ataque e pôr fim a semanas de especulação sobre um possível bombardeio. Mas também enviou sinais contraditórios que levantaram novas dúvidas sobre quais são os objetivos de guerra dos Estados Unidos.

    “Posso prolongar isso e assumir o controle de tudo, ou terminar em dois ou três dias” e manter a ameaça de novos ataques sobre a mesa, disse Trump ao portal Axios.

    Mais tarde, afirmou nas redes sociais que “o bombardeio intenso e preciso… continuará, sem interrupção, durante toda a semana ou pelo tempo que for necessário”.

    Ataques de Estados Unidos e Israel contra Irã

    Crédito, Getty Images

    Legenda da foto, Os ataques de Israel e dos Estados Unidos provocaram uma ampla resposta do Irã, com ofensivas em todo o Oriente Médio

    As declarações ressaltaram o que os críticos descrevem como a abordagem improvisada de Trump na política externa e sua falta de interesse em preparar o terreno para conquistar o apoio de legisladores e da opinião pública local antes de lançar ataques militares.

    É essa mesma abordagem pouco convencional que, segundo seus aliados e apoiadores, lhe permitiu acumular sucessos, incluindo um cessar-fogo acordado em Gaza e um maior compromisso financeiro europeu com a Otan (Organização do Tratado do Atlântico Norte).

    Sem aprovação do Congresso

    Trump fez pouco previamente para apresentar aos americanos um argumento detalhado sobre por que é do interesse do país iniciar uma guerra com o Irã.

    O presidente poderia ter usado seu discurso sobre o Estado da União na semana passada para expor suas razões, mas decidiu não fazê-lo.

    O presidente lançou a campanha militar sem buscar primeiro a aprovação do Congresso. Ainda assim, a maioria dos republicanos expressou apoio à medida neste sábado.

    “O Irã está enfrentando as severas consequências de suas ações malignas”, afirmou o presidente da Câmara dos Deputados, Mike Johnson, em comunicado.

    “O presidente Trump e a administração fizeram todos os esforços possíveis para buscar soluções pacíficas e diplomáticas em resposta às persistentes ambições e ao desenvolvimento nuclear do regime iraniano, ao terrorismo e ao assassinato de americanos e até mesmo de seu próprio povo.”

    Mas a falta de coordenação com o Congresso enfureceu os democratas e alguns membros do próprio partido de Trump que se opõem aos ataques americanos.

    “Donald Trump está arrastando os Estados Unidos para uma guerra que o povo americano não quer”, enfatizou em comunicado a ex-vice-presidente e candidata democrata em 2024, Kamala Harris. Ela acrescentou que “nossas tropas estão sendo colocadas em perigo pela guerra escolhida por Trump”.

    O líder da minoria no Senado, Chuck Schumer, afirmou que a administração não forneceu “detalhes críticos sobre o alcance e a urgência da ameaça” ao Congresso nem ao povo americano. “Os ciclos erráticos de Trump de atacar e arriscar um conflito mais amplo não são uma estratégia viável”, disse.

    A forte reação dos democratas no sábado sugere que Trump pode ser obrigado a travar uma batalha política interna enquanto conduz a nova guerra no Oriente Médio, justamente quando começam as eleições primárias rumo às cruciais eleições legislativas de novembro.

    Os democratas da Câmara realizarão uma reunião no domingo à noite para discutir sua resposta à campanha militar, segundo duas fontes que falaram sob condição de anonimato para comentar os planos.

    O líder da minoria na Câmara, Hakeem Jeffries, disse que os democratas retomarão na próxima semana a tentativa de submeter a votação uma resolução para limitar os poderes de guerra de Trump em relação ao Irã.

    “É fácil prender o líder de outro país, como na Venezuela, mas o que você faz nos dias seguintes?”, disse um assessor democrata da Câmara. A administração “não articulou uma estratégia nem um objetivo”.

    Trump, por sua vez, declarou à emissora NBC no sábado: “Em algum momento, vão me ligar (do Irã) para perguntar quem eu gostaria (como líder). Estou sendo um pouco sarcástico quando digo isso”.

    E, embora as eleições legislativas de novembro sejam cruciais para definir o que Trump poderá alcançar no restante de seu mandato — como presidentes anteriores já descobriram —, sua decisão de lançar uma ação militar extraordinária no Oriente Médio pode se revelar ainda mais determinante para a definição de seu legado.



    Notícia publicada originalmente por BBC Brasil
    em nome do autor .

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